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A Equipa Redactorial

quinta-feira, 31 de julho de 2008

Do Tempo dos Eléctricos

Há tempos o Arqt.º José Salgado autografou-nos um dos números da nova monografia de Matosinhos com a dedicatória: “Em lembrança dos velhos tempos dos eléctricos…”. Esta tocou-nos o coração e espevitou-nos a memória relativamente a um meio de transporte que utilizámos, e com o qual convivemos durante toda a nossa vida de estudante e que vimos, com tristeza desaparecer primeiro da paisagem de Leça da Palmeira e mais tarde praticamente de toda a cidade do Porto e arredores, assistindo agora a um ressurgir tímido mas de saudar.
Sempre conhecemos como entidade exploradora dos carros eléctricos, o Serviço de Transportes Colectivos do Porto, vulgo S.T.C.P., com sede na avenida da Boavista, onde nos deslocámos para tratarmos do passe de estudante, documento que nos permitia viajar para o Liceu Nacional D. Manuel II, no Porto, a um preço mais acessível. Estamos até convencidos que, para além do esforço de toda a família, principalmente do nosso pai, foi um facto que nos permitiu frequentar o liceu; pois, o acesso ao Porto era fácil e rápido, uma vez que de Matosinhos à Carvalhosa demorava trinta minutos, ao preço de 1$20 (doze tostões) mas que logo subiu para 1$50 (quinze tostões).
Sabemos também que o S.T.C.P. sucedeu à Companhia Carris de Ferro do Porto e à Companhia Carril Americano, as quais asseguraram durante muitos anos os transportes públicos para Matosinhos e Leça da Palmeira a tracção a vapor e a tracção animal, respectivamente. Mais modernamente passou a ser utilizada a tracção eléctrica.
Os carros americanos, a tracção animal ainda chegaram a vir a Leça, contudo do que as gerações menos novas se lembram é dos nossos queridos carros eléctricos, das linhas 1, 5, 16 e 19 que proporcionavam viagens maravilhosas nos seus trajectos do Porto até Leça e volta.
A Linha 1 era um espectáculo! Com um percurso ente a Praça da Liberdade (D. Pedro) e a praia de Leça da Palmeira, sempre pela marginal, junto ao mar, tendo normalmente um atrelado.
A Linha 5, também normalmente com atrelado, fazia o trajecto da praia de Leça ao Carmo, subindo a Avenida da Boavista, passava a rua do mesmo nome, Carvalhosa, Cedofeita, Praça de Carlos Alberto e Cordoaria, contornando o edifício da Faculdade de Ciências, passava os Leões, descia ao Hospital de Santo António, entrava na Rua do Rosário, vinha à Carvalhosa, retomando a partir daí o caminho de ida.
A Linha 16 fazia o percurso de Leça, junto ao actual quartel dos Bombeiros de Leça da Palmeira, onde fazia agulha; isto é, mudava de linha, tendo como consequência ser necessário virar os bancos, para o que os mesmos tinham as costas móveis. Subia a Avenida da Boavista em direcção à Praça da República, descia Gonçalo Cristóvão, entrando na Rua de Santa Catarina a caminho da Praça da Batalha, a qual contornava fazendo o mesmo percurso no regresso.
A Linha 19, fazia o trajecto entre a Praça da Liberdade e Leça, até junto aos bombeiros; subindo as ruas dos Clérigos e Carmelitas, atravessava a Praça dos Leões, jardim do Carregal, entrando na Rua de D. Manuel II, Palácio, rua Júlio Dinis, rotunda da Boavista (Praça Afonso de Albuquerque) descia a Avenida em direcção a esta nossa linda terra.
Feita esta vista panorâmica sobre os trajectos não podemos deixar de referir alguns episódios relacionados com carros eléctricos, que nos marcaram, como o acidente do nosso irmão Joaquim que quando tentava apanhar o eléctrico já em andamento, que o transportaria à Escola Industrial Infante D. Henrique, onde frequentava o curso de serralheiro mecânico, caiu, magoando-se imenso, levando a um prolongado internamento no Hospital de Matosinhos, tendo a nossa mãe Brízida em hora de aflição, prometido uma coroa em prata para Nossa Senhora de Fátima, que à data existia no Hospital. Ainda hoje a nossa mãe guarda as canetas e os lápis que o nosso irmão transportava no bolso do casaco e que ficaram esmagados sob os pesados rodados.
Mas nem tudo era triste, como o episódio que acabamos de contar, pois deslocando-se o nosso pai, semanalmente à segunda-feira, à rua dos Caldeireiros, na Cordoaria, para aquisição do material para trabalhar, por vezes levava-nos com ele, e nós muito pequenos como gostávamos daquela viagem comentada!
Apanhávamos o eléctrico da linha 5 no fim da nossa rua junto aos bombeiros, e depois de passada uma vista de olhos ao jornal eis que chegávamos à Circunvalação e aí começava a descrição pelo Castelo do Queijo. Subindo a Avenida da Boavista logo no inicio o Café Bela Cruz, depois eram os belos palacetes, a Fábrica dos Ingleses (William Grham) no Pinheiro Manso, entretanto chegávamos à Rotunda da Boavista, e já de longe comentávamos o Monumento à Guerra Peninsular, admirando lá no alto o leão em cima da águia. Na rua de Cedofeita não deixava de apontar o Bazar dos Três Vinténs repleto de brinquedos que nos limitávamos a ver na montra. Logo de seguida a Praça de Carlos Alberto com o momento aos Mortos das Grandes Guerras, e eis-nos chegados ao Jardim da Cordoaria, hoje completamente desfigurado.
Antes de regressarmos ainda íamos ver o Mercado do Bolhão, e ao lago da Cordoaria ver os peixes e os patos, por vezes visitávamos a nossa tia Carolina que vivia na rua do Barão de Forrester.
Já no eléctrico, normalmente o da linha 19, para passarmos ao Palácio e a volta ficar completa, recordava-mos as caixilharias brancas da bela fachada do Hospital de Santo António, para onde havíamos sido levados com cerca de quatro anos para nos retirarem das narinas grãos de milho e feijão que lá havíamos metido por traquinice de criança, que fomos buscar à saca das compras semanais que a nossa tia Palmira tinha trazido do mercado de Matosinhos.
Eram estes, enfim, os passeios com que a gente humilde se contentava mas que nos deixavam gratas recordações, nos ensinaram a apreciar e a gostar dos pormenores da nossa terra e da cidade grande mais próxima, o Porto; e também muitos dos conhecimentos que nos permitem agora registar e dar a conhecer aos mais novos e recordar aos mais velhos.

Eng.º Rocha dos Santos
in "A Voz de Leça" Ano LV - Número 5 - Julho/Agosto de 2008

Novo Bispo Auxiliar da Diocese do Porto

A Diocese do Porto tem um novo Bispo Auxiliar, D. João Evangelista Pimentel Lavrador, que se junta, assim, a D. João Miranda Teixeira e D. António Maria Bessa Taipa.
Natural de Mira (Coimbra), nasceu no dia 28 de Fevereiro de 1956 em Seixo de Mira. Estudou no Seminário de Buarcos, onde entrou em 1966, tendo terminado o curso de Teologia no Instituto Superior de Estudos Teológicos, em 1980. Foi ordenado Presbítero em Junho de 1981.Entre 1984 e 1988 foi responsável pelo Secretariado Diocesano da Pastoral Juvenil e Assistente Regional do CNE. Durante este período, leccionou Educação Moral e Religiosa Católica na Escola Normal de Educadores de Infância de Coimbra. Entre 1988 e 1990 frequentou a Universidade Pontifícia de Salamanca, terminando a licenciatura canónica na área da Teologia Dogmática com a apresentação da Dissertação «O Laicado no Magistério dos Bispos Portugueses, a partir do Vaticano II».
Em 1991 foi nomeado Reitor do Seminário Maior de Coimbra, cargo que ocupou até 1997. Doutorou-se em 1993, apresentando e defendendo a tese «Pensamento Teológico de D. Miguel da Annunciação – Bispo de Coimbra (1741 – 1779) e renovador da Diocese».
Entre 1993 e 1999 desempenhou também o cargo de Secretário-Geral do Sínodo Diocesano de Coimbra. Desde 1991 que é professor de Teologia Dogmática no ISET de Coimbra.
Foi nomeado Bispo Auxiliar do Porto no passado dia 7 de Maio e a Ordenação Episcopal ocorreu na Sé Nova de Coimbra no dia 29 de Junho.

Fonte: www.diocese-porto.pt
Marina Sequeira
in "A Voz de Leça" Ano LV - Número 5 - Julho/Agosto de 2008

Residência Paroquial - História de Uma Construção

Quem hoje olha para a actual Residência Paroquial pode achá-la um edifício demasiado imponente, mas poucos se recordarão do que levou à sua construção e muito menos da residência anterior, que estava situada noutro local. A Residência Paroquial original tinha sido construída no início do século XIX e estava localizada na área ocupada pelo actual adro e tômbola. Fora oferecida à Paróquia por José Domingues de Oliveira. No início dos anos 60 do século XX, o rebaixamento da actual Avenida Dr. Fernando Aroso, a construção do Salão Paroquial, a necessidade de alargamento do adro da Igreja Paroquial e, sobretudo, a necessidade de alojar os vários sacerdotes coadjutores do Pároco, levaram o Padre Alcino Vieira dos Santos a considerar a construção de uma nova Residência Paroquial. A inviabilidade funcional da Residência Paroquial existente, provocada pelo rebaixamento da actual Avenida Dr. Fernando Aroso, levou o Pároco e a Comissão Fabriqueira a negociar com a Câmara Municipal de Matosinhos a compensação pelos prejuízos provocados a toda a população católica de Leça da Palmeira.
Nesse sentido, foi proposto à autarquia a autorização para a construção de uma nova Residência Paroquial, no terreno oferecido pela Junta de Freguesia, comprometendo-se a Câmara a pagar o valor real do edifício existente. A Câmara Municipal aceitou as condições propostas pela Paróquia, indemnizando-a no valor de 310.000$00, permitindo igualmente o direito ao uso de todos os materiais da antiga residência e assumindo o compromisso de rebaixar o terreno, incorporando-o no adro da Igreja Paroquial.
Em Dezembro de 1961, o Padre Alcino apresentava neste Jornal o projecto da nova Residência Paroquial, que, tal como o do Salão Paroquial, foi da autoria do arquitecto Bruno Reis. A construção justificava-se porque «Por agora, o Pároco tem apenas um Coadjutor – o que é manifestamente insuficiente para as suas necessidades.
Forçosamente, em casa do Pároco se têm de hospedar outros Sacerdotes, chamados à colaboração com ele, como sejam Missionários, Pregadores, Confessores, etc.
Os Sacerdotes têm de ser homens de estudo; e daí, a necessidade de prever, não apenas instalações para atender o público – serviço de cartório – mas gabinetes remotos, onde se possam recolher, para o estudo e para a oração.
Ao número de Sacerdotes, corresponde, necessariamente, um número conveniente de pessoas que tratem da vida doméstica.
Tudo isto justifica o número de dependências constantes da planta.»
Em Maio de 1962, iniciaram-se as obras da nova residência paroquial, ao mesmo tempo que se concluíam as obras do Salão Paroquial e do Bairro dos Pobres. O apelo à generosidade dos paroquianos foi mais uma vez uma constante, por parte do Padre Alcino.
Três anos após o início das obras, a 3 de Maio de 1965, a actual Residência Paroquial era finalmente inaugurada, durante a Festa da Paróquia e contou com a presença de D. Alberto Cosme do Amaral, Bispo Auxiliar do Porto. Mais uma vez, os Leceiros deram uma prova cabal da sua dedicação e empenho às iniciativas da Paróquia. O empenho das forças vivas de Leça da Palmeira permitiu que o Pároco, os seus Coadjutores e o pessoal de apoio passasse a ter uma residência condigna, em termos de condições de habitabilidade e de espaço e que respondesse às necessidades da Igreja


Jorge Sequeira
in "A Voz de Leça" Ano LV - Número 5 - Julho/Agosto de 2008











segunda-feira, 30 de junho de 2008

R.T.A Encena Tradições de Leça

No passado dia 3 de Maio, no Salão Paroquial de Leça da Palmeira, pelas 21h45, o Rancho Típico da Amorosa realizou mais um grandioso espectáculo intitulado “Tradições de Leça”.
Tendo já sido encenado não há muito tempo, esteve como que “guardado na gaveta” e feitas modificação a alguns quadros, no sentido de melhorar a encenação e de aumentar um ou outro quadro, o R.T.A. conseguiu repôr esta produção que muito nos conta da vida “na Leça rural de antigamente” - o quotidiano do lavrador que trabalhava na lavoura de sol a sol, e só parava nos dias de preceito da Igreja, para romarias ou cumprir as suas promessas, e mesmo assim nem sempre. Pretendeu-se, desta forma, mostrar aos mais novos o dia-a-dia do homem do campo, bem como os momentos de lazer, ao longo dos 365 dias do ano.
















Foram representados os seguintes quadros:
· Janeiras – Dois cânticos alusivos à quadra
· Moda da Carrasquinha – Dança recreativa
· Cenas do Entrudo – O “Testamento do Judas”
· Quando meu compadre – Encenação de quadro
· O Senhor da Serra – Dança alusiva ao trabalho do serrador
· Bendito – Melodia cantada na Procissão dos Enfermos
· S. João – “O tostãozinho para a cascata”
· Regadinho – Dança de roda
· Pregões – Vendedores ambulantes
· Arregaça – Dançada depois das regas
· Apanha do Sargaço – O adubo para as terras
· Vira de Oito – Dança de Pescadores
· Desfolhada – Alusão ao Abílio da Moleira
· Vira de Roda – Dança de sedução
· Almas Santas – Melodia com que se pedia esmola
· S. Martinho – O vinho, a alegria, a desmesura…
· Chula Vareira – Dança de Pescadores
· Lavadeiras do Rio Leça – O canto e a coscuvilhice
· O avental da Curiquinha – Dança recreativa
· Mansidão – Dançava-se a caminho das romarias
· Os trajes tradicionais de Leça – Apresentação de Trajes
· Tirana – Dançava-se nas amplas cozinhas leceiras
· Canção de embalar – Cena familiar
· Natal – Adoração ao Menino Jesus
· Janeiras – Cântico de Pastores
A adesão do público foi boa, tendo sido o R.T.A. muito felicitado por mais uma brilhante iniciativa organizada em conjunto com a Junta de Freguesia de Leça da Palmeira. O R.T.A. mostra desta forma que continua muito vivo e sempre disposto a fazer o que melhor sabe para manter vivas as tradições da nossa terra, e levar o nome de Leça da Palmeira o mais longe possível, embora nem sempre os apoios sejam os melhores e suficientes para esta causa.
A época alta do ano no mundo do folclore está já a começar, com festivais e demonstrações de norte a sul do país, e o Ranho Típico da Amorosa não é excepção, tendo organizando em Maio passado o festival do Senhor de Matosinhos e participado no mesmo mês no Festival do Danças e Cantares do Minho em Lisboa. Em Junho continua a participar em outros eventos, como o Festival de Boidobra na Covilhã, Festival de Aniversário do Típico de Ançã, em Cantanhede, Festival de Vila Nova do Coito em Santarém e Festival de Gouveia, na Serra da Estrela. Muitas outras actuações estão já agendadas para o resto do ano, mas neste momento o trabalho do R.T.A. concentra-se em mais uma edição do FESTARTE, este ano a realizar entre 24 de Julho e 4 de Agosto, com a participação da maior parte dos grupos já confirmada faltando apenas a confirmação de um ou outro grupo.


João Teixeira
in "A Voz de Leça" Ano LV - Número 4 - Junho de 2008

Tradições de Leça

Leça da Palmeira, uma cidade à beira – mar plantada desde antiquíssimos tempos tinha o seu modo de viver muito ligado à vida rural, nomeadamente ao calendário do homem do campo.
O lavrador leceiro cumpria religiosa e silenciosamente o seu paciente labor quotidiano ao ritmo que a própria natureza lhe impunha, só descansando um ou outro dia de festa, se isso lhe fosse permitido. Por vezes nem domingos havia!
De Janeiro a Dezembro vivia para o trabalho, relacionando muitos deles com as suas actividades tal como sucede com os meses de: Junho, o S. João; Julho, o de S. Tiago; Setembro, o de S. Miguel; Outubro, o dos Santos, Novembro o de Santo André, ou das sementeiras; e o de Dezembro, o do Natal ou o mês das matanças, por ser a época em que se mata o porco.
A indicação dos meses fazia-se por uma simples festa ou de qualquer acontecimento.
As estações do ano dividiam unicamente, em meses de Verão e meses de Inverno.
No inicio do mês de Janeiro era hábito grupos percorrerem as ruas acompanhados por música de um ou outro instrumento musical, indo de porta em porta cantar as janeiras.
Se o dono da casa correspondia abrindo-lhes a porta, cantavam-lhe: “Viva o dono desta casa / Raminho de salsa crua / Quando se põe á janela / Ilumina toda a rua”. “Viva a dona desta casa / Quando põe o seu mantéu / Quando vaia para a igreja / Parece um anjo do céu. Viva tudo, Viva tudo / Viva tudo nesta hora / Viva também o menino / Para não ficar de fora”; caso isso não acontecesse, gritavam: “nesta casa cheira a unto aqui mora algum defunto. Esta casa cheira a breu aqui, morreu algum judeu”. E… toca a fugir!
Em Fevereiro, dizia-se: “Que matou a mãe ao soalheiro”, e também que: “Lá virá o meu amigo Março que fará o que eu não faço”; tudo isto, claro, relacionado com o tempo de sol e chuva que fazia. Era o mês do Carnaval ou Entrudo, época em que as pessoas se entretiam, disfarçando-se com roupas velhas “correndo o entrudo ou o farrapão”, metendo-se com quem passava, usando esfregarem as caras, mutuamente, com farinha e previlhos. Embora actualmente escasseiem os farrapões, há os mascarados, sendo os encontros em modernos bailes em recintos fechados, estando em decadência o Carnaval grotesco vivido na rua.
Em Março, “em que tanto durmo como faço” ou em Abril de “águas mil, coadas por um funil” ou em que “queima-se o carro e o carril”, ocorria a Páscoa com todo o seu tempo de preparação, com as Procissões dos Passos, a queima do Judas em que é escolhida uma pessoa da comunidade para ser caricaturizado, representada por um boneco de palha com bombas no seu interior ao qual é chegado o fogo após ser lido em tom jocoso o seu “Testamento”, em verso, e a Visita Pascal; e com a chegada do último dia do mês é tradição, os leceiros, grandes e pequenos, cortarem as maias nos campos próximos para as colocar nas suas casas, em todas as portas, janelas e até nos quintais, sementeiras e aidos do gado e capoeiros.
Diz a crença popular que as maias, isto é, as flores da giesta, colocadas nas habitações, significam os sinais postos ao longo do caminho para que Nossa Senhora não se enganasse, aquando da sua fuga para o Egipto com o Menino Deus.
Casa que não tinha maias colocadas ao entrar o mês de Maio “em que se comem as cerejas ao borralho”, o Diabo sujará tudo, além de outros estragos.
O mês de Junho, “com foucinha em punho” traz-nos os Santos Populares com todos os seus folguedos, as fogueiras e os bailes de rua que atingindo o seu ponto máximo no S. João, apesar de “pelo S. João os bois beberem nas pegadas”, “…cobre o milho o rabo ao cão”.
Uma tradição leceira deste mês de Junho é a cascata, que nos traz à memória o deslumbramento da imaginação, da harmonia e da inocência do representar o quotidiano da nossa terra em pequenas figuras de barro compradas na feira da louça do senhor de Matosinhos.
A festa era tal que até se cantava: S. João da Boa Nova. / Nós te qu’remos festejar! / E se queres uma prova, / A tradição se renova, / ‘Stamos na rua a cantar! / … Da nossa terra formosa, / Foste festa popular! /E desta forma amorosa, / Vem tua Leça briosa, / A tradição reatar.
As crianças na rua faziam uma pequena cascata, e por vezes só com um dos Santos na mão, pediam “um tostãozinho para a cascatinha”.
Em Julho, já com o tempo mais quente, começava o ritual dos banhos, primeiro no rio Leça, com fundos lodosos perigosíssimos onde muitos jovens ficaram; mais tarde os banhos de mar tomados de manhã bem cedo e rápido porque o trabalho não esperava.
Em meados de Julho regavam-se os campos para o que se cavavam sulcos extensos de modo a conduzir a água.
Com Agosto à porta surgem as romarias populares, e além das festividades anuais que cada freguesia ainda mantém, perduram as populares e tradicionais romarias, meio pagãs, meio religiosas, onde o povo dá largas à boa disposição.
Pertencem ao número dessas romarias a Santa Eufémia, no alto da Carriça, onde o nosso pai Moisés ia de bicicleta, comprar as alhos e a melancia; a Senhora do Bom Despacho na Maia, etc.
Espontaneamente, ou não, os romeiros juntavam-se em grupos, designados por rusgas e manhã cedo lá iam a pé cantando e dançando, regressando ao escurecer, já com os farnéis vazios.
Destas rusgas nasceu o Rancho Típico da Amorosa defensor e guardião das tradições leceiras que com os seus trajes tão bem conservados, cantares e dançares, mantém vivas não só as tradições leceiras mas também a alma do nosso povo. É um regalo vê-los actuar! Obrigado Raúl.
Durante muitos anos os nossos primos Henriqueta e Hermano Rocha alimentaram a tradição cuidando com toda a dedicação desta nossa tão nobre associação.
Depois do árduo trabalho do campo durante o ano, chega Setembro com a verdadeira azáfama, pois é altura de trazer para casa o milho, outrora transportado em carros de bois, descarregando-o no coberto onde era desfolhado, o que constitui um cerimonial, pois se durante o dia era um trabalho silencioso à noite, ao serão, juntavam-se os rapazes das redondezas. Quando alguém encontrava uma espiga vermelha, “milho rei”, tinha licença para distribuir abraços à roda. Se for espiga “rajada” ou “entremeada”, em vez de abraços à roda, são beijos. Os donos da casa ofereciam pão, vinho, e azeitonas, aparecendo quem tocasse, a gente jovem não resistia à tentação de dançar.
Em Outubro com os trabalhos já encaminhados e o inverno a aproximar-se vamos referir uma outra tradição leceira, que naturalmente desapareceu; referimo-nos às lavadeiras de Leça, que no braço doce do rio lavavam a roupa de sua casa e a de muitas famílias inglesas que à época aqui habitavam, constituía um ritual não só pelo trabalho mas também pelo aspecto social, pois permitia pôr em dia as notícias sobre a vizinhança com o desmascarar de alguns “segredos” e o levantar de alguns boatos! Era uma coscuvilhice! Claro que nos encontros com as mulheres da outra margem do Leça, por vezes as conversas azedavam, ao ponto de chegarem a vias de facto.
Novembro começa com a homenagem aos finados e aqui, por muito que nos custe, vamos falar dos enterros.
Assim, quando morria alguém “tocava o sino a sinal” por duas vezes se era mulher e três vezes se era homem.
O corpo é lavado. Se é homem faz-se-lha a barba, isto é o barbeiro dá-lhe uma “escanhoadela” e é vestido. Posto no caixão procede-se ao velório durante o qual se juntam familiares e amigos, sendo habitual à noite servir café e aguardente.
Á hora de sair o enterro o padre procede ao “levantar do corpo” organizando-se o cortejo fúnebre, à frente a cruz e dois acompanhantes aos guiões ou às borlas, serviço em que ganhámos alguns cobres conjuntamente com os nossos amigos Valdemar e Tito ao serviço do Sr. Silva Armador. A seguir o padre com o rapaz da caldeirinha e atrás do caixão os acompanhantes, familiares e amigos transportando palmas de flores e coroas.
Ainda em Novembro surgiam os vendedores de castanhas que as assavam no forno do padeiro, após o que as punham num saco de serapilheira, cuja boca fumegava, e percorriam as ruas de Leça apregoando: “Quentes e boas! São da quinta da minha avó”!
Em Dezembro, já com frio, e com um cerimonial festivo fazia-se a “matança do porco”. O animal engordado durante o ano, é amarrado a um banco ou a um carro de bois e morto, depois era chamuscado e lavado, aberto e desmanchado.
Neste último mês temos ainda o Natal, o qual deixaremos para uma crónica específica em tempo oportuno.
Haveria muitas outras tradições a referir porém este nosso escrito já vai longo. Deixaremos para outras oportunidades.

Eng.º Rocha dos Santos

in "A Voz de Leça" Ano LV - Número 4 - Junho de 2008

Dia da Mãe no Centro Franciscano

Mais uma vez a Catequese do Centro Franciscano teve uma ideia engraçada: em vez de termos uma catequese do Dia da Mãe, para as mães, este ano tivemos uma catequese feita pelas mães para as suas crianças.
Foi ideia de uma mãe, que inicialmente seria apenas aplicada em dois grupos, nos quais estavam as suas filhas, mas rapidamente passou para toda a catequese do Centro.
Fica aqui a entrevista com a mãe, (Paula Bártolo), que organizou este dia fantástico e também com um dos Catequistas, (Ana Isabel), que seguiu, com agrado, esta sessão.

A Voz de Leça (VL) - Como surgiu a ideia de as mães participarem activamente na sessão de catequese?
Paula Bártolo (PB): Esta ideia surgiu num sábado, após o diálogo habitual com as minhas filhas sobre a sessão de catequese do dia, como uma forma de mostrar, por um lado, aos catequistas que os Pais reconhecem e agradecem o papel fundamental que eles desempenham no crescimento dos nossos filhos; por outro lado, aos nossos filhos que a catequese é um aspecto de vida deles que os Pais valorizam e na qual querem participar.

VL - Qual a opinião das mães em relação à catequese no CEFPAS?
PB: Esta iniciativa só ocorreu porque tem por base o reconhecimento do excelente trabalho desenvolvido por uma maravilhosa equipa de pessoas que diariamente, e não semanalmente, põe a sua vida ao serviço de Deus nas pessoas dos nossos filhos. Tem sido muito gratificante constatar o crescimento na fé que se tem operado ao longo destes anos nos nossos filhos.

VL - Considera importante a intervenção da família na catequese?
PB: Como é óbvio, a caminhada que os nossos filhos vão fazendo na fé tem repercussões no crescimento da família. É muito importante que os nossos filhos sintam que os Pais não os "depositam" na catequese mas que os incentivam a "viver" a catequese e que eles próprios pretendem viver esse aspecto fundamental das suas vidas. Se nos preocupamos em lhes alimentar o corpo, também nos preocupamos com o alimento espiritual e ficamos felizes por os vermos crescer em “estatura, sabedoria e graça”.

VL - Acha que as mães aderiram bem a esta ideia?
PB: Foi uma enorme surpresa a adesão da esmagadora maioria das mães. Cada uma pondo a render os seus talentos com o objectivo de fazer daquele dia muito especial.

VL - Como foi a experiência de preparar uma sessão de catequese?
PB: Tratou-se de uma experiência muito enriquecedora. Desde o despertar das consciências das outras mães, passando pela necessidade de coordenar uma série de actividades, até à escolha e transmissão da mensagem que pretendíamos fazer passar, tudo foi motivo de crescimento. Por fim, ver a satisfação e o orgulho dos nossos filhos foi a melhor prenda do Dia da Mãe que podíamos ter recebido.







VL - O que significou, enquanto Catequista, este dia diferente?
Ana Isabel - Este Dia da Mãe foi um dia bem diferente para a comunidade do Centro Franciscano de Pastoral e Acção Social. Diferente para todos: para as crianças, para os pais (mais particularmente para as mãe), para os catequistas e também para os padres da casa. Sentiu-se em toda a gente o espírito de união e de fraternidade que temos tentado alcançar neste Centro. O facto de serem as mães das crianças a prepararem uma catequese significa muito mais do que isso. Significa que os pais se preocupam com a educação catequética dos seus filhos e que se sentem profundamente à vontade para participarem activamente nessa caminhada tão difícil nos dias de hoje. Este dia de catequese diferente revela também que o esforço que temos feito para trazer a Família à Catequese está a ser conseguido! E para os catequistas foi também uma prova de gratidão, uma prova de valorização do trabalho que desenvolvemos com as crianças, adolescentes e jovens.
“Nós demorámos algumas semanas a preparar uma só sessão, enquanto que vocês têm uma sessão para preparar todas as semanas e fazem-no com qualidade!”, disse uma das mães presentes no encontro. São frases pequenas e muito simples, sinceras mas que servem como um “obrigado” para nós catequistas. “Deus está no teu sorriso” era a mensagem que as mães quiseram passar para todos. E conseguiram fazê-lo muito bem. Respirou-se boa disposição, muito amor e muito carinho naquele dia.
Que Deus esteja sempre no sorriso dos pais os primeiros e principais educadores da Fé; que Deus esteja sempre no sorriso dos párocos que são os pastores do rebanho; que Deus esteja sempre no sorriso dos catequistas que são os que transmitem a Palavra de Deus às crianças e jovens; que Deus esteja sempre, mas sempre, no sorriso das crianças que são o amanhã!


Ana Isabel Faria
Simão Bártolo

in "A Voz de Leça" Ano LV - Número 4 - Junho de 2008

Comendador António de Carvalho - Um Grande Benemérito de Leça da Palmeira

A propósito da memória da construção do Salão Paroquial, aqui fica o registo biográfico de um grande senhor, que tão bem fez nesta nossa terra.

Na edição de Janeiro de 1956 d’ A Voz de Leça, o Padre Alcino Vieira dos Santos escrevia a propósito do falecimento deste grande senhor beirão, o Comendador António de Carvalho, que aqui viveu, em Leça da Palmeira, terra que ajudou a desenvolver, tanto através da indústria que aqui fundou e desenvolveu, como através da sua generosidade.
“(…) A sua fé acompanhava-o na sua vida social. Quando era perseguido pela injustiça, dizia aos amigos: “Eu perdoo tudo. Só quero defender o pão dos meus operários e dos pobrezinhos.” Era amigo dos seus operários, que considerava como irmãos. Era um “Patrão” no verdadeiro sentido do termo: protector-pai… Trava os seus clientes com a lealdade de amigos. (…) Como católico era o primeiro a secundar as iniciativas paroquiais: já aqui falámos na dádiva de 20.000$00 para o Salão Paroquial. Foi um grande benfeitor da Confraria dos Passos do Senhor e Nossa Senhora da Soledade e das Conferências de São Vicente de Paulo. A sua paixão dominante era a caridade. O seu coração não suportava a miséria. A sua generosidade era tanta, que espíritos vulgares não hesitavam em classificá-la de esbanjamento. Santo esbanjamento! Santa prodigalidade! As bênçãos de Deus desceram abundantemente sobre a sua indústria que sempre prosperou (…). A simplicidade da sua alma, junto ao genial talento de industrial, tornavam-no extremamente simpático e querido de todos. Bem podia orgulhar-se do seu talento e do seu dinheiro, mas não. Nunca deixou de ser operário; (…)Tinha um sorriso característico, que acompanhava as suas esmolas. Sabia dar. (…)”
Deixaria em testamento, mais 20.000$00 para o Salão Paroquial.
Fundador da FACAR, (antiga indústria de tubos metálicos sediada em Leça da Palmeira, que viria a desaparecer após 25 de Abril de 1974), o Comendador António de Carvalho era natural de Lamego, onde nasceu em 1874, na freguesia da Sé daquela cidade. Órfão de pai e mãe aos 9 anos de idade, o pequeno António veio para o Porto, para casa de uns parentes, que lhe arranjaram um lugar de aprendiz numa fundição em Massarelos. As dificuldades da vida, que o privaram das despreocupações de uma infância feliz, deram-lhe espírito de iniciativa e vontade de vencer, pelo que ainda jovem era já encarregado de uma oficina metalomecânica, enquanto estudava à noite na Escola Infante D. Henrique.
Com pouco mais de 20 anos emigrou para o Brasil, que era na altura o destino de quem queria “vencer na vida”. Ambicioso mas com uma rectidão de carácter reconhecida e apreciada por todos quantos com ele puderam conviver, também ali teve sucesso, tendo em pouco tempo montado uma oficina de serralharia e fundição. À pequena oficina seguiu-se a construção de barcos com características particulares, (de ferro e com o fundo chato), para subirem o rio Amazonas durante os seis meses de vazante do caudal, período durante o qual os barcos tradicionais não o conseguiam fazer. O sucesso destas embarcações foi tal que António de Carvalho teve que montar uma doca seca para a sua reparação.
Regressado a Portugal ao fim de 25 anos no Brasil, e pretendendo também aqui continuar a ser fundidor e construtor naval, acaba por vir para Leça da Palmeira por causa da localização do porto de Leixões. Apesar de ter chegado a perito na Capitania de Leixões, dada a fraca densidade pesqueira que se verificava naquela época, acabou por converter a oficina de reparação de traineiras, que montara no regresso do Brasil, numa pequena fábrica de tubos de aço. Pequena mas já com características algo avançadas para a época, que viriam a dar origem à padronização dos tubos de aço, em medidas e moldes fixos, numa variedade que se foi alargando com o passar dos anos.
Mais uma vez se manifestava a sua visão à frente do seu tempo: depois de, no Brasil ter sido pioneiro numa vertente da construção naval, em Portugal seria o precursor da indústria dos tubos de aço.
Morreu a 20 de Dezembro de 1955.
O sonho de tornar a FACAR na maior fábrica de tubos da Europa só seria concretizado pelos filhos, António de Carvalho Júnior e Fernando de Carvalho. A FACAR seria também o maior e melhor empregador do concelho de Matosinhos.
Após a chamada “Revolução dos Cravos”, em 1974, durante o período mais negro do “PREC” (Processo Revolucionário Em Curso…), segundo uma certa ideologia reinante que preconizava a anarquia, (não vale a pena dar-lhe outro nome, porque era isso mesmo!), lá surgiu a obrigatória “comissão de trabalhadores” que assumiu a direcção da fábrica, substituindo-se aos seus donos e, em poucos anos, acabou com uma das maiores empresas portuguesas, arrastando para o desemprego famílias inteiras.
Hoje, na zona onde durante décadas existiu a FACAR sobressai um muito visível grupo de prédios, cuja construção se arrastou por polémicas de vária ordem. “Apesar dos pesares” que acompanharam o seu surgimento, aquelas construções foram a forma encontrada para, monetariamente, resolver muitas questões relacionadas com a extinção da FACAR.
Ao menos isso!






Marina Sequeira
in "A Voz de Leça" Ano LV - Número 4 - Junho de 2008

Fontes: A Voz de Leça (Janeiro de 1956)
BENTO,Jorge,2001-Último Pio Do Pardal; Leça da Palmeira, Edição do Autor.

sábado, 31 de maio de 2008

Festa Surpresa do 1º Catecismo

No passado dia 15 de Março, realizou-se no Salão Paroquial uma festinha com as crianças do 1º ano de Catequese. Este evento foi destinado a angariar fundos para a realização de uma viagem ao Santuário de Fátima, de cujas aparições também lhes falámos, cumprindo o preceituado no catecismo, onde se lê que nada melhor do que mostrar às crianças os acontecimentos nos locais próprios.
Já antes do Natal faláramos às crianças em Nossa senhora, a propósito da Anunciação do Anjo, quando ele A veio convidar para ser a Mãe de Jesus e lhe falou de sua prima Isabel que estava para ser mãe. Nessa altura aprenderam a rezar a “Avé-Maria”.
Na festa referida, cada grupo apresentou o seu trabalho: houve danças populares, cantigas, (o “Eu Vi Um Sapo” foi uma graça!), rábulas, teatro, um desfile de moda para todas as épocas e vários “quadros” alusivos à Catequese, como “A Pesca Milagrosa”, “Os Sete Pecados Mortais”, “A Ressurreição”, “Verdade e Mentira”. Foi digno de se ver o empenho e até algum “profissionalismo” dos pequeninos. Igualmente louvável foi o trabalho de todos os Catequistas.
Houve também algumas surpresas, como foi o caso dos Catequistas Ana Catarina e Sérgio que, sendo irmãos para além de tudo, apresentaram um “merengue” e a presença de um grupo de dançarinos da Escola de Danças de Salão da Escola Secundária da Boa Nova, que trouxeram belíssimos números de dança que a todos deliciaram pela beleza e qualidade.
Resta agradecer a todos pela generosidade, empenho e presença: às professoras, coreógrafo e bailarinos na Escola da Boa Nova, aos patrocinadores, ao Pedro Pinheiro que forneceu e operou a aparelhagem sonora e a quem nos honrou com a sua presença, pais, familiares e amigos, pois sem eles não se teria conseguido nada.
Bem hajam e obrigado por tudo.



As Catequistas
Salomé Oliveira e Alice Canastra
in "A Voz de Leça" Ano LV - Número 3 - Maio de 2008

3º Aniversário da Morte do Papa João Paulo II

O Papa João Paulo II faleceu na vigília do segundo domingo da Páscoa de 2005, e esse momento foi lembrado, no dia 2 de Abril deste ano, na homilia que o Papa Bento XVI proferiu na Missa de sufrágio pelo seu antecessor. Sendo todo o discurso proferido pelo Sumo – Pontífice uma “memória” da vida daquele Papa extraordinário, merece especial destaque o excerto que se segue, por citar uma frase “forte”, sempre repetida por João Paulo II.
“(…)"Não tenhais medo!" (Mt 28, 5). As palavras do anjo da ressurreição, dirigidas às mulheres junto do sepulcro vazio, que agora ouvimos, tornaram-se uma espécie de mote nos lábios do Papa João Paulo II, desde o início solene do seu ministério petrino. Repetiu-as várias vezes à Igreja e à humanidade a caminho rumo ao ano 2000, e depois através daquela meta histórica e também sucessivamente, no alvorecer do terceiro milénio. Pronunciou-as sempre com firmeza inflexível, primeiro agitando o báculo pastoral culminante na Cruz e depois, quando as energias físicas iam diminuindo, quase agarrando-se a Ele, até àquela última Sexta-Feira Santa, na qual participou na Via-Sacra da Capela particular estreitando a Cruz entre os braços. Não podemos esquecer o seu último e silencioso testemunho de amor a Jesus. Também aquele eloquente cenário de sofrimento humano e de fé, naquela última Sexta-Feira Santa, indicava aos crentes e ao mundo o segredo de toda a vida cristã. O seu "Não tenhais medo" não se fundava nas forças humanas, nem nos êxitos obtidos, mas unicamente na Palavra de Deus, na Cruz e na Ressurreição de Cristo. À medida que era despojado de tudo, por fim até da própria palavra, esta entrega a Cristo sobressaiu com crescente evidência. Como aconteceu a Jesus, também para João Paulo II no fim as palavras deixaram o lugar ao sacrifício extremo, à doação de si. E a morte foi o selo de uma existência totalmente doada a Cristo, conformada com Ele também fisicamente nas características do sofrimento e do abandono confiante nos braços do Pai celeste. "Deixai que eu vá para o Pai", foram estas, como testemunha quem estava próximo dele, as suas últimas palavras, em cumprimento de uma vida totalmente dedicada ao conhecimento e à contemplação do rosto do Senhor. (…)”
Recolha de Plácido Santos
in "A Voz de Leça" Ano LV - Número 3 - Maio de 2008

As Palavras do Servo de Deus

Pelos Jovens
Senhor Jesus,
que chamaste
quem quiseste,
chama muitos de nós
a trabalhar para ti,
a trabalhar conTigo.
Tu, que iluminastes
Com a Tua palavra
Aqueles que chamastes,
ilumina-nos com o dom
da fé em Ti.
Tu, que os apoiastes
Nas dificuldades,
Ajuda-nos a vencer
As nossas dificuldades
De jovens actuais.
E se chamares
Algum de nós
Para o consagrar todo a Ti,
Que o Teu coração aqueça
Esta vocação desde o seu nascimento
E a faça crescer
E perseverar até ao fim.
Assim seja.

Recolha de Plácido Santos
in "A Voz de Leça" Ano LV - Número 3 - Maio de 2008

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Salão Paroquial - Quadro de Honra

A grandiosa obra do Salão Paroquial é uma das grandes marcas da passagem do Padre Alcino Vieira dos Santos por Leça da Palmeira. Uma obra que só foi possível graças ao seu enorme empenho e capacidade de cativar toda a população leceira. Foram os paroquianos de Leça da Palmeira que, com os seus contributos, tornaram possível a edificação desta infraestrutura tão necessária para a nossa vida paroquial.
Concluída a obra da construção do Salão Paroquial, entendeu o Pe. Alcino dedicar no número de Fevereiro de 1966 uma homenagem às figuras que mais se distinguiram, na sua opinião, na construção do Salão Paroquial. As pessoas distinguidas são:

Eng. Henrique Scherreck – ilustre Director da Administração dos Portos de Douro e Leixões, que deu facilidades e auxílios de primeira importância




















Eng. Alberto da Cunha Leão - ilustre Director dos Serviços de Exploração da Administração dos Portos de Douro e Leixões, que com o seu dinamismo e espírito meticuloso a quem não escapam pormenores e ainda com a sua boa vontade sempre pronta a conceder facilidades



















António de Carvalho, António de Carvalho Júnior e Fernando de Carvalho – proprietários da FACAR, que sempre avançaram na vanguarda do progresso do Salão Paroquial, deram substancial auxílio material.



















João Ramsey Nicolau de Almeida – na qualidade de membro da Comissão Fabriqueira e Juiz da Confraria do Santíssimo Sacramento, ajudou com o seu trabalho, opinião esclarecida e com subsídios em dinheiro de primeira grandeza



















Dr. José Leite Nogueira Pinto, Conde de Leça – que contribuiu com precioso auxílio material





















Arq. Bruno Reis – pelo seu edificante desprendimento (o seu trabalho foi gratuito) e pelo zelo com que orientou e acompanhou a obra até ao fim




















Eduardo Vieira – dinâmico organizador e competente orientador da Campanha das Cotas mensais ou “Inquilinos do Salão”, que deu para esta obra mais de 200 contos





















Augusto Duarte Pedroso – incansável trabalhador e competente orientador que ajudou o Pároco na direcção da obra do Salão Paroquial





















Manuel Gonçalves Morgado – que ofereceu, conjuntamente com o seu genro, António Oliveira, alguns metros de terreno para a construção do Salão Paroquial

Capela de São Miguel – A este conjunto coral muito se deve, pelo lançamento e organização das actividades teatrais e cinematográficas. Destacando-se o seu Director, Jorge Bento, pela actividade desenvolvida no cinema, José Ferreira Santiago, que fez gratuitamente toda a obra de picheleiro e Francisco Leite, que organizou e desenvolveu as actividades do bufete.




Jorge Sequeira
in "A Voz de Leça" - Ano LV - Número 2 - Abril de 2008

Bruno Reis - Pintor e Arquitecto

A propósito da história da construção do Salão Paroquial, tem toda a oportunidade a resenha biográfica do Arquitecto Bruno Reis .

A “marca” de Bruno Reis, Arquitecto, está por toda a parte, em Leça da Palmeira como em Matosinhos. Embora tenha projectos noutras cidades é aqui que “está” mais presente. Como pintor também, já que as suas obras são quase sempre “retratos” desta sua terra.
Bruno Alves Reis nasceu em Leça da Palmeira, a 19 de Março de 1906, e como curiosidade refira-se que foi baptizado pelo Abade Mondego, Pároco da altura e outra figura proeminente desta terra.
Frequentou o Curso de Pintura na Escola de Belas Artes do Porto, tendo já como objectivo vir a formar-se em arquitectura, para o que também se inscreveu no curso de Arquitectura Civil. Entretanto o seu dom para a pintura ia-se revelando e a sua primeira tela de paisagem surge em 1926.
Um ano depois e porque ao contrário do que hoje acontece, “ir à tropa” era obrigatório, Bruno Reis, com 18 anos, tem que interromper o Curso Especial de Arquitectura, mas nem assim deixa de “praticar” a sua arte, dedicando-se à caricatura dos camaradas do Regimento da 1ª Companhia de Saúde, em Mafra. O “génio” estava lá…
Terminado o Curso de Pintura na Escola de Belas Artes, em 1930, participa em exposições colectivas de alunos daquela Escola no Ateneu Comercial do Porto, embora não haja rasto, hoje, da maioria das suas obras dessa época.
Em 1932 matricula-se no Curso Superior de Arquitectura, voltando a exercitar os seus dotes de caricaturista no Livro de Curso dos Finalistas desse ano. Quatro anos depois inicia a sua carreira de professor com vínculo extraordinário à Escola Industrial e Comercial da Póvoa de Varzim, em regime de comissão de serviço na Escola Industrial Faria Guimarães, onde se manterá durante onze anos. A sua carreira como arquitecto tem início em 1941, defendendo como tese de curso o trabalho “Uma Pousada no Minho”. Nesse mesmo ano pinta o quadro “Sol Verde”, adquirido pelo Museu Soares dos Reis.
Apresenta o seu primeiro projecto de arquitectura em 1942 – um prédio de dois andares na Rua Heróis de África, aqui em Leça, da Cooperativa “Problemas da Habitação”. A 17 de Junho de 1944 obtém o diploma de arquitecto com classificação de 17 valores, (Bom).
Mas nem só de artes viveu Bruno Reis e, em 1946, casa com D. Irene de Oliveira, na igreja de Matosinhos. A primeira filha do casal, Maria Antónia, nasce no ano seguinte.
Em 1948 passa a exercer como professor na Escola Infante D. Henrique, no Porto, onde se mantém até 1951.
Em 1949 surge o seu projecto para a “Casa Angola” – um prédio com cave, rés-do-chão e três andares, na Rua Brito Capelo, Matosinhos.
A sua segunda filha, Maria Irene, nasce no ano a seguir e em 1951 participa no 1º Salão de Pintura de Matosinhos, ano em que apresenta o projecto para o edifício da Mútua dos Armadores da Pesca da Sardinha. Projecta igualmente a entrada da Praia dos Banhos e a estufa do Horto Municipal de Matosinhos.
Ainda em 1951, concebe o Parque Infantil de Basílio Teles, tendo a sua colega de curso Laura Costa pintado dois azulejos decorativos com motivos de crianças, para os suportes do portão da entrada. Nesse ano volta à Escola Faria Guimarães, agora Escola de Artes Decorativas Soares dos Reis, onde permanecerá até 1974.
A competência de Bruno Reis enquanto arquitecto é cada vez mais solicitada e, em 1952, projecta já moradias no Porto e em Ermesinde. Em 1953 realiza o projecto da Capela de Santo Amaro em Matosinhos, de que o Padre Grilo viria a ser o primeiro Pároco e que é benzida e inaugurada pelo então Bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes.
Entre 1955 e 1958 executa vários projectos, entre os quais se destaca o da casa do pintor Agostinho Salgado, em Leça da Palmeira.
Daí até 1960, Bruno Reis é mais pintor que arquitecto. É em 1959 que pinta o quadro a óleo “Capela da Boa-Nova”, adquirido pelo Museu Soares dos Reis dois anos depois.
Em 1961, projecta três obras importantes de Leça – a Residência Paroquial, o Salão Paroquial e o edifício da Junta de Freguesia.
Mas não foi só aqui que deixou obra, pois em 1962 projectou o Cine-Teatro de Chaves e dois anos depois, na mesma cidade, o Hotel Trajano. È seu também o projecto da residência do escultor José de Sousa Caldas, no Porto.
Em 1966, usa o seu saber de arquitecto em proveito próprio e constrói a sua casa atelier, na Rua Direita, em Leça da Palmeira, que lhe proporciona extraordinárias vistas sobre o porto de Leixões, cuja construção acompanhou, até 1969, da Doca Nº2 e mais tarde das Docas Nº 3 e Nº 4. São desta altura as paisagens que pintou a partir das vistas que tinha, de sua casa, sobre o porto.
Em 1973 participa na Exposição Colectiva do I Ciclo dos Pintores de Matosinhos – Órfeão de Matosinhos, apresentando treze quadros. Nessa mostra participaram também Augusto Gomes, Irene Vilar, Tito Roboredo e Nélson Dias.
Fica viúvo em 1975 e o seu último projecto de arquitectura surge um ano depois, tinha o artista 67 anos.
Em 1978 participa como pintor na Exposição Colectiva “Matosinhos e os seus Artistas”, organizada pela Câmara Municipal, no Palacete Visconde de Trovões, integrada nas comemorações do 125º aniversário da elevação de Matosinhos e Leça da Palmeira a vila e sede do concelho. Nessa exposição, Bruno Reis apresentou as obras “Lavadeiras”, “Desaterros”, “Casas de Leça Antiga” e “Ponte da Pedra”.
Nesse mesmo ano cessa, a seu pedido, a condição de membro da Direcção Regional da Sociedade Nacional de Arquitectura.
Morre em Leça da Palmeira, em 1984, com 75 anos.

Marina Sequeira
in "A Voz de Leça" - Ano LV - Número 2 - Abril de 2008

NOTA: Ao pensar o título para este texto sobre o arquitecto Bruno Reis, veio-me à memória o da Exposição Comemorativa do centenário do seu nascimento que, em finais de 2006, esteve patente no Auditório da APDL, “Bruno Reis – Pintor Arquitecto”. Inicialmente achei que talvez não devesse usá-lo, até por uma questão de falta de originalidade. Depois, pensei que talvez mudando a ordem para “Arquitecto Pintor” resolvia a questão. Acabei por usar o mesmo título dessa Exposição, com a devida vénia ao seu autor, reconhecendo não ser capaz de ter melhor ideia para descrever o artista.

Capela da Boa Nova

Quando da realização da “Evocação do Naufrágio do Veronese” tivemos oportunidade de uma vez mais visitar a Capela da Boa Nova e apreciarmos alguns dos seus pormenores o que nos levou a reler alguns escritos nomeadamente o livro “Capelas de Leça da Palmeira” da autoria do nosso saudoso e querido amigo Sr. Jorge Bento, recordando também uma outra visita quando do casamento da nossa sobrinha Brízida Maria que com todo o seu gosto a decorou de forma brilhante.
Assim, resolvemos debruçarmo-nos um pouco sobre a dita capela.
Esta capela conhecida actualmente como da “Boa-Nova” ou de “S. João da Boa-Nova” foi, em tempos, oratório de S. Clemente das Penhas, onde se instalaram os frades franciscanos no século XIV, conforme nos diz Frei Manuel da Esperança, membro da Ordem dos Frades Menores de São Francisco, da Observância, na Província de Portugal e seu cronista; havendo contudo registos precisos da sua existência já em 1369.
Do antigo oratório e respectivo cenóbio ou conventinho, restam do lado Norte da Capela, a meia altura da respectiva parede uma cornija onde assentaria o vigamento do seu telhado.
Junto à porta da sacristia umas pequenas construções muito degradadas corresponderão às duas celas referidas por Frei João da Póvoa nas suas “Memórias”, onde se pode ler que quando os frades deixaram São Clemente e foram para Santa Maria da Conceição, ficou lá um frade só, e começaram a desfazer todo o mosteiro, aproveitando a pedra e desfazendo as casas todas, de tal modo que ficou apenas a igreja, a sacristia e duas celas.
Deste lado norte ficaria também o pequeno cemitério dos frades.
Na fachada Sul encontramos quatro cachorros ou modilhões onde assentam os frechais que recebiam a armação de madeira, do telhado que cobria esta construção. Estaremos assim, dentro do antigo convento delimitado pelos baixos muros aí existentes que seriam mais altos, formando a passagem do convento para a ermida com um pequeno telheiro e bancos para possíveis peregrinos ou romeiros.
Dadas algumas pistas para prova da antiguidade do monumento, descrevamos a sua fachada.
Após várias transformações por que deve ter passado, a capela apresenta dois pilares da mais simples das ordens romanas, a toscana, sobre os quais assentam cornijas em arco inflectido e cortado no vértice, sobre a qual apoia um pedestal com cruz latina.
Ao prumo dos ditos pilares temos pedestais encimados por pináculos simples.
As ombreiras e lintel da porta são lisos, sobrelevados por um frontão curvo cortado. Acima, ao centro, uma janela de quatro folhas e aos lados da porta, pequenos postigos rectangulares.
No seu interior encontramos um retábulo de talha do século XVIII, em estilo joanino. Quatro elegantes colunas de fustes lisos, anelados de ornatos e terminados por mimosos capitéis, firmes em pedestais adornados de aves e pequenos florões. Entre as colunas temos três nichos, sendo o central maior, e finamente orlados, onde estão as imagens da Senhora de Boa Nova, uma primorosa escultura de madeira policromada do principio do século XVII, à qual recorrem muitas vezes os interessados nos bons sucessos dos navegantes ausentes.
São João Baptista, esta também uma imagem em madeira policromada, mas do século XVIII, advogado das doenças da cabeça.
São Clemente, uma bela e bem conservada imagem do século XIV, em pedra de ançã, policromada, sendo a imagem mais antiga da freguesia de São Miguel de Leça da Palmeira.
Convém ainda referir uma pia de água benta, talhada em granito existente junto à porta que liga a humilde sacristia à capela-mor, original, e utilizada pelos frades ao entrarem nela.
Os frades mudaram-se em 1478 para o convento da Santa Maria da Conceição.
De registar também umas sepulturas rupestres que existiram na zona, que o progresso e algumas modernices se encarregaram de fazer desaparecer. Os moinhos de vento dos quais restam os ruínas de um, com a promessa da sua consolidação e enquadramento para preservação da memória.
Esta capela da Boa Nova serviu de guarida aos náufragos do navio inglês Veronese naufragado em 16 de Janeiro de 1913 que arrebatados pelos valentes bombeiros voluntários de Leça da Palmeira às ondas traiçoeiras através do cabo de vaivém, aí recebiam os primeiros socorros aguardando a transferência para o posto de desinfecção do Porto de Leixões ou lazareto, e onde foi rezada uma missa pelos mortos na data do primeiro aniversário do dito naufrágio.
Também aí, antes de se fazer a doca, as mulheres passavam as tardes nos rochedos, com trabalhos de roupa caseira, entretidas à espera dos navios que lhes traziam os familiares do Brasil, e quando os avistavam e reconheciam corriam a dar a Boa Nova.
Este ambiente e esta penedia da Boa Nova encantou os artistas, tais como os pintores António Carneiro, Artur Loureiro e Veloso Salgado e poetas como António Nobre que no “Só” escreve: Ó Boa Nova, ermida à beira-mar, / única flor, nessa vivalma de areais; / Na cal, o meu nome ainda lá deve estar / à chuva, ao vento, aos vagalhões, aos raios! / Ó poentes da Barra que fazem desmaios!... / … / Onde estais?
Ouvimos há pouco tempo o máximo responsável autárquico prometer a recuperação deste conjunto patrimonial, integrada nas obras da marginal que estão a decorrer, e esperamos que não passe apenas de promessa pois com todo o esforço que vem sendo feito pelos responsáveis e colaboradores da paróquia para a sua manutenção, as obras são mesmo urgentes.
Ah! E já agora aproveitem a ocasião para livrar a envolvente dos sinais que por lá proliferam de cultos obscuros e crendices macabras!
Eng.º Rocha dos Santos
in "A Voz de Leça" Ano LV - Número 2 - Abril de 2008

segunda-feira, 31 de março de 2008

A Voz de Leça Faz 55 Anos

Por iniciativa do Padre Alcino Vieira dos Santos, A VOZ DE LEÇA nasceu em Março de 1953, há 55 anos, para “falar, dizer, informar, formar, orientar, acompanhar”, tal como referiu D. Armindo Lopes Coelho na mensagem que dirigiu a este Jornal no 50º aniversário. Curiosamente, em 2003, a direcção d’A Voz de Leça estava igualitariamente repartida entre o fundador e o Sr. Padre Lemos, seu actual Director – 25 anos para cada um. Cinco anos depois essa igualdade está desfeita – já passaram 30 anos desde que o nosso Pároco assumiu a Direcção. Não tão marcante como as Bodas de ouro, 55 anos é também uma data “redonda” propícia à lembrança e à menção de quem por cá passou, em especial o fundador, Padre Alcino Vieira, que pensou este Jornal e o tornou ‘Voz’ da Paróquia e para a Paróquia. Fez destas páginas um canal de comunicação sempre aberto com os seus Paroquianos, tal como D. António Ferreira Gomes preconizou na mensagem que dirigiu à Paróquia há 55 anos, na primeira edição: “Por ele a freguesia manifestará as suas aspirações e anseios, dirá das suas iniciativas e realizações. ”Aqui surgiram as primeiras referências aos Bairros dos Pobres e ao Salão Paroquial, que foram as duas mais importantes obras que nos deixou. Aqui foi dando conta do andamento dos projectos, das obras em si, das dificuldades, mas também das ofertas generosas, tantas vezes surpreendentes, que sempre surgiam quando o ‘aperto’ era maior.
Claro que nem tudo foram “rosas” nestes anos todos e houve tempos menos felizes na vida deste Jornal, em especial quando, com escassas perspectivas de continuidade quase desapareceu, em 1978 e 1985. Reergueu-se, primeiro a custo, depois com mais pessoas, (o Alcino Glória, o Sr. Filipe Pacheco e o Manuel José Carneiro) e há um ano, sublinhava-se a estabilidade da Equipa que elabora o jornal mês a mês, reforçada por um grupo de jovens, para além do Eng.º António Ferreira e do Eng.º Rocha dos Santos, que tem levado A Voz de Leça em incursões pelo passado da nossa terra. Nos últimos seis meses houve, porém, algumas mudanças – a Perícia deixou-nos, pelo que voltamos ao contacto directo com a Gráfica Firmeza, como há anos se fazia e o Sr. Filipe Pacheco cessou a sua colaboração regular. Tivemos que alterar ‘timings’ e algumas ‘formatações’, já que agora o Jornal passa exactamente pelos mesmos procedimentos na fase anterior ao envio para a Gráfica, com meios menos ‘profissionais’, mas com um empenho imenso de quem faz questão de apresentar a mesma qualidade.
Sem nunca perder de vista o essencial da já citada mensagem de D. António Ferreira Gomes, de ser “voz de muitas águas” e “o eco permanente do marulhar profundo (…) da vida paroquial” A Voz de Leça faz-se, acima de tudo, com muito gosto e sempre num exercício de prazer.

Estamos todos de Parabéns!
Marina Sequeira
in "A Voz de Leça" Ano LV - Número 1 - Março de 2008