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A Equipa Redactorial

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Jornadas Mundiais da Juventude - Sidney 2008

Para que se possa conhecer e perceber melhor o que foi esta participação na XXIII Jornada Mundial da Juventude para a vida da Assembleia Paroquial de Jovens de Leça da Palmeira, e tudo o que ela acarretou, decidiu-se escrever este pequeno texto que serve como uma “meditação” ou como uma análise um pouco mais detalhada da mesma.

A primeira questão que se coloca é “como surgiu a oportunidade de participarem na Jornada? De onde veio essa ideia?”

Há cerca de três anos atrás, em 2005, uma amiga nossa e colega de trabalho na Paróquia, a Ana Patoleia, regressou da Jornada Mundial da Juventude em Colónia, na Alemanha. E quando regressou tinha na bagagem muitas histórias, muita alegria e muita Fé. Na altura éramos ainda mais novos, menos experientes. Mas foi neste momento que a vontade de estarmos presentes na Jornada de Sidney se instalou no grupo. Todos nós tínhamos começado a trabalhar mais directamente na APJ há relativamente pouco tempo, mas logo decidimos que a Jornada da Austrália seria um dos nossos grandes objectivos, senão o maior deles.

E a ideia foi-se construindo…

Tínhamos muito pouco. A única coisa que tínhamos de sobra era a vontade. O dinheiro era quase nenhum, a estrutura da APJ estava ainda a ser “re-levantada” e por tudo isso, praticamente ninguém acreditava em nós, naquele bando de jovens que parecia que não tinha os pés bem assentes na terra. Mas fomos trabalhando, “esgravatando” como se costuma dizer. Com pequenos sorteios, com pequenas vendas e alguns donativos, as coisas começavam a erguer-se. Mas o possível preço da viagem que então se especulava também aumentava cada vez mais. Houve muitas vezes a vontade de desistir, a vontade de atirar tudo para trás das costas mas, Ele esteve sempre do nosso lado. Sempre que algum membro do grupo se sentia mais desmotivado, menos confiante, Deus punha sempre outro colega no seu caminho, para juntos lutarem e vencerem esse sentimento.
E o tempo ia passando e o preço ia aumentando com o tempo. 1500, 1800, 2000 euros. Mas havia sempre o medo, o receio de não conseguirmos vencer. Principalmente a partir do último Verão, altura em que a Jornada de Sidney se aproximava mais e começava a ser sentida como um desafio cada vez maior, como uma “obrigação” até para a realização pessoal de cada um. As inscrições no grupo que viajaria pela Diocese do Porto abriram e foi a altura da grande decisão. Vamos ou não vamos? O preço tinha parado nos 2200 euros. Nessa noite tenho a certeza que o sono faltou a muitos membros da APJ. A decisão foi tomada e, perante as possibilidades, chegou-se à conclusão que a APJ seria representada por quatro jovens. Por motivos de trabalho ou de escola, outros colegas que também trabalharam arduamente para o financiamento desta viagem, não puderam participar. A todos eles, mas mais particularmente ao João Teixeira, à Paula Oliveira e à Cláudia Patoleia, o meu agradecimento pessoal. Porque sem eles também não teria sido possível.
Fizemos a inscrição na Diocese do Porto com a decisão de que metade da viagem dos quatro participantes seria paga com o dinheiro conseguido pela APJ nos últimos três anos para esse efeito. E este último ano, foi o ano em que mais trabalho foi exigido, mas o ano em que mais “gozo” tivemos, pois tudo levava à concretização do “tal” sonho.

Ao longo dos 15 dias da Jornada houve muitas emoções, muitos sentimentos…

E o dia 7 de Julho chegou. E finalmente partimos para a Austrália, num misto de alegria, de Fé mas, ao mesmo tempo, de comoção e de lágrimas. Afinal era mesmo verdade! Estávamos mesmo a ir para a Austrália! À medida que a viagem ia decorrendo, à medida que o destino estava cada vez mais perto, cada vez mais nós reflectíamos. “Afinal valeu a pena todo o esforço!”
Mas quando finalmente chegámos a Sidney estávamos ainda mais felizes. E cada dia que passava, estávamos com mais Fé. Cada vez que víamos aquelas multidões a caminhar com um só objectivo, o de unir mais os povos, o de amar mais os irmãos. Também houve lágrimas, houve alturas em que nos sentimos mais perdidos. As emoções são muitas e muitas vezes não as conseguimos compreender bem.
Apesar de tudo, foram 15 dias inigualáveis e inesquecíveis. Recordamos cada minuto com saudade e com muita alegria ao mesmo tempo.

E os 15 dias da Jornada o que é que trazem de novo?

Apesar de ter sido a primeira Jornada para quase todos os representantes de Leça da Palmeira – apenas a Ana Patoleia participou em 2005 –, temos a certeza que cada jornada muda ou aperfeiçoa algo naqueles que nela participam. Lá contactamos com gente de todo o mundo, com realidades muito diferentes daquelas a que estamos habituados e isso torna-nos, de uma maneira ou de outra, diferentes. Existe uma maior vontade de vencer, uma maior vontade de mudar nem que seja o mais pequenino erro. Dos cerca de 500 mil jovens que estiveram nesta XXIII Jornada Mundial da Juventude, estamos certos de que cada um será uma “nova” testemunha de Cristo à sua volta: na família, com os amigos e nas suas paróquias.

Em jeito de balanço…

Depois de tanto trabalho, de tanto sacrifício, estivemos na Austrália. Leça da Palmeira foi vista como uma grande paróquia, pois tinha quatro representantes nesta Jornada. Não foi uma Jornada qualquer. Não que as anteriores mereçam menos respeito, mas Sidney dista 20 mil quilómetros de Portugal. Por isso, agora uma palavra para os colegas que trabalham nesta Paróquia, a qualquer nível, vamos unir-nos ainda mais e fazer ainda mais pelas pessoas de Leça da Palmeira. É possível fazer a diferença!

E depois de Sidney?

Agora o objectivo principal da APJ para os próximos três anos é a preparação para a Jornada Mundial em Madrid. Já nos comprometemos connosco próprios a fazer cumprir este objectivo.
Este texto pode parecer um texto emotivo demais, mas para nós, membros activos da APJ, esta viagem foi muito mais do que uma simples viagem. Foi o principal motivo pelo qual decidimos trabalhar unidos e agora não mais vamos parar.


Dia 2 08/07/08

12h45min – hora portuguesa

Já vamos no 2º dia da nossa grande viagem.
Ontem saímos de Perafita um pouco mais tarde do que era previsto, (como é óbvio). Já tínhamos o nosso rumo bem traçado, o nosso percurso bem definido. A primeira etapa foi Lisboa, onde passámos a primeira noite destes 15 dias que se avizinham, no mínimo, fantásticos.
Fizemos uma pequena paragem na área de serviço de Leiria,, onde o grupo aproveitou para fazer o habitual xixizinho e comer qualquer coisa (ou até para beber uma cervejinha! Xiu! Isso não era para se dizer!). Já pouco faltava para a chegada a Lisboa quando alguns ainda aproveitavam os bancos do mini-bus para dormir, ou então só para fechar os olhos, como a nossa colega Irene ,(sem dúvida!).
Muito animados pela boa disposição do padre Tony e dos outros membros do grupo. Já passava da meia-noite quando chegámos ao sítio onde pernoitámos: a casa dos Padres Espiritanos, mesmo atrás da residência imponente do Sr. Primeiro-ministro, o Engenheiro José Sócrates, (ainda estivemos a ver se o víamos, mas tivemos azar!). Sem fazer nenhum barulho, (claro, claro), “montámos a tenda”, que é como quem diz, arrumámos os nossos sacos-cama para dormir algumas horitas antes da partida para o aeroporto da Portela. À hora combinada (ou depois um bocadinho), lá nos reunimos para o pequeno-almoço e depois, de táxi, rumámos ao aeroporto.
Pensávamos nós que estávamos a chegar cedíssimo, (até fomos entrevistados pelo programa Ecclesia e tudo!), mas não. Os problemas com os vistos e com os nomes trocados começaram e quase ficávamos em terra, mas graças a Deus tudo se resolveu a uns 25 minutos do voo! SORTE!
Lá embarcámos e, até agora, está a correr tudo bem! Já falta pouco para chegarmos a Londres!
A fé está cada vez mais dentro de cada um de nós. Sinto que Cristo está lá longe a chamar por mim e que esse grito se torna cada vez mais nítido, cada vez mais sonante. Como posso eu resistir-lhe? Impossível!
O nosso sonho começou. Há cerca de 2/3 anos sonhámos que podíamos vir até à Austrália. Ninguém acreditou e alguns até tentaram afastar-nos dessa ideia, mas a persistência de Cristo feito jovem em cada um de nós foi maior e graças a Ele estamos a conseguir! Sim, deu-nos muito trabalho, mas cada minuto que estamos a passar está a valer todo o trabalho e esforço do mundo!
“Porque um jovem nunca desiste, muito menos um jovem católico!”

Santa Maria, Mãe de Deus e Mãe dos Jovens,
Rogai por nós!

Algures, perto de Londres.


Dia 3 09/07/08

14H05min – hora portuguesa

Já estamos no 3º dia da nossa viagem.
Depois de 8 horas no aeroporto de Heathrow, em Londres, que mais parecia uma cidade e não um aeroporto, cá estamos num novo avião. Nessas oito horas fizemos de tudo: comemos, dormimos no chão do aeroporto, o Vilaça, o Mário e o João andaram uma hora só para poder fumar um cigarro, jogámos à sueca durante montes de tempo… Enfim, estávamos super cansados e ainda tivemos de aturar um inglês desdentado que nos mandou retirar toda a nossa bagagem de mão de um sítio para outro! Enfim! Mas as 21h35min lá chegaram e finalmente ‘embarcámos’ na prova de fogo – a viagem de Londres para Singapura, ou seja, doze horas e meia de voo. Mas pronto, era de d noite, deu para dormir e para ver uns filmezinhos. Chegados a Singapura, que tem um aeroporto muito calmo e muito moderno ao mesmo tempo, encontrámos logo um português, o que nos deixou muito felizes, obviamente. O senhor é um emigrante na Austrália que estava de regresso a Portugal para umas férias. Ah! O senhor até nos indicou um clube português em Sidney, onde se come muito boa comida portuguesa, o Frazer Park. Assim, se a fome apertar e o tempo disponível assim o permitir, recorreremos a este clube.
Depois de visitarmos o aeroporto e o seu jardim EXÓTICO, (bastante, mesmo), embarcámos de novo no mesmo avião rumo a Sidney. Para quem aguentou quase treze horas, também aguenta mais estas sete. Tem acontecido de tudo neste avião: ou é uma passageira que come o triplo dos outros; ou é um senhor que veste uma saia, (não, não é um kilt, é mesmo uma saia travada!); ou é um passageiro que reclama com todo o barulho e mais algum; ou são os imensos jovens espanhóis que falam a correr. Mas está a ser divertido. Neste momento, estamos a sobrevoar o Oceano Índico, mesmo junto à Indonésia. Já só faltam 4887kms para chegarmos a Sidney. Está quase, quase!
Sinto-me cada vez mais motivada, cada vez mais com Cristo. Basta que deixemos que o amor de Deus nos toque com o seu espírito de luz e com a sua sombra de paz e de amor.

Santa Rita,
Rogai por nós!


Algures no Oceano Índico.

P.S. O mundo é tão pequeno, que quando chegámos ao terminal no aeroporto de Heathrow, encontrei logo um antigo professor meu e da Rita do instituto de Inglês que agora trabalha no aeroporto, o David Powley! Mal comecei a descer as escadas rolantes e vi aquela longa cabeça calva, percebi logo que era ele e dirigi-me onde estava. E não é que perguntei: “David?” Ao que ele me responde “Yes, Ana!” Meu Deus, como o mundo é pequeno! Já foi meu professor há uns anos, já teve milhares de alunos, mas mesmo assim lembrou-se de mim e da Rita!


Dia 5 11/07/08

17h09min – hora australiana

São cinco horas da tarde e já está de noite aqui em Murrurundi, uma “terrinha” na Diocese de Maintland-Newcastle.
Chegámos a Sidney ontem de madrugada. Depois de mais de um dia de viagem de avião, finalmente aterrámos em Sidney. Fomos buscar as malas e descobrimos que uma mala dum colega tinha ficado em Lisboa. Deram-lhe uns trocos para qualquer necessidade e prometeram que lha entregavam aqui, na sua família d acolhimento. Ainda nem sei se o fizeram. Depois deste contratempo saímos do aeroporto, mas nem vimos o sol – fomos logo apanhar o comboio para Newcastle. Mais duas horas de viagem! Saímos numa estação com um nome engraçadíssimo, “Fassifern”. Chegados a Fassifern, fomos recebidos por umas meninas que nos encaminharam para uma nova viagem, esta bem mais curta e de autocarro. O destino era uma escola onde era feito o acolhimento e o registo na diocese de todos os peregrinos. Aqui almoçámos e logo travámos conhecimentos com outros peregrinos colombianos, ingleses, e até dumas nacionalidades muito estranhas, dumas ilhas do Pacífico que eu nunca tinha ouvido falar. Os jovens que iam chegando, iam-se “acomodando” no terreno da escola. Por volta das 19 horas apanhámos novo autocarro para nova viagem de comboio até Mushelbrook, a paróquia onde iam “atribuir” a família de acolhimento a cada peregrino. Logo travámos novos conhecimentos, desta vez com americanos que estavam doidos para saber a nossa opinião sobre George W. Bush! (risos!) Depois de mais duas horas de comboio, la chegámos à nossa cidade e fomos muito bem recebidos por vários jovens. De seguida, fomos matar um pouco a fome na Igreja Paroquial, seguindo-se um momento de oração e a apresentação às famílias de acolhimento. Eu, a Rita, a Ana Patoleia e a Ana Maria ficámos juntas, mas ficámos um pouco assustadas quando percebemos que nos iriam levar à nossa família de acolhimento, porque era um bocadinho longe. E era! Depois de uma hora de viagem, no carro de um senhor padre que fazia ultrapassagens malucas, lá chegámos à “nossa” casa, em Murrurundi, a casa paroquial. E assustámo-nos ainda mais porque era muito, muito, muito gélida e está desabitada porque o pároco tem duas paróquias. Resumindo, isto é um autêntico congelador. Ligámos os aquecedores, mas o frio continuava. Então decidimos que íamos dormir as quatro na sala de estar em frente a um recuperador de calor a lenha, super quente, mas que só consegue aquecer a sala de estar. Lá passámos a noite a maldizer a nossa sorte, porque não tínhamos família connosco e estávamos completamente perdidas no meio do nada!
Hoje de manhã levantámo-nos e fomos à eucaristia concelebrada pelo pároco daqui, o Padre John, o Padre Alípio e o Padre Mateus. Uma missa meio portuguesa, meio inglesa. Na assistência apenas tínhamos dezassete pessoas, sendo que quatro éramos nós.
A seguir fomos almoçar com o Padre Mateus e com o Padre Alípio a um centro de senhoras benfeitoras. Aí visitámos também uma casinha típica reconstruída onde pudemos comprar algumas lembranças.
Depois, passeámos durante cerca de duas horas de carro pelas redondezas da nossa cidade e finalmente vimos cangurus! Três pequeninos, mas eram três cangurus.

22h – hora australiana

Depois desse passeio fomos jantar com os nossos amigos portugueses que estão na paróquia de Scone. Fiquei um pouco triste porque parece que eu, a Rita, a Ana Maria e a Ana Patoleia estamos mesmo no fim do mundo e que a nossa família de acolhimento não é a mais normal. Já voltámos a casa e estamos a preparar-nos para dormir. Amanhã o dia promete ser longo!

Sagrado Coração de Jesus,
Rogai por nós!

Dia 6 12/07/08

21h30min – hora australiana

Mais um dia da nossa peregrinação. Hoje foi um dia bem divertido! Estivemos com os colegas da paróquia de Scone numa quinta onde vimos ovelhas a serem tosquiadas, cavalos a terem os cascos mudados e alguns instrumentos de aborígenes. Lá, almoçámos com alguns peregrinos ingleses, chineses e americanos, e com as respectivas famílias de acolhimento.
O mais engraçado é que essa quinta é pertença de uma senhora da Igreja Anglicana que disse, e com muita razão, que “se todas as religiões trabalhassem juntas, o mundo seria muito melhor.”
Vamos agora descansar, já nas nossas camas (já não está tanto frio) porque o cansaço nas pernas é muito.

São José,
Rogai por nós!


Dia 8 14/07/08

07h40min – hora australiana

Ora acaba de nascer mais um dia aqui em Murrurundi. É pena ter nascido com chuva. Ontem foi um dia FANTÁSTICO! Estivemos numa outra pequena quinta onde fizemos um pic-nic com todos os portugueses do nosso grupo e com as nossas famílias de acolhimento: cantámos, dançámos, rimos e tudo mais a que tínhamos direito. Foi um convívio muito bonito entre todas aquelas nações juntas em prol da sua Fé que se sente cada vez mais e se torna cada vez mais evidente. Tivemos também uma eucaristia toda em português, incluindo os cânticos jovens que encantaram as pessoas das nossas paróquias de acolhimento de Murrurundi, Scone e Mushelbrook, que são paróquias envelhecidas, sobretudo a de Murrurundi. O dia terminou com um óptimo barbecue (=churrasco) aqui na nossa casa, com todos os portugueses e famílias. Foi o tempo das despedidas. Foi o último dia em que estivemos com as nossas famílias de acolhimento. Daqui a pouco vamos deixar Mururrundi, Scone e Mushelbrook, rumo a Sidney, o ponto mais alto desta longa viagem. Houve algumas lágrimas, muito sentimento e a certeza de que nunca nos vamos esquecer de ninguém, de nenhuma cara, ainda que idosa, que durante estes quatro dias apenas viveram para nós, apenas viveram para que nada nos faltasse e estivéssemos bem. Apesar de todos os defeitos da casa, apesar de estarmos numa terra quase no fim do mundo, o balanço é muito positivo. Não chegam todas as palavras de agradecimento do mundo para expressar toda a nossa gratidão para com os nossos “papás” de Murrurundi. Eu, a Rita, a Ana Maria e a Ana Patoleia, apesar de não termos uns pais de acolhimento “permanentes”, visto que estivemos a dormir sozinhas na nossa casa, temos de agradecer tudo aquilo que todos estes velhinhos fizeram por nós as quatro, as suas “girls” (= meninas).
Houve momentos em que chorei, em que me senti muito perdida aqui, porque afinal estivemos sozinhas na casa, mas agora percebo que afinal, os nossos “papás” todos, fizeram tudo, mas tudo o que estava ao alcance deles para que todas gostássemos da nossa estadia aqui na sua humilde terra.
Bem, agora venha Sidney. Venha o encontro com o Santo Padre. Venha mais e ainda mais Fé!

Nossa Senhora de Fátima,
Rogai por nós!


Dia 11 17/07/08

15h45min – hora australiana

Estamos no comboio. Estes dias têm sido absolutamente fantásticos. Super cansativos mas absolutamente maravilhosos.
Depois de cerca de quatro horas de viagens de comboio de Newcastle até Sidney, chegámos à Holy Family School, onde estamos alojados. Nesta escola primária estão também austríacos e os outros portugueses que vieram pelo Departamento Nacional e pelo Patriarcado de Lisboa.
No segundo dia em Sidney, de manhã visitámos a St. Mary’s Cathedral, que é considerada a mais bonita das catedrais de toda a Austrália e que recebeu alguns restauros para que se tornasse ainda mais bela aos olhos dos jovens peregrinos que a visitam. Uma catedral magnífica com cerca de cento e vinte e cinco anos, com belíssimas colunas, pinturas celestiais e acabamentos perfeitos. Depois desta visita estivemos em Barangaroo, onde almoçámos, assistimos à missa de abertura da Jornada Mundial da Juventude, celebrada pelo Arcebispo de Sidney. Foi no caminho da Catedral para Barangaroo que percebi que estou na Austrália, que realmente estou numa Jornada Mundial da Juventude. Em Barangaroo, trezentos mil jovens concentrados naquela mostra de Fé, comunhão e amor. Trezentos mil jovens apenas com Cristo no coração. Trezentos mil jovens de todo o mundo a transpirarem alegria. O jantar também foi servido no Barangaroo, seguindo-se o Festival Jovem que encantou toda aquela juventude. Mas o cansaço era tanto que tivemos de voltar à nossa escola para o merecido descanso.

22h – hora australiana

No dia seguinte, ou seja, ontem, tivemos uma catequese de manhã na Igreja mesmo em frente à “nossa” escola. O nosso catequista foi um Senhor Bispo auxiliar de Braga. O Espírito Santo foi, obviamente, o tema dessa catequese. Centenas de jovens portugueses e brasileiros entoando cânticos e meditando naquelas palavras tão certas e tão bonitas. Depois da catequese, participámos na eucaristia, também muito alegre e juvenil, como era de esperar.
Depois do almoço na nossa escola, partimos à descoberta de Sidney: fomos a um Aquário e ao Wildlife of Sidney. Foi uma visita giríssima onde pudemos ver animais que só podem ser vistos na Austrália, como cangurus, coalas, e até as mais perigosas cobras e os mais raros repteis e insectos.
O jantar foi, normalmente, servido no Barangaroo, onde também estivemos a assistir a dois concertos no Festival da Juventude. Só depois voltámos à escola, que fica a vinte minutos a pé de Barangaroo até à estação dos comboios e cerca de vinte e cinco minutos de comboio mais.

Santa Maria do Cruzeiro do Sul,
Rogai por nós.
Dia 12 18/07/08

08h30min – hora australiana

Ontem foi um dia também muito cheio, como os outros também têm sido, aliás.
De manhã fomos visitar a Torre de Sidney. Deslumbrámo-nos com a imensa e magnífica vista sobre esta cidade enorme, linda e cosmopolita.
Ao almoço decidimos procurar a Comunidade portuguesa aqui em Sidney. E conseguimos. Rumámos a Petersham, onde fomos logo muito bem recebidos por toda a gente por quem íamos passando. Logo encontrámos um restaurante português e até entrámos a cantar o hino nacional. Foi fantástico e delirante, sentir todo aquele amor ao nosso país por parte daquela gente que tem a sua vida agora edificada a mais de vinte mil quilómetros de distância da sua terra natal.
Comemos uma boa refeição, bebemos um café, (como já não bebíamos há mais de uma semana), e rimos. Rimos muito! Desejaram-nos muito amor, muita felicidade, muitas graças! Voltámos a Sidney, desta vez para vermos o Santo Padre chegar e dar a sua primeira palavra aos milhares de jovens de todo o mundo, de todos os cantos da terra. E vimo-lo passar mesmo, mesmo à nossa frente. O seu sorriso e a sua bênção fizeram-nos sentir tão bem. Naquele momento senti-me muito pequenina, muito minúscula em comparação com tanta Fé, com tanta devoção que cada jovem demonstrava no seu olhar. Meu Deus!
Agora vai começar a nossa catequese de hoje. Vai concerteza “encher-nos”, tal como o Espírito Santo nos tem “enchido” nesta Jornada Mundial da Juventude.


Sagrada Família,
Rogai por nós!

Dia 12 18/07/08

23h30min – hora australiana

Mais um dia que passou e meu coração parece que vai rebentar de tanta felicidade. Parece exagero, mas os dias aqui parecem intermináveis e sempre tão “produtivos”.
Esta tarde tirámos um tempinho para umas compras em George Street, uma das mais conhecidas aqui em Sidney. Depois dessas comprinhas, depressa rumámos a Barangaroo para daí assistirmos à Via-sacra que, diga-se, foi fantástica: de uma parte à outra da cidade, dezenas de actores e actrizes VIVERAM estes episódios da vida de Cristo. O sentimento deles era tão forte que facilmente o conseguiram transmitir e colocar nos milhares de jovens concentrados em Sidney. Então quando o “elenco” chegou a Barangaroo para as últimas estações é que a Fé falou ainda mais alto. Os jovens todos em pé, com as lágrimas caindo pelo rosto de muitos. Que sensação! Impossível explicar o que se sente numa altura destas. Indescritível, sem dúvida!
Mais um jantar no Barangaroo, e mais uma noite de Festival da Juventude. A última. Amanhã partimos para Randwick para O grande fim-de-semana das nossas vidas. Ainda nem acredito!

Senhor Jesus,
Rogai por nós!

Dia 13 19/07/08

04h30min – hora australiana

É cedíssimo mas já estamos a caminho de Randwick. Não há sono em nós, só esperança, só Fé, só vontade de vencer com Cristo. Vai ser um dos grandes fins-de-semana das nossas vidas. Não tenho dúvidas.

09h00min – hora australiana

Chegámos a Randwick onde vamos passar estes dois dias. Já nos acomodámos aqui. Parece que fomos os primeiros a chegar, (nem parece que somos portugueses)! Agora todos descansam e dormem mais um pouco. Estão quase a chegar as “grandes” horas. Nem quero pensar!

Espírito Santo Criador,
Rogai por nós!


Dia 14 20/08/08

19h00min – hora australiana

Já é domingo. Já “passou” o fim-de-semana.
Ontem estávamos todos a descansar durante a manhã, quando vimos que se aproximavam os nossos amigos americanos que conhecemos no primeiro dia aqui na Austrália e com quem estivemos quando fomos para Sidney, depois da semana nas famílias de acolhimento. Que sensação! Pensávamos que nunca mais os iríamos ver na vida, mas Deus “faz” destas coisas, e decidiu trazê-los para perto de nós. Que alegria! A partir daí não mais nos “separámos” e passámos o fim-de-semana juntos.
A noite de Sábado chegou e trouxe consigo a vigília que, no mínimo, foi estrondosa. E não estou a exagerar na palavra. Para mim, a mais emocionante da minha vida! Aquelas centenas de milhares de velas, aqueles milhares de olhos todos postos em Sua Santidade, aqueles milhares de ouvidos que escutavam atentamente as suas palavras e aqueles milhares de corações que faziam aquelas milhares de bocas inundar de Fé, inundar Cristo feito jovem, faz tremer e arrepiar qualquer um. E ouvir quinhentos mil jovens entoar o lindíssimo hino desta Jornada Mundial é no mínimo arrepiante. Dá vontade de gritar e faz-nos prometer que Jesus jamais morrerá em cada um de nós! Jamais! E a missa desta manhã tornou ainda mais firme essa convicção. Inesquecível e indescritível mesmo!
Ainda não saímos da Austrália e já temos saudades de tudo o que aqui vivemos. Para sempre recordaremos cada minuto.

Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, padroeira da Austrália,
Rogai por nós!





Dia 16 22/07/08

19horas – hora portuguesa

E chegou ao fim a nossa peregrinação, depois de quase vinte e quatro horas de avião com pequenas paragens em Singapura e em Londres.
Chegados a Lisboa, já só queríamos chegar ao Porto para junto das nossas famílias e dos nossos amigos. Apesar de toda a felicidade e entusiasmo vividos na Austrália, as saudades de casa e da família já começavam a apertar.
Aqui, os sentimentos confundiram-se. Havia a vontade de vir para casa, a vontade de voltar para Sidney. Mas lá chegámos e concerteza que todos contámos as imensas novidades que trazíamos das terras do Sul. Mas tenho a certeza absoluta que o coração de cada um de nós está cheio, está cheio de Fé e com vontade de gritar ao mundo que Cristo é o Caminho, que Cristo é a Verdade, que Cristo é a Vida!

Espírito Santo,
Rogai por nós!











Uma reflexão teológica acerca do Hino “Receive the Power”

O tema escolhido para ser o Hino da XXIII Jornada Mundial da Juventude, “Receive the Power” (“Recebe a Força”) foi escrito “à volta” do tema escolhido por sua Santidade o Papa Bento XVI, “Recebereis força quando o Espírito Santo descer sobre vós e sereis minhas testemunhas.” (Actos, 1:8). Este tema está dividido em duas partes: por um lado, Cristo reforma a Sua promessa de mandar o Espírito Santo; por outro lado, Cristo chama à responsabilidade os seus seguidores – a vida que essa força exige: os discípulos têm de ser Suas Testemunhas até aos confins da Terra.

Diálogo no Espírito entre Cristo e os jovens discípulos

A canção efectivamente capta os dois aspectos do tema. No refrão, Cristo endereça aos jovens do mundo uma saudação “Aleluia, aleluia! Recebe a força do Espírito Santo. Aleluia, aleluia! Recebe a força para seres uma luz no mundo”. Nos versos, os jovens respondem “nós Te seguiremos até aos confins da Terra”; “nós responderemos e faremos a Tua vontade”; “nós Te adoramos”. Este diálogo no Espírito, entre Cristo e os seus jovens seguidores, está no coração da Evangelização, da Catequese, do acto de acreditar e adorar. É o coração da Jornada Mundial da Juventude.


Um dos objectivos das Jornadas Mundiais da Juventude é a redescoberta, por parte dos jovens, das riquezas do Mundo de Deus, da Sagrada Escritura. Toda a letra do Hino “encaixa” na perfeição no tema da Jornada de Sidney e não só a sua parte central. Como os Actos dos Apóstolos deixam bem claro: a Graça do Espírito Santo é dada aos discípulos para que eles possam testemunhar a Palavra de Deus.

O Hino é uma reflexão

O tema da Jornada Mundial da Juventude 2008 chama-nos à reflexão acerca da força que o Espírito Santo tem nas vidas dos jovens. O Hino invoca o Espírito Santo três vezes no refrão, como Cristo que convida os jovens a “receber a força do Espírito Santo”. Os jovens respondem no verso “Como o Teu Espírito nos chama, nós respondemos e faremos a Tua vontade”. A especificidade do Hino torna-o particular para a Jornada Mundial da Juventude 2008, mas ao mesmo tempo muito abrangente.

O Hino é bíblico

O tema da Jornada Mundial da Juventude 2008 é tirado das últimas palavras que Cristo disse aos seus discípulos antes de subir para o Pai. A promessa do Espírito Santo é especificamente ligada por Cristo para chamar os discípulos para que fossem Suas testemunhas até com o martírio. Mas, para quem? O Espírito Santo fortifica os jovens não para darem testemunho a eles próprios, não para darem testemunho ao Espírito, mas serem testemunhas de Cristo.

Especificidade e continuidade

Embora a canção seja muito específica ao tema da Jornada Mundial da Juventude 2008 – com as suas múltiplas referências à força e ao poder do Espírito Santo e às jovens testemunhas – também se interliga e unifica com os grandes temas catequéticos escolhidos pelo “pai” das Jornadas Mundiais da Juventude, o Papa João Paulo II: “Emmanuel” (Jornada Mundial da Juventude 2000, Roma), “Light to the world” (Jornada Mundial da Juventude 2002, Toronto) e “Nós Te adoramos” (Jornada Mundial da Juventude 2005, Colónia).
Assim, a canção expressa, quer a especificidade da Jornada Mundial da Juventude 2008 em Sidney, quer a continuidade de mais de vinte anos de Jornadas Mundiais, e a de mais de dois mil anos de proclamação da Palavra de Cristo, desde o Arcanjo Gabriel que primeiro chamou Jesus o “Emanuel” (Deus connosco), e João Baptista que o identificou como o “Cordeiro de Deus”.

Padre Anthony Fisher

Hino da Jornada Mundial da Juventude, Sidney 2008
“Recebe a Força”

Cada nação, cada tribo
Vêm juntas para Te adorar
Na tua presença nos alegramos
Iremos seguir-te até aos confins da Terra

Aleluia! Aleluia!
Recebe a Força, do Espírito Santo
Aleluia! Aleluia!
Recebe a Força para ser uma luz para o Mundo!


O Teu espírito nos chama
Nós responderemos e faremos a Tua vontade
Testemunharemos para sempre
A Tua piedade e o Teu amor

Cordeiro de Deus, nós Te adoramos
Nosso Senhor, nós Te adoramos
Corpo de Vida, nós Te adoramos
Emanuel, nós Te adoramos

Cordeiro de Deus, nós Te adoramos
Nosso Senhor, nós Te adoramos
Corpo de Vida, nós Te adoramos
Emanuel, cantaremos para sempre!


Os Números da Viagem


4 – os participantes na Jornada Mundial da nossa paróquia

22 – o número de jovens que viajaram até à Austrália com a Diocese do Porto

24 – o número aproximado de horas de avião que distam Portugal e a Austrália

26 – os cardeais que estiveram nesta Jornada Mundial

100 – os actores que participaram na Via Sacra de sexta-feira, dia 18

400 – as cidades e aldeias da Austrália por onde a Cruz dos Jovens e o Ícone de Nossa Senhora passou durante 12 meses de peregrinação pelo país

420 – os bispos participantes

450 – os festivais juvenis realizados na Jornada Mundial em 100 lugares diferentes de Sidney

2 mil – os jornalistas que fizeram a cobertura do evento

4 mil – os sacerdotes e diáconos que participaram no evento

8 mil – o número de voluntários que prestaram serviços nos diferentes eventos

223 mil – os jovens que participaram nas actividades da Jornada Mundial

400 mil – as pessoas que participaram na Missa Final em Randwick, a mais numerosa da história da Austrália

500 mil – o número de pessoas que deram as boas-vindas ao Papa Bento XVI na tarde do dia 17 de Julho
25 milhões – as refeições foram servidas entre os dias 15 e 20 de Julho

Glossário
Para que se perceba um pouco melhor a dinâmica e o funcionamento desta Jornada Mundial da Juventude, deixamos aqui alguns “termos” que fizeram parte do nosso dia-a-dia durante 15 dias.

Murrurundi – a pequena vila que acolheu a Ana Isabel, a Rita Calejo e a Ana Patoleia, três das “leceiras” na Jornada

Scone – a pequena cidade que acolheu o resto dos peregrinos do grupo da diocese do Porto

Granville – a estação dos comboios em que tínhamos de sair para irmos para a escola onde estivemos acolhidos durante a estadia em Sidney

Barangaroo – amplo local em Sidney onde a maioria dos peregrinos se concentrava para as refeições, para assistir à Missa de Abertura da Jornada, à Via-Sacra e onde foram dadas as boas-vindas ao Papa Bento XVI aquando da sua chegada

Randwick – hipódromo que acolheu as 400 mil pessoas que participaram na Vigília de sábado à noite, dia 19 de Julho e na Missa Final de domingo, dia 20

Reportagem elaborada na íntegra pelos participantes das jornadas e membros da Assembleia Paroquial de Jovens de Leça da Palmeira, Ana Isabel Faria, Ana Patoleia, Rita Calejo e Simão Bártolo.

in "A Voz de Leça" Ano LV - Número 6 - Setembro de 2008

Festarte 2008 - Património Imaterial Cultural da Humanidade

Sob o Signo da UNESCO

Decorreu entre os dias 24 de Julho e 4 de Agosto o 11º FESTARTE – Festival Internacional de Artes e Tradição Popular de Matosinhos, que este ano trouxe ao nosso concelho grupos folclóricos oriundos de seis Países, desde a Ásia até à América Latina, passando pela Europa maioritariamente representada como vem sendo habitual. Este ano o FESTARTE procurou chamar a atenção para a Salvaguarda do Património Imaterial Cultural da Humanidade, adoptada a 17 de Outubro de 2003, na 32ª Sessão da Conferência Geral da UNESCO. Sendo o FESTARTE um festival CIOFF (Comité Internacional de Organizadores de Festivais de Folclore e Artes Tradicionais), nada faria mais sentido do que promover e naturalmente salvaguardar esse Património Imaterial Cultural. Essa Convenção da UNESCO foi ratificada por decreto do Sr. Presidente da República de 26 de Março de 2008 e igualmente aprovada pela Assembleia da República. Para que possamos perceber exactamente do que se trata, aproveito as palavras do presidente do FESTARTE, Raul Neves, que na sua mensagem aos participantes do Festival, transcreve o artigo 2 dos 40 existentes nessa resolução:
“1) Entende-se por “património cultural imaterial” as práticas, representações, expressões, conhecimentos e aptidões – bem como os instrumentos, objectos, artefactos e espaços culturais que lhes estão associados – que as Comunidades, os Grupos e, sendo o caso, os indivíduos reconheçam como fazendo parte integrante do seu património cultural. Esse património cultural imaterial, transmitido de geração em geração, é constantemente recriado pelas Comunidades e Grupos em função do seu meio, da sua interacção com a natureza e da sua história, incutindo-lhes um sentido de identidade e de continuidade, contribuindo, desse modo, para a promoção do respeito pela diversidade cultural e pela criatividade humana. Para os efeitos da presente Convenção, tomar-se-á em consideração apenas o património cultural imaterial que seja compatível com os instrumentos internacionais existentes em matéria de direitos do Homem, bem como as exigências de respeito mútuo entre comunidades, grupos e indivíduos e de desenvolvimento sustentável;
2) O “património cultural imaterial”, tal como definido no número anterior, manifesta-se nomeadamente nos seguintes domínios:
a) Tradições e expressões orais, incluindo a língua como vector do património cultural imaterial;
b) Artes do espectáculo;
c) Práticas sociais, rituais e eventos festivos;
d) Conhecimentos e práticas relacionados com a natureza e o universo;
e) Aptidões ligadas ao artesanato tradicional.”
Se olharmos para o FESTARTE como um todo verificamos que, de facto, este Festival abrange quase todos, senão mesmo todos os itens da referida convenção, envolvendo não só os participantes no certame, mas a população de Matosinhos naquela que é considerada por muitos como a maior manifestação cultural do Concelho. Há que continuar a fortalecer aquilo que ao longo de 11 anos o FESTARTE tão duramente procurou transmitir, para que todos juntos possamos ajudar a salvaguardar o agora chamado “Património Imaterial Cultural da Humanidade”.

O FESTARTE Dia a Dia

foram os espectáculos, actuações e eventos que os grupos participantes no FESTARTE tiveram de efectuar. Ao longo de 10 dias houve oportunidade para apreciar o esplendor dos seus trajes, a magia das suas danças, o som único dos seus instrumentos e até provar o sabor da sua gastronomia. O FESTARTE começou no dia 25 de Julho, como vem sendo hábito com o hastear das bandeiras acompanhado dos respectivos hinos dos Países participantes, numa cerimónia sempre muito aguardada, sobretudo pela emoção que causa a sonoridade de cada hino nacional. Nesse mesmo dia, às 21.30, na Praça Eng. Fernando Pinto de Oliveira, realizou-se a Gala de Abertura do Festival, durante a qual todos os Grupos fizeram como que a sua apresentação. O FESTARTE prosseguiu no sábado, com o Encontro de Etnografia e Folclore no Auditório Infante D. Henrique na APDL, sendo também neste dia a abertura da Feira Internacional de Artesanato. Domingo, dia 27 de Julho, foi, como seria de esperar, o dia grande do FESTARTE com a Eucaristia Ecuménica presidida pelo Rev. Padre Fernando Cardoso de Lemos, que contou com a participação de todos os Grupos. Após o almoço, deu-se o desfile pela Avenida Dr. Fernando Aroso até à Feira de Artesanato, com passagem pelo Salão Nobre da Junta de Freguesia para a Recepção Oficial do XXI Festival Internacional de Folclore. Após estes dois eventos teve lugar o Festival Internacional de Folclore, que para além dos Grupos estrangeiros contou ainda com a presença dos portugueses Grupo Típico “O Cancioneiro” de Águeda, Grupo Etnográfico de Danças e Cantares do Minho – Lisboa, Rancho Folclórico de Gouxaria – Alcanena, Grupo Folclórico da Casa do Povo de Ceira – Coimbra e os Grupos organizadores do FESTARTE: Rancho Típico da Amorosa e Rancho Típico de S. Mamede Infesta. O que não ajudou nada à festa foi o estado do tempo que ao longo do dia se foi agravando, acabando por impossibilitar a animação nocturna da Feira de Artesanato pelo Grupo Paroquial de Teatro, assim como o encerramento do dia. Na segunda-feira, dia também bastante preenchido em termos de programação, teve lugar nas ruas Brito Capelo e Parque Basílio Teles a já habitual animação de rua seguindo-se a recepção oficial do FESTARTE no Salão Nobre da Câmara Municipal de Matosinhos. De tarde, os grupos tiveram oportunidade de participar nas Galas Folclóricas de Solidariedade, nomeadamente na Associação Lavrense de Apoio ao Diminuído Intelectual – ALADI onde esteve presente o Grupo da Espanha, na Cadeia Feminina de Santa Cruz do Bispo que contou com a presença do Grupo da República Checa e no Lar de Santana em Matosinhos, que teve a participação do Grupo da Argentina. À noite, em Santa Cruz do Bispo, teve lugar uma Gala Folclórica com os Grupos da Hungria e da Sérvia, tendo a animação da Feira de Artesanato estado a cargo do Grupo de Taiwan. Terça-feira, dia 29 de Julho, foi o dia livre do FESTARTE, sendo apenas de salientar a animação da Feira de Artesanato pelo Rancho Típico da Amorosa. No dia seguinte, pelas 10 horas, deu-se inicio aos Ateliês de Dança, no Adro da Igreja Matriz de Leça da Palmeira, com a presença dos Grupos da Sérvia e da Espanha. Da parte de tarde teve lugar no Auditório Mário Rodrigues Pereira, em Lavra, a Gala Folclórica da 3ª Idade, com a participação de todos os Grupos Estrangeiros. O FESTARTE prosseguiu, à noite, nas Igrejas Matriz de Leça da Palmeira, Santa Cruz do Bispo e São Mamede Infesta, com os habituais recitais de música tradicional sempre com muito público, aliás uma constante ao longo de toda a programação. Na quinta e sexta-feira prosseguiram os Ateliês de Dança, com a presença dos Grupos de Taiwan e Hungria, (quinta-feira), e República Checa e Argentina, (sexta-feira), sendo que no fim da tarde de quinta-feira teve início o Festival de Gastronomia, este ano com a particularidade de os Grupos oferecerem o jantar à população que previamente se inscreveu e que no ano transacto havia oferecido o almoço no dia das Famílias. A Feira de Artesanato terminou na sexta-feira, com fogo-de-artifício, (pouco, que o dinheiro não dava para mais…), que acabou por ser uma pequena surpresa preparada pelos responsáveis da Feira. O FESTARTE prosseguiu no sábado, dia 2 de Agosto, com o Festival de Folclore e respectivo desfile etnográfico, em São Mamede Infesta, e no domingo, em Matosinhos com o respectivo Festival e encerramento do FESTARTE.

Os Grupos Participantes

Compañia Flamenca Cármen Guerrero
Cadiz / Andaluzia – Espanha

A “Companhia Flamenca Cármen Guerrero” chega-nos da comunidade da Andaluzia, com uma população de 7 478 432, o que corresponde a 17,9% da população total do País, para uma área de 85,70 Km2. Fiel representante do Folclore Andaluz, a Companhia Flamenca Cármen Guerrero foi formada em 1986, por Luís Guerrero. Dentro do flamengo, a companhia movimenta todo o ano algumas centenas de jovens que são o suporte dos espectáculos que apresenta. Trouxeram ao FESTARTE os sons da guitarra flamenga com as vozes inconfundíveis da Andaluzia e expressões corporais que fizeram a delícia dos mais exigentes.







Los Mackay Y Ballet Malambo Argentino
Argentina

O Grupo que representou a Argentina nesta 11ª edição do FESTARTE, “Los Mackay Y Ballet Malambo Argentino”, é um fiel representante das tradições da região de Buenos Aires, nomeadamente do tango que é uma dança a par. Tem forma musical binária e compasso de dois por quatro. A coreografia é complexa e as habilidades dos bailarinos são celebradas pelos aficcionados. Segundo Discépolo, “o tango é um pensamento triste que se pode dançar”. Sua origem encontra-se na área do Rio da Prata, na América do Sul, e nas cidades de Buenos Aires e Montevideu.







Bartina Folkdance Ensemble
Szekzárd – Hungria

Desta República do centro da Europa, chegou-nos o “Bartina Folkdance Ensemble” representante de uma cultura (popular) muito apreciada. É um grupo sério, autêntico pilar na educação dos mais jovens, foi formado em 1966 numa escola local, sendo um dos fiéis representantes do folclore magiar. A sonoridade deste grupo é apoiada por um grupo de instrumentistas verdadeiramente extraordinários, que são uma mais valia nos concertos apresentados.








The Ensemble Akademsko Drustvo
Belgrado – Sérvia

O “The Ensemble Akademsko Drustvo” de Belgrado está sedeado numa academia de jovens cuja vertente académica se reflecte no trabalho que apresentam em palco. A qualidade e o rigor nas suas apresentações públicas são fruto de uma tarefa obrigatória nas disciplinas que desenvolvem ao longo do ano lectivo e que são avaliadas de acordo com a pesquisa e com a teoria apresentada. O resultado desde trabalho obedece a práticas posteriores que resultam no palco em expressões sublimes nas suas actuações. São acompanhados por músicos verdadeiramente extraordinários.







Taiwan Youth Dance Company
Taiwan

A História de Taiwan quase se perde no tempo, e remonta a aproximadamente 5000 anos. Navegadores portugueses alcançaram a ilha em 1544, baptizando-a de Ilha Formosa. No Século XVII a ilha é colonizada pelos holandeses, mas estes são pressionados a abandonar a ilha em 1662. Alguns séculos depois e após a Guerra Sino-Japonesa, em 1895, a China foi forçada a ceder perpetuamente Taiwan ao Japão. Com o terminar da Segunda Guerra Mundial em 1945, sob os termos do tratado de rendição do Japão, os Nipónicos aceitam que a ilha seja transferida para o domínio chinês. Por tudo isto, foi muito apetecível apreciar o “Taiwan Youth Dance Company” que trouxe toda a alegria deste povo simpático que nos chegou desta parte do mundo do sol nascente.





Folk Ensemble Handrlák
República Checa

O “Folk Ensemble Handrlák” é visto como um dos mais invulgares representantes desta jovem república, pela qualidade dos espectáculos que nos apresenta. Com músicos verdadeiramente virtuosos, fomos à descoberta da magia dos sons únicos do povo boémio, com a sua extraordinária orquestra. A sua gastronomia, recomendada para paladares mais apurados, completaram a lista de motivos para uma participação muito apreciada.













O Festival de Folclore

Mais do que mil palavras as imagens falam por si. Simplesmente deslumbrante. Um agradecimento especial ao António Barros do Rancho Típico da Amorosa, que gentilmente enviou todas as imagens para publicação


A Feira de Artesanato
Sempre com animação diária, excepto na quarta-feira, que foi o dia dos recitais na Igreja, a Feira de Artesanato deste ano teve a particularidade de se alargar um pouco mais, com o número de expositores a passar dos habituais 15 para 20,o que obrigou a um maior trabalho logístico. A Feira estendeu-se até às traseiras do Salão Paroquial o que conferiu ainda mais cor e movimento a um adro já de si bastante movimentado durante os dias em que a Feira esteve aberta ao público. Saliente-se que, mais uma vez, marcou presença a “Tasquinha lá de cima”, que é como quem diz, do Monte Espinho, que serviu, (e de que maneira), apetitosos petiscos que fizeram as delícias de quantos lá jantaram ao longo da semana. Saliente-se aqui a presença assídua do nosso Pároco, afastado há já algum tempo das lides nocturnas por motivos de saúde, mas que nestes dias de FESTARTE, fez questão de jantar com os seus colaboradores na afamada “Tasquinha”. Para terminar e porque não podemos deixar de o fazer, fica a eterna pergunta a quem de direito: “PARA QUANDO UNS STANDS COM VERDADEIRAS CONDIÇÕES?” Fica aqui uma vez mais a questão, endereçada aos responsáveis pelo FESTARTE, mas também e sobretudo aos órgãos Autárquicos, Junta de Freguesia e Câmara Municipal. Ficamos a aguardar uma resposta se acharem por bem fazê-lo.

O Meu Lamento

Não haverá porventura factores negativos de grande monta a apontar. A organização do FESTARTE já tem muitos anos disto e portanto já se mostram rotinados. No entanto, há alguns detalhes que convém melhorar ou talvez até modificar, quem sabe. Em primeiro lugar, os hinos dos Países: este ano as coisas não correram muito bem, ao contrário dos anos anteriores, com alguns a falhar ou porque não era aquele hino, por força das modificações políticas entretanto operadas ou porque os responsáveis pelo som não testaram convenientemente o funcionamento da aparelhagem. Seja por que motivo for, não se justifica nos dias de hoje que os hinos, estejam eles em formato mp3, wmp ou outra coisa qualquer, não possam ser correctamente executados. Requer-se mais atenção para o ano, para que erros deste tipo não voltem a acontecer. Em segundo lugar, o meu lamento vai para a animação da Feira de Artesanato ou falta dela - não que os Grupos não estivessem lá, mas grande parte deles não percebeu que a intenção era trazer as pessoas à dança. Aliás é para isso que elas lá estão, esperando ansiosamente que as levem para o tablado. Grupos houve que se esqueceram por completo de o fazer. Por último, e porque não quero ser um crítico voraz do FESTARTE, pois sou até um dos seus mais acérrimos defensores, lamento que o stand da Argentina apenas estivesse presente em um ou dois dias, já que nos restantes nem vê-los. Mesmo no grande dia da Feira de Artesanato, (domingo), apenas se dignaram ir buscar o artesanato e ir embora. Para o trabalho que dá montar a Feira de Artesanato, com uma lista de espera de expositores, sempre à espreita de um lugar na Feira, ter um stand vazio na maior parte do tempo não abona em nada ao seu crescimento, isto já para não falar nas inúmeras referências à “não” presença do Grupo. Enfim.....

Nota Final
Passou mais um FESTARTE, neste caso o 11º. Ficamos sempre à espera do próximo, o que por si só justifica o sucesso de mais uma edição. A Organização primou como sempre pela competência e seriedade durante todo o Festival. Na reportagem que fiz, em 2007, referi várias vezes ao longo do artigo que escrevi, que aquele fora “O Melhor Festarte de Sempre”. Este ano tenho de manter a mesma opinião. O ano passado foi até agora o melhor FESTARTE de sempre. Nem a presença nos últimos dois dias do Grupo Mexicano serviu para ofuscar o grande sucesso do 10º FESTARTE. Faltou um “bocadinho assim”, como diz a publicidade. Faltou mais entusiasmo, faltou mais empenho por parte dos Grupos, faltou algo mais para fazer a diferença. Nota positiva para o jantar oferecido à população que recebeu os Grupos, em 2007 - foi a grande novidade este ano, e com tanto sucesso que pode ser uma boa ideia para repetir em próximos Festivais. Por último, merece destaque a presença do Grupo Mexicano no encerramento da Feira de Artesanato, o que engrandeceu o FESTARTE. A sua música contagia, alegra, anima e sobretudo faz uma grande festa. Chegaram fora do programa oficial do FESTARTE, mas ainda bem que chegaram a tempo de fechar com chave de ouro a Feira de Artesanato e o próprio FESTARTE. Que venha a 12ª edição, que da 11ª já reza a história.

José Eduardo Sousa
in "A Voz de Leça" Ano LV - Número 6 - Setembro de 2008

quinta-feira, 31 de julho de 2008

Do Tempo dos Eléctricos

Há tempos o Arqt.º José Salgado autografou-nos um dos números da nova monografia de Matosinhos com a dedicatória: “Em lembrança dos velhos tempos dos eléctricos…”. Esta tocou-nos o coração e espevitou-nos a memória relativamente a um meio de transporte que utilizámos, e com o qual convivemos durante toda a nossa vida de estudante e que vimos, com tristeza desaparecer primeiro da paisagem de Leça da Palmeira e mais tarde praticamente de toda a cidade do Porto e arredores, assistindo agora a um ressurgir tímido mas de saudar.
Sempre conhecemos como entidade exploradora dos carros eléctricos, o Serviço de Transportes Colectivos do Porto, vulgo S.T.C.P., com sede na avenida da Boavista, onde nos deslocámos para tratarmos do passe de estudante, documento que nos permitia viajar para o Liceu Nacional D. Manuel II, no Porto, a um preço mais acessível. Estamos até convencidos que, para além do esforço de toda a família, principalmente do nosso pai, foi um facto que nos permitiu frequentar o liceu; pois, o acesso ao Porto era fácil e rápido, uma vez que de Matosinhos à Carvalhosa demorava trinta minutos, ao preço de 1$20 (doze tostões) mas que logo subiu para 1$50 (quinze tostões).
Sabemos também que o S.T.C.P. sucedeu à Companhia Carris de Ferro do Porto e à Companhia Carril Americano, as quais asseguraram durante muitos anos os transportes públicos para Matosinhos e Leça da Palmeira a tracção a vapor e a tracção animal, respectivamente. Mais modernamente passou a ser utilizada a tracção eléctrica.
Os carros americanos, a tracção animal ainda chegaram a vir a Leça, contudo do que as gerações menos novas se lembram é dos nossos queridos carros eléctricos, das linhas 1, 5, 16 e 19 que proporcionavam viagens maravilhosas nos seus trajectos do Porto até Leça e volta.
A Linha 1 era um espectáculo! Com um percurso ente a Praça da Liberdade (D. Pedro) e a praia de Leça da Palmeira, sempre pela marginal, junto ao mar, tendo normalmente um atrelado.
A Linha 5, também normalmente com atrelado, fazia o trajecto da praia de Leça ao Carmo, subindo a Avenida da Boavista, passava a rua do mesmo nome, Carvalhosa, Cedofeita, Praça de Carlos Alberto e Cordoaria, contornando o edifício da Faculdade de Ciências, passava os Leões, descia ao Hospital de Santo António, entrava na Rua do Rosário, vinha à Carvalhosa, retomando a partir daí o caminho de ida.
A Linha 16 fazia o percurso de Leça, junto ao actual quartel dos Bombeiros de Leça da Palmeira, onde fazia agulha; isto é, mudava de linha, tendo como consequência ser necessário virar os bancos, para o que os mesmos tinham as costas móveis. Subia a Avenida da Boavista em direcção à Praça da República, descia Gonçalo Cristóvão, entrando na Rua de Santa Catarina a caminho da Praça da Batalha, a qual contornava fazendo o mesmo percurso no regresso.
A Linha 19, fazia o trajecto entre a Praça da Liberdade e Leça, até junto aos bombeiros; subindo as ruas dos Clérigos e Carmelitas, atravessava a Praça dos Leões, jardim do Carregal, entrando na Rua de D. Manuel II, Palácio, rua Júlio Dinis, rotunda da Boavista (Praça Afonso de Albuquerque) descia a Avenida em direcção a esta nossa linda terra.
Feita esta vista panorâmica sobre os trajectos não podemos deixar de referir alguns episódios relacionados com carros eléctricos, que nos marcaram, como o acidente do nosso irmão Joaquim que quando tentava apanhar o eléctrico já em andamento, que o transportaria à Escola Industrial Infante D. Henrique, onde frequentava o curso de serralheiro mecânico, caiu, magoando-se imenso, levando a um prolongado internamento no Hospital de Matosinhos, tendo a nossa mãe Brízida em hora de aflição, prometido uma coroa em prata para Nossa Senhora de Fátima, que à data existia no Hospital. Ainda hoje a nossa mãe guarda as canetas e os lápis que o nosso irmão transportava no bolso do casaco e que ficaram esmagados sob os pesados rodados.
Mas nem tudo era triste, como o episódio que acabamos de contar, pois deslocando-se o nosso pai, semanalmente à segunda-feira, à rua dos Caldeireiros, na Cordoaria, para aquisição do material para trabalhar, por vezes levava-nos com ele, e nós muito pequenos como gostávamos daquela viagem comentada!
Apanhávamos o eléctrico da linha 5 no fim da nossa rua junto aos bombeiros, e depois de passada uma vista de olhos ao jornal eis que chegávamos à Circunvalação e aí começava a descrição pelo Castelo do Queijo. Subindo a Avenida da Boavista logo no inicio o Café Bela Cruz, depois eram os belos palacetes, a Fábrica dos Ingleses (William Grham) no Pinheiro Manso, entretanto chegávamos à Rotunda da Boavista, e já de longe comentávamos o Monumento à Guerra Peninsular, admirando lá no alto o leão em cima da águia. Na rua de Cedofeita não deixava de apontar o Bazar dos Três Vinténs repleto de brinquedos que nos limitávamos a ver na montra. Logo de seguida a Praça de Carlos Alberto com o momento aos Mortos das Grandes Guerras, e eis-nos chegados ao Jardim da Cordoaria, hoje completamente desfigurado.
Antes de regressarmos ainda íamos ver o Mercado do Bolhão, e ao lago da Cordoaria ver os peixes e os patos, por vezes visitávamos a nossa tia Carolina que vivia na rua do Barão de Forrester.
Já no eléctrico, normalmente o da linha 19, para passarmos ao Palácio e a volta ficar completa, recordava-mos as caixilharias brancas da bela fachada do Hospital de Santo António, para onde havíamos sido levados com cerca de quatro anos para nos retirarem das narinas grãos de milho e feijão que lá havíamos metido por traquinice de criança, que fomos buscar à saca das compras semanais que a nossa tia Palmira tinha trazido do mercado de Matosinhos.
Eram estes, enfim, os passeios com que a gente humilde se contentava mas que nos deixavam gratas recordações, nos ensinaram a apreciar e a gostar dos pormenores da nossa terra e da cidade grande mais próxima, o Porto; e também muitos dos conhecimentos que nos permitem agora registar e dar a conhecer aos mais novos e recordar aos mais velhos.

Eng.º Rocha dos Santos
in "A Voz de Leça" Ano LV - Número 5 - Julho/Agosto de 2008

Novo Bispo Auxiliar da Diocese do Porto

A Diocese do Porto tem um novo Bispo Auxiliar, D. João Evangelista Pimentel Lavrador, que se junta, assim, a D. João Miranda Teixeira e D. António Maria Bessa Taipa.
Natural de Mira (Coimbra), nasceu no dia 28 de Fevereiro de 1956 em Seixo de Mira. Estudou no Seminário de Buarcos, onde entrou em 1966, tendo terminado o curso de Teologia no Instituto Superior de Estudos Teológicos, em 1980. Foi ordenado Presbítero em Junho de 1981.Entre 1984 e 1988 foi responsável pelo Secretariado Diocesano da Pastoral Juvenil e Assistente Regional do CNE. Durante este período, leccionou Educação Moral e Religiosa Católica na Escola Normal de Educadores de Infância de Coimbra. Entre 1988 e 1990 frequentou a Universidade Pontifícia de Salamanca, terminando a licenciatura canónica na área da Teologia Dogmática com a apresentação da Dissertação «O Laicado no Magistério dos Bispos Portugueses, a partir do Vaticano II».
Em 1991 foi nomeado Reitor do Seminário Maior de Coimbra, cargo que ocupou até 1997. Doutorou-se em 1993, apresentando e defendendo a tese «Pensamento Teológico de D. Miguel da Annunciação – Bispo de Coimbra (1741 – 1779) e renovador da Diocese».
Entre 1993 e 1999 desempenhou também o cargo de Secretário-Geral do Sínodo Diocesano de Coimbra. Desde 1991 que é professor de Teologia Dogmática no ISET de Coimbra.
Foi nomeado Bispo Auxiliar do Porto no passado dia 7 de Maio e a Ordenação Episcopal ocorreu na Sé Nova de Coimbra no dia 29 de Junho.

Fonte: www.diocese-porto.pt
Marina Sequeira
in "A Voz de Leça" Ano LV - Número 5 - Julho/Agosto de 2008

Residência Paroquial - História de Uma Construção

Quem hoje olha para a actual Residência Paroquial pode achá-la um edifício demasiado imponente, mas poucos se recordarão do que levou à sua construção e muito menos da residência anterior, que estava situada noutro local. A Residência Paroquial original tinha sido construída no início do século XIX e estava localizada na área ocupada pelo actual adro e tômbola. Fora oferecida à Paróquia por José Domingues de Oliveira. No início dos anos 60 do século XX, o rebaixamento da actual Avenida Dr. Fernando Aroso, a construção do Salão Paroquial, a necessidade de alargamento do adro da Igreja Paroquial e, sobretudo, a necessidade de alojar os vários sacerdotes coadjutores do Pároco, levaram o Padre Alcino Vieira dos Santos a considerar a construção de uma nova Residência Paroquial. A inviabilidade funcional da Residência Paroquial existente, provocada pelo rebaixamento da actual Avenida Dr. Fernando Aroso, levou o Pároco e a Comissão Fabriqueira a negociar com a Câmara Municipal de Matosinhos a compensação pelos prejuízos provocados a toda a população católica de Leça da Palmeira.
Nesse sentido, foi proposto à autarquia a autorização para a construção de uma nova Residência Paroquial, no terreno oferecido pela Junta de Freguesia, comprometendo-se a Câmara a pagar o valor real do edifício existente. A Câmara Municipal aceitou as condições propostas pela Paróquia, indemnizando-a no valor de 310.000$00, permitindo igualmente o direito ao uso de todos os materiais da antiga residência e assumindo o compromisso de rebaixar o terreno, incorporando-o no adro da Igreja Paroquial.
Em Dezembro de 1961, o Padre Alcino apresentava neste Jornal o projecto da nova Residência Paroquial, que, tal como o do Salão Paroquial, foi da autoria do arquitecto Bruno Reis. A construção justificava-se porque «Por agora, o Pároco tem apenas um Coadjutor – o que é manifestamente insuficiente para as suas necessidades.
Forçosamente, em casa do Pároco se têm de hospedar outros Sacerdotes, chamados à colaboração com ele, como sejam Missionários, Pregadores, Confessores, etc.
Os Sacerdotes têm de ser homens de estudo; e daí, a necessidade de prever, não apenas instalações para atender o público – serviço de cartório – mas gabinetes remotos, onde se possam recolher, para o estudo e para a oração.
Ao número de Sacerdotes, corresponde, necessariamente, um número conveniente de pessoas que tratem da vida doméstica.
Tudo isto justifica o número de dependências constantes da planta.»
Em Maio de 1962, iniciaram-se as obras da nova residência paroquial, ao mesmo tempo que se concluíam as obras do Salão Paroquial e do Bairro dos Pobres. O apelo à generosidade dos paroquianos foi mais uma vez uma constante, por parte do Padre Alcino.
Três anos após o início das obras, a 3 de Maio de 1965, a actual Residência Paroquial era finalmente inaugurada, durante a Festa da Paróquia e contou com a presença de D. Alberto Cosme do Amaral, Bispo Auxiliar do Porto. Mais uma vez, os Leceiros deram uma prova cabal da sua dedicação e empenho às iniciativas da Paróquia. O empenho das forças vivas de Leça da Palmeira permitiu que o Pároco, os seus Coadjutores e o pessoal de apoio passasse a ter uma residência condigna, em termos de condições de habitabilidade e de espaço e que respondesse às necessidades da Igreja


Jorge Sequeira
in "A Voz de Leça" Ano LV - Número 5 - Julho/Agosto de 2008











segunda-feira, 30 de junho de 2008

R.T.A Encena Tradições de Leça

No passado dia 3 de Maio, no Salão Paroquial de Leça da Palmeira, pelas 21h45, o Rancho Típico da Amorosa realizou mais um grandioso espectáculo intitulado “Tradições de Leça”.
Tendo já sido encenado não há muito tempo, esteve como que “guardado na gaveta” e feitas modificação a alguns quadros, no sentido de melhorar a encenação e de aumentar um ou outro quadro, o R.T.A. conseguiu repôr esta produção que muito nos conta da vida “na Leça rural de antigamente” - o quotidiano do lavrador que trabalhava na lavoura de sol a sol, e só parava nos dias de preceito da Igreja, para romarias ou cumprir as suas promessas, e mesmo assim nem sempre. Pretendeu-se, desta forma, mostrar aos mais novos o dia-a-dia do homem do campo, bem como os momentos de lazer, ao longo dos 365 dias do ano.
















Foram representados os seguintes quadros:
· Janeiras – Dois cânticos alusivos à quadra
· Moda da Carrasquinha – Dança recreativa
· Cenas do Entrudo – O “Testamento do Judas”
· Quando meu compadre – Encenação de quadro
· O Senhor da Serra – Dança alusiva ao trabalho do serrador
· Bendito – Melodia cantada na Procissão dos Enfermos
· S. João – “O tostãozinho para a cascata”
· Regadinho – Dança de roda
· Pregões – Vendedores ambulantes
· Arregaça – Dançada depois das regas
· Apanha do Sargaço – O adubo para as terras
· Vira de Oito – Dança de Pescadores
· Desfolhada – Alusão ao Abílio da Moleira
· Vira de Roda – Dança de sedução
· Almas Santas – Melodia com que se pedia esmola
· S. Martinho – O vinho, a alegria, a desmesura…
· Chula Vareira – Dança de Pescadores
· Lavadeiras do Rio Leça – O canto e a coscuvilhice
· O avental da Curiquinha – Dança recreativa
· Mansidão – Dançava-se a caminho das romarias
· Os trajes tradicionais de Leça – Apresentação de Trajes
· Tirana – Dançava-se nas amplas cozinhas leceiras
· Canção de embalar – Cena familiar
· Natal – Adoração ao Menino Jesus
· Janeiras – Cântico de Pastores
A adesão do público foi boa, tendo sido o R.T.A. muito felicitado por mais uma brilhante iniciativa organizada em conjunto com a Junta de Freguesia de Leça da Palmeira. O R.T.A. mostra desta forma que continua muito vivo e sempre disposto a fazer o que melhor sabe para manter vivas as tradições da nossa terra, e levar o nome de Leça da Palmeira o mais longe possível, embora nem sempre os apoios sejam os melhores e suficientes para esta causa.
A época alta do ano no mundo do folclore está já a começar, com festivais e demonstrações de norte a sul do país, e o Ranho Típico da Amorosa não é excepção, tendo organizando em Maio passado o festival do Senhor de Matosinhos e participado no mesmo mês no Festival do Danças e Cantares do Minho em Lisboa. Em Junho continua a participar em outros eventos, como o Festival de Boidobra na Covilhã, Festival de Aniversário do Típico de Ançã, em Cantanhede, Festival de Vila Nova do Coito em Santarém e Festival de Gouveia, na Serra da Estrela. Muitas outras actuações estão já agendadas para o resto do ano, mas neste momento o trabalho do R.T.A. concentra-se em mais uma edição do FESTARTE, este ano a realizar entre 24 de Julho e 4 de Agosto, com a participação da maior parte dos grupos já confirmada faltando apenas a confirmação de um ou outro grupo.


João Teixeira
in "A Voz de Leça" Ano LV - Número 4 - Junho de 2008

Tradições de Leça

Leça da Palmeira, uma cidade à beira – mar plantada desde antiquíssimos tempos tinha o seu modo de viver muito ligado à vida rural, nomeadamente ao calendário do homem do campo.
O lavrador leceiro cumpria religiosa e silenciosamente o seu paciente labor quotidiano ao ritmo que a própria natureza lhe impunha, só descansando um ou outro dia de festa, se isso lhe fosse permitido. Por vezes nem domingos havia!
De Janeiro a Dezembro vivia para o trabalho, relacionando muitos deles com as suas actividades tal como sucede com os meses de: Junho, o S. João; Julho, o de S. Tiago; Setembro, o de S. Miguel; Outubro, o dos Santos, Novembro o de Santo André, ou das sementeiras; e o de Dezembro, o do Natal ou o mês das matanças, por ser a época em que se mata o porco.
A indicação dos meses fazia-se por uma simples festa ou de qualquer acontecimento.
As estações do ano dividiam unicamente, em meses de Verão e meses de Inverno.
No inicio do mês de Janeiro era hábito grupos percorrerem as ruas acompanhados por música de um ou outro instrumento musical, indo de porta em porta cantar as janeiras.
Se o dono da casa correspondia abrindo-lhes a porta, cantavam-lhe: “Viva o dono desta casa / Raminho de salsa crua / Quando se põe á janela / Ilumina toda a rua”. “Viva a dona desta casa / Quando põe o seu mantéu / Quando vaia para a igreja / Parece um anjo do céu. Viva tudo, Viva tudo / Viva tudo nesta hora / Viva também o menino / Para não ficar de fora”; caso isso não acontecesse, gritavam: “nesta casa cheira a unto aqui mora algum defunto. Esta casa cheira a breu aqui, morreu algum judeu”. E… toca a fugir!
Em Fevereiro, dizia-se: “Que matou a mãe ao soalheiro”, e também que: “Lá virá o meu amigo Março que fará o que eu não faço”; tudo isto, claro, relacionado com o tempo de sol e chuva que fazia. Era o mês do Carnaval ou Entrudo, época em que as pessoas se entretiam, disfarçando-se com roupas velhas “correndo o entrudo ou o farrapão”, metendo-se com quem passava, usando esfregarem as caras, mutuamente, com farinha e previlhos. Embora actualmente escasseiem os farrapões, há os mascarados, sendo os encontros em modernos bailes em recintos fechados, estando em decadência o Carnaval grotesco vivido na rua.
Em Março, “em que tanto durmo como faço” ou em Abril de “águas mil, coadas por um funil” ou em que “queima-se o carro e o carril”, ocorria a Páscoa com todo o seu tempo de preparação, com as Procissões dos Passos, a queima do Judas em que é escolhida uma pessoa da comunidade para ser caricaturizado, representada por um boneco de palha com bombas no seu interior ao qual é chegado o fogo após ser lido em tom jocoso o seu “Testamento”, em verso, e a Visita Pascal; e com a chegada do último dia do mês é tradição, os leceiros, grandes e pequenos, cortarem as maias nos campos próximos para as colocar nas suas casas, em todas as portas, janelas e até nos quintais, sementeiras e aidos do gado e capoeiros.
Diz a crença popular que as maias, isto é, as flores da giesta, colocadas nas habitações, significam os sinais postos ao longo do caminho para que Nossa Senhora não se enganasse, aquando da sua fuga para o Egipto com o Menino Deus.
Casa que não tinha maias colocadas ao entrar o mês de Maio “em que se comem as cerejas ao borralho”, o Diabo sujará tudo, além de outros estragos.
O mês de Junho, “com foucinha em punho” traz-nos os Santos Populares com todos os seus folguedos, as fogueiras e os bailes de rua que atingindo o seu ponto máximo no S. João, apesar de “pelo S. João os bois beberem nas pegadas”, “…cobre o milho o rabo ao cão”.
Uma tradição leceira deste mês de Junho é a cascata, que nos traz à memória o deslumbramento da imaginação, da harmonia e da inocência do representar o quotidiano da nossa terra em pequenas figuras de barro compradas na feira da louça do senhor de Matosinhos.
A festa era tal que até se cantava: S. João da Boa Nova. / Nós te qu’remos festejar! / E se queres uma prova, / A tradição se renova, / ‘Stamos na rua a cantar! / … Da nossa terra formosa, / Foste festa popular! /E desta forma amorosa, / Vem tua Leça briosa, / A tradição reatar.
As crianças na rua faziam uma pequena cascata, e por vezes só com um dos Santos na mão, pediam “um tostãozinho para a cascatinha”.
Em Julho, já com o tempo mais quente, começava o ritual dos banhos, primeiro no rio Leça, com fundos lodosos perigosíssimos onde muitos jovens ficaram; mais tarde os banhos de mar tomados de manhã bem cedo e rápido porque o trabalho não esperava.
Em meados de Julho regavam-se os campos para o que se cavavam sulcos extensos de modo a conduzir a água.
Com Agosto à porta surgem as romarias populares, e além das festividades anuais que cada freguesia ainda mantém, perduram as populares e tradicionais romarias, meio pagãs, meio religiosas, onde o povo dá largas à boa disposição.
Pertencem ao número dessas romarias a Santa Eufémia, no alto da Carriça, onde o nosso pai Moisés ia de bicicleta, comprar as alhos e a melancia; a Senhora do Bom Despacho na Maia, etc.
Espontaneamente, ou não, os romeiros juntavam-se em grupos, designados por rusgas e manhã cedo lá iam a pé cantando e dançando, regressando ao escurecer, já com os farnéis vazios.
Destas rusgas nasceu o Rancho Típico da Amorosa defensor e guardião das tradições leceiras que com os seus trajes tão bem conservados, cantares e dançares, mantém vivas não só as tradições leceiras mas também a alma do nosso povo. É um regalo vê-los actuar! Obrigado Raúl.
Durante muitos anos os nossos primos Henriqueta e Hermano Rocha alimentaram a tradição cuidando com toda a dedicação desta nossa tão nobre associação.
Depois do árduo trabalho do campo durante o ano, chega Setembro com a verdadeira azáfama, pois é altura de trazer para casa o milho, outrora transportado em carros de bois, descarregando-o no coberto onde era desfolhado, o que constitui um cerimonial, pois se durante o dia era um trabalho silencioso à noite, ao serão, juntavam-se os rapazes das redondezas. Quando alguém encontrava uma espiga vermelha, “milho rei”, tinha licença para distribuir abraços à roda. Se for espiga “rajada” ou “entremeada”, em vez de abraços à roda, são beijos. Os donos da casa ofereciam pão, vinho, e azeitonas, aparecendo quem tocasse, a gente jovem não resistia à tentação de dançar.
Em Outubro com os trabalhos já encaminhados e o inverno a aproximar-se vamos referir uma outra tradição leceira, que naturalmente desapareceu; referimo-nos às lavadeiras de Leça, que no braço doce do rio lavavam a roupa de sua casa e a de muitas famílias inglesas que à época aqui habitavam, constituía um ritual não só pelo trabalho mas também pelo aspecto social, pois permitia pôr em dia as notícias sobre a vizinhança com o desmascarar de alguns “segredos” e o levantar de alguns boatos! Era uma coscuvilhice! Claro que nos encontros com as mulheres da outra margem do Leça, por vezes as conversas azedavam, ao ponto de chegarem a vias de facto.
Novembro começa com a homenagem aos finados e aqui, por muito que nos custe, vamos falar dos enterros.
Assim, quando morria alguém “tocava o sino a sinal” por duas vezes se era mulher e três vezes se era homem.
O corpo é lavado. Se é homem faz-se-lha a barba, isto é o barbeiro dá-lhe uma “escanhoadela” e é vestido. Posto no caixão procede-se ao velório durante o qual se juntam familiares e amigos, sendo habitual à noite servir café e aguardente.
Á hora de sair o enterro o padre procede ao “levantar do corpo” organizando-se o cortejo fúnebre, à frente a cruz e dois acompanhantes aos guiões ou às borlas, serviço em que ganhámos alguns cobres conjuntamente com os nossos amigos Valdemar e Tito ao serviço do Sr. Silva Armador. A seguir o padre com o rapaz da caldeirinha e atrás do caixão os acompanhantes, familiares e amigos transportando palmas de flores e coroas.
Ainda em Novembro surgiam os vendedores de castanhas que as assavam no forno do padeiro, após o que as punham num saco de serapilheira, cuja boca fumegava, e percorriam as ruas de Leça apregoando: “Quentes e boas! São da quinta da minha avó”!
Em Dezembro, já com frio, e com um cerimonial festivo fazia-se a “matança do porco”. O animal engordado durante o ano, é amarrado a um banco ou a um carro de bois e morto, depois era chamuscado e lavado, aberto e desmanchado.
Neste último mês temos ainda o Natal, o qual deixaremos para uma crónica específica em tempo oportuno.
Haveria muitas outras tradições a referir porém este nosso escrito já vai longo. Deixaremos para outras oportunidades.

Eng.º Rocha dos Santos

in "A Voz de Leça" Ano LV - Número 4 - Junho de 2008

Dia da Mãe no Centro Franciscano

Mais uma vez a Catequese do Centro Franciscano teve uma ideia engraçada: em vez de termos uma catequese do Dia da Mãe, para as mães, este ano tivemos uma catequese feita pelas mães para as suas crianças.
Foi ideia de uma mãe, que inicialmente seria apenas aplicada em dois grupos, nos quais estavam as suas filhas, mas rapidamente passou para toda a catequese do Centro.
Fica aqui a entrevista com a mãe, (Paula Bártolo), que organizou este dia fantástico e também com um dos Catequistas, (Ana Isabel), que seguiu, com agrado, esta sessão.

A Voz de Leça (VL) - Como surgiu a ideia de as mães participarem activamente na sessão de catequese?
Paula Bártolo (PB): Esta ideia surgiu num sábado, após o diálogo habitual com as minhas filhas sobre a sessão de catequese do dia, como uma forma de mostrar, por um lado, aos catequistas que os Pais reconhecem e agradecem o papel fundamental que eles desempenham no crescimento dos nossos filhos; por outro lado, aos nossos filhos que a catequese é um aspecto de vida deles que os Pais valorizam e na qual querem participar.

VL - Qual a opinião das mães em relação à catequese no CEFPAS?
PB: Esta iniciativa só ocorreu porque tem por base o reconhecimento do excelente trabalho desenvolvido por uma maravilhosa equipa de pessoas que diariamente, e não semanalmente, põe a sua vida ao serviço de Deus nas pessoas dos nossos filhos. Tem sido muito gratificante constatar o crescimento na fé que se tem operado ao longo destes anos nos nossos filhos.

VL - Considera importante a intervenção da família na catequese?
PB: Como é óbvio, a caminhada que os nossos filhos vão fazendo na fé tem repercussões no crescimento da família. É muito importante que os nossos filhos sintam que os Pais não os "depositam" na catequese mas que os incentivam a "viver" a catequese e que eles próprios pretendem viver esse aspecto fundamental das suas vidas. Se nos preocupamos em lhes alimentar o corpo, também nos preocupamos com o alimento espiritual e ficamos felizes por os vermos crescer em “estatura, sabedoria e graça”.

VL - Acha que as mães aderiram bem a esta ideia?
PB: Foi uma enorme surpresa a adesão da esmagadora maioria das mães. Cada uma pondo a render os seus talentos com o objectivo de fazer daquele dia muito especial.

VL - Como foi a experiência de preparar uma sessão de catequese?
PB: Tratou-se de uma experiência muito enriquecedora. Desde o despertar das consciências das outras mães, passando pela necessidade de coordenar uma série de actividades, até à escolha e transmissão da mensagem que pretendíamos fazer passar, tudo foi motivo de crescimento. Por fim, ver a satisfação e o orgulho dos nossos filhos foi a melhor prenda do Dia da Mãe que podíamos ter recebido.







VL - O que significou, enquanto Catequista, este dia diferente?
Ana Isabel - Este Dia da Mãe foi um dia bem diferente para a comunidade do Centro Franciscano de Pastoral e Acção Social. Diferente para todos: para as crianças, para os pais (mais particularmente para as mãe), para os catequistas e também para os padres da casa. Sentiu-se em toda a gente o espírito de união e de fraternidade que temos tentado alcançar neste Centro. O facto de serem as mães das crianças a prepararem uma catequese significa muito mais do que isso. Significa que os pais se preocupam com a educação catequética dos seus filhos e que se sentem profundamente à vontade para participarem activamente nessa caminhada tão difícil nos dias de hoje. Este dia de catequese diferente revela também que o esforço que temos feito para trazer a Família à Catequese está a ser conseguido! E para os catequistas foi também uma prova de gratidão, uma prova de valorização do trabalho que desenvolvemos com as crianças, adolescentes e jovens.
“Nós demorámos algumas semanas a preparar uma só sessão, enquanto que vocês têm uma sessão para preparar todas as semanas e fazem-no com qualidade!”, disse uma das mães presentes no encontro. São frases pequenas e muito simples, sinceras mas que servem como um “obrigado” para nós catequistas. “Deus está no teu sorriso” era a mensagem que as mães quiseram passar para todos. E conseguiram fazê-lo muito bem. Respirou-se boa disposição, muito amor e muito carinho naquele dia.
Que Deus esteja sempre no sorriso dos pais os primeiros e principais educadores da Fé; que Deus esteja sempre no sorriso dos párocos que são os pastores do rebanho; que Deus esteja sempre no sorriso dos catequistas que são os que transmitem a Palavra de Deus às crianças e jovens; que Deus esteja sempre, mas sempre, no sorriso das crianças que são o amanhã!


Ana Isabel Faria
Simão Bártolo

in "A Voz de Leça" Ano LV - Número 4 - Junho de 2008

Comendador António de Carvalho - Um Grande Benemérito de Leça da Palmeira

A propósito da memória da construção do Salão Paroquial, aqui fica o registo biográfico de um grande senhor, que tão bem fez nesta nossa terra.

Na edição de Janeiro de 1956 d’ A Voz de Leça, o Padre Alcino Vieira dos Santos escrevia a propósito do falecimento deste grande senhor beirão, o Comendador António de Carvalho, que aqui viveu, em Leça da Palmeira, terra que ajudou a desenvolver, tanto através da indústria que aqui fundou e desenvolveu, como através da sua generosidade.
“(…) A sua fé acompanhava-o na sua vida social. Quando era perseguido pela injustiça, dizia aos amigos: “Eu perdoo tudo. Só quero defender o pão dos meus operários e dos pobrezinhos.” Era amigo dos seus operários, que considerava como irmãos. Era um “Patrão” no verdadeiro sentido do termo: protector-pai… Trava os seus clientes com a lealdade de amigos. (…) Como católico era o primeiro a secundar as iniciativas paroquiais: já aqui falámos na dádiva de 20.000$00 para o Salão Paroquial. Foi um grande benfeitor da Confraria dos Passos do Senhor e Nossa Senhora da Soledade e das Conferências de São Vicente de Paulo. A sua paixão dominante era a caridade. O seu coração não suportava a miséria. A sua generosidade era tanta, que espíritos vulgares não hesitavam em classificá-la de esbanjamento. Santo esbanjamento! Santa prodigalidade! As bênçãos de Deus desceram abundantemente sobre a sua indústria que sempre prosperou (…). A simplicidade da sua alma, junto ao genial talento de industrial, tornavam-no extremamente simpático e querido de todos. Bem podia orgulhar-se do seu talento e do seu dinheiro, mas não. Nunca deixou de ser operário; (…)Tinha um sorriso característico, que acompanhava as suas esmolas. Sabia dar. (…)”
Deixaria em testamento, mais 20.000$00 para o Salão Paroquial.
Fundador da FACAR, (antiga indústria de tubos metálicos sediada em Leça da Palmeira, que viria a desaparecer após 25 de Abril de 1974), o Comendador António de Carvalho era natural de Lamego, onde nasceu em 1874, na freguesia da Sé daquela cidade. Órfão de pai e mãe aos 9 anos de idade, o pequeno António veio para o Porto, para casa de uns parentes, que lhe arranjaram um lugar de aprendiz numa fundição em Massarelos. As dificuldades da vida, que o privaram das despreocupações de uma infância feliz, deram-lhe espírito de iniciativa e vontade de vencer, pelo que ainda jovem era já encarregado de uma oficina metalomecânica, enquanto estudava à noite na Escola Infante D. Henrique.
Com pouco mais de 20 anos emigrou para o Brasil, que era na altura o destino de quem queria “vencer na vida”. Ambicioso mas com uma rectidão de carácter reconhecida e apreciada por todos quantos com ele puderam conviver, também ali teve sucesso, tendo em pouco tempo montado uma oficina de serralharia e fundição. À pequena oficina seguiu-se a construção de barcos com características particulares, (de ferro e com o fundo chato), para subirem o rio Amazonas durante os seis meses de vazante do caudal, período durante o qual os barcos tradicionais não o conseguiam fazer. O sucesso destas embarcações foi tal que António de Carvalho teve que montar uma doca seca para a sua reparação.
Regressado a Portugal ao fim de 25 anos no Brasil, e pretendendo também aqui continuar a ser fundidor e construtor naval, acaba por vir para Leça da Palmeira por causa da localização do porto de Leixões. Apesar de ter chegado a perito na Capitania de Leixões, dada a fraca densidade pesqueira que se verificava naquela época, acabou por converter a oficina de reparação de traineiras, que montara no regresso do Brasil, numa pequena fábrica de tubos de aço. Pequena mas já com características algo avançadas para a época, que viriam a dar origem à padronização dos tubos de aço, em medidas e moldes fixos, numa variedade que se foi alargando com o passar dos anos.
Mais uma vez se manifestava a sua visão à frente do seu tempo: depois de, no Brasil ter sido pioneiro numa vertente da construção naval, em Portugal seria o precursor da indústria dos tubos de aço.
Morreu a 20 de Dezembro de 1955.
O sonho de tornar a FACAR na maior fábrica de tubos da Europa só seria concretizado pelos filhos, António de Carvalho Júnior e Fernando de Carvalho. A FACAR seria também o maior e melhor empregador do concelho de Matosinhos.
Após a chamada “Revolução dos Cravos”, em 1974, durante o período mais negro do “PREC” (Processo Revolucionário Em Curso…), segundo uma certa ideologia reinante que preconizava a anarquia, (não vale a pena dar-lhe outro nome, porque era isso mesmo!), lá surgiu a obrigatória “comissão de trabalhadores” que assumiu a direcção da fábrica, substituindo-se aos seus donos e, em poucos anos, acabou com uma das maiores empresas portuguesas, arrastando para o desemprego famílias inteiras.
Hoje, na zona onde durante décadas existiu a FACAR sobressai um muito visível grupo de prédios, cuja construção se arrastou por polémicas de vária ordem. “Apesar dos pesares” que acompanharam o seu surgimento, aquelas construções foram a forma encontrada para, monetariamente, resolver muitas questões relacionadas com a extinção da FACAR.
Ao menos isso!






Marina Sequeira
in "A Voz de Leça" Ano LV - Número 4 - Junho de 2008

Fontes: A Voz de Leça (Janeiro de 1956)
BENTO,Jorge,2001-Último Pio Do Pardal; Leça da Palmeira, Edição do Autor.