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A Equipa Redactorial

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Evocação do Naufrágio do Veronese

A exemplo do sucedido com a Palestra sobre os Lavradores de Leça, que o Engenheiro Rocha dos Santos pôde repetir no contexto mais adequado – uma grande casa de lavrador, no caso a da D. Alzira Reina e do Sr. Macedo da Silva, depois do trabalho sobre o Naufrágio do Veronese que A Voz de Leça publicou há um ano, foi muito perto do local onde tudo aconteceu há quase um século que foi evocado aquele acontecimento trágico – na Capela da Boa Nova.

Faz parte do nosso imaginário e do leque de histórias locais contadas à mesa, depois do jantar, pelos meus pais Moisés Santos e Brizida Rocha, no tempo em que não havia televisão, a história do naufrágio do navio inglês Veronese nos rochedos da Boa – Nova, o que nos fez sonhar ao longo dos anos em reconstituir tal ocorrência, tendo surgido uma primeira oportunidade com uma crónica publicada com sucesso, nos jornais “A VOZ DE LEÇA” e “MATOSINHOS HOJE” que nos abriram as portas de modo a concretizarmos este nosso sonho.
Agora com o convite da “ASSOCIAÇÃO PARA A UNIVERSIDADE SÉNIOR DE MATOSINHOS”, através do amigo prof. Cunha e Silva, a que se juntou novamente “A VOZ DE LEÇA” e com a colaboração dos Bombeiros Voluntários de Leça da Palmeira, aqui estamos para vos dar a conhecer aquilo que fomos coleccionando quer na memória quer em documentação.
Assim esta ocorrência que entrou na história que a cada passo é recordada, verificou-se em 16 de Janeiro de 1913, um dia de rigorosa invernia com chuva torrencial, um vento muito forte e um nevoeiro cerrado, duas milhas a norte de Leça da Palmeira, um pouco acima da Capela de S. João da Boa – Nova o grande paquete inglês, de 7877 toneladas, da casa Lamport & Holt Line, representada em Portugal pela firma Garland Laidley, Ld.ª do Porto encalhou nos rochedos pontiagudos, conhecidos por “Lanhos”.
Esta Capela de S. João da Boa – Nova onde nos encontrámos, designada antigamente como Oratório de São Clemente das Penhas, onde, em 1392, se instalou Frei Gonçalo Marinho fundando o oratório, encontra-se já em referências escritas nos anos de 1369 e 1376, permanecendo ainda hoje alguns vestígios do antigo oratório e respectivo cenóbio, ou conventinho. Na parede exterior norte existe uma cornija em pedra, onde assentava o vigamento do seu telhado e na parede sul podemos ver quatro cachorros ou modilhões.
As construções anexas a norte são as duas celas referidas por Frei João da Póvoa nas suas “Memórias Soltas”.
Actualmente na sua simplicidade, ressalta no seu interior o retábulo de talha do século XVIII em modesto estilo joanino, com três imagens: São Clemente, Senhora da Boa Nova e de S. João Baptista.
A casa Lamport & Holt Line foi fundada em 1845 por William James Lamport e George Holt.
O vapor havia sido construído em 1906 na empresa Workman, Clark & C.ª, Ld.ª de Belfast e veio de Liverpool para Vigo, onde embarcaram 100 passageiros com destino aos portos do Brasil, Venezuela e Argentina.
O mar agitado e alterado obrigou-o a desviar-se excessivamente para terra, embatendo nos rochedos, daí resultando um inevitável rombo, alagando o porão da proa.
Mais uma medonha e horrível catástrofe ocorria nesta costa norte, provavelmente pela falta de sinais luminosos, nessa altura com farolagem bastante imperfeita ou deficiente, daí a nefasta designação de “Costa negra” ou “Costa muda”.
A bordo, o paquete de passageiros trazia 221 pessoas e dos passageiros faziam parte cinco portugueses, sendo os restantes espanhóis, ingleses e alemães.
Estes portugueses eram:
José Cerqueira, de Freixieiro, José Fernandes, de Monção, António Carvalho, de Freixas – Mirandela, João Afonso Veloso, de Monção e Carlos Teixeira de Freitas, sobrinho do Visconde da Ribeira Brava e que já naufragara outras duas vezes, uma no “Mauritânia” e outra no iate “Maria”.
Três deles eram considerados conspiradores, não sabemos quais, não sendo necessariamente monárquicos como alguém aventou a hipótese; contudo, foram salvos e mandados para território espanhol, depois de lhes ter sido permitido descanso e de serem carinhosamente tratados.
Foi preciso um enorme esforço para salvar os 202 sobreviventes, pois 19 já tinham desaparecido, arrebatados pelo mar ou afogados nos porões e camarotes quando do encalhe, porque o mar estava agitadíssimo, com vagas impetuosas e altas que batendo furiosamente no seu costado, galgavam e varriam o convés. A neblina cerrada envolvia o barco, que apitava pedindo socorro.
Dado o alarme, os briosos soldados da paz dos Bombeiros Voluntários de Leça da Palmeira sob o comando do brilhante oficial do exército, coronel Laura Moreira, rapidamente compareceram no local com todo o seu equipamento, dando inicio ao lançamento de foguetões com o fim de estabelecerem o respectivo cabo de vaivém, o que, segundo consta, era um meio de salvamento recente no nosso País.
Durante o dia 16 muitos foguetões foram lançados até que se conseguisse estabelecer o vaivém, uns porque não chegavam a bordo do Veronese, outros porque partiam as linhas nas pedras, para onde eram levadas pelo mar e a rebentação; porém, renovando-se as tentativas, à tarde conseguiu-se estabelecer o vaivém, tendo vindo para terra o primeiro naufrago entre as 18 e as 19 horas, uma jovem e linda espanhola, Miss Doroteia Olkat, de 15 anos de idade, uma passageira de 1.ª classe, procedente de Liverpool com destino a Buenos Aires onde a esperavam uma irmã e cunhado.
A tripulação e passageiros, abrigados a sotavento dos camarotes e alojamentos, sobre o “spardek” e com uma aparente serenidade, contemplavam os esforços que de terra se empregavam para restabelecer o cabo de vaivém, e, não obstante a sua aflitiva situação, soltavam “hurrahs”, tendo, como reconhecimento por esses esforços de tentativa do seu salvamento, içado as bandeiras portuguesa e inglesa no estai de entre mastros.
Na praia foi montado um posto de sinais com o respectivo mastro, para comunicações com o navio por meio de código comercial.
Foram lançados 58 foguetões mas só 5 alcançaram o paquete. E, quando estabelecida a ligação, o comandante Charles Turner, não sem dificuldades, conseguiu manter a disciplina a bordo, dando ordens terminantes para que as primeiras pessoas a salvar fossem as mulheres, seguindo-se-lhe os homens e, por último, os tripulantes, ordens estas que foram escrupulosamente cumpridas.
À luz de archotes e mais tarde de cinco gasómetros de acetileno sob chuva torrencial o cabo de vaivém funcionava bem e iam chegando sucessivamente outras pessoas. Era uma mãe acarinhando ao peito uma filhinha de oito anos ou uma mulher que, apesar de desmaiada, apertava sempre nos braços uma criancinha.
Chegaram outras mulheres que no posto médico estabelecido na Capela da Boa Nova, onde o primeiro médico a chegar foi o Dr. Manuel Monterroso, nascido na freguesia da Lomba, em Amarante, em 1876, vivendo vários anos em Matosinhos, contavam entre soluços a forma como viveram aquele desastre, as suas angústias, e as horas longas em que todos tinham desesperado de se salvarem. Diziam aquilo chorando e olhando o barco onde havia ainda muitos desditosos que tinham descido para os porões desde que o mar levara dois.
Também no trajecto, uma mulher deixara uma vaga levar-lhe uma criança que trazia consigo nos braços, na bóia-calção. Dizia a nossa tia Olívia Maria que foi assistir aos salvamentos que se tratava da criada com a filha da senhora que tinha vindo no salvamento anterior.
A meio da tarde, do dia 17, havia mais de cinquenta pessoas salvas.
As dificuldades eram muitas, a bóia-calção vinha muitas vezes por dentro de água porque a cabrilha normal do equipamento dos bombeiros é baixa, foi então que no inicio do dia 17, enquanto se procedia a diligências para o restabelecimento da ligação com o barco, um homem, lavrador com terrenos no lugar de Ródão, em Leça da Palmeira, que vendo o esforço das várias corporações de bombeiros voluntários accionarem os seus foguetões em sucessivas tentativas para fazerem chegar os cabos de vaivém ao navio naufragado caírem goradas; teve a perspicácia e oportunidade de se aperceber que, pela altura das cabrilhas entretanto instaladas no areal, quando conseguissem montar novamente o cabo de vaivém, a bóia calção, trazendo os náufragos, não teria outra hipótese que não fosse a de mergulhar nas águas gélidas e revoltosas.
Então, pensou e rapidamente, na sua mente, surgiu uma ideia. Dirigiu-se ao areal indagando quem comandava as operações, com quem chegou à fala, propondo-lhe a sua solução que de imediato foi aceite! Propôs a montagem de duas varas de pinheiro, que foi buscar às suas bouças, muito mais altas do que a cabrilha por onde passava o cabo, trazendo a bóia-calção acima das ondas e com mais facilidade para todos incluindo aqueles que puxavam o cabo e os náufragos que iam chegando à praia, e que foram em tal número que foi estabelecido o record de salvamentos por este meio.
Este homem generoso e simples chamava-se Manuel António José Correia, conhecido como o António “Rato” de Ródão, que na sua generosidade e grandeza de alma nunca aceitou qualquer homenagem, condecoração ou sequer referência ao seu nome nas listas daqueles que se distinguiram nos esforços desenvolvidos para salvamento dos tripulantes e passageiros do navio naufragado; VERONESE; contudo, mais tarde, recebeu daquela companhia como reconhecimento, uma cigarreira em prata, na frente da qual se pode ver gravada a bandeira da companhia a cores e as referências “Boa Nova”, “16th January 1913”.
Estas vagas alterosas não permitiam a aproximação dos barcos salva – vidas de forma que foi preciso estabelecer entre eles e o navio uma bóia circular de salvação onde os náufragos se metiam, lançando-se ao mar, sendo então alados para dentro do salva – vidas que se aguentavam sobre os remos, levando-os depois para os barcos de reboque.
Os salva – vidas disponíveis eram o “Rio Douro” comandado pelo heróico José Rabumba “O Aveiro”, nascido na freguesia da Senhora da Glória, em Aveiro, a 24 de Fevereiro de 1866, falecendo em Leça da Palmeira em 25 de Março de 1952 e o “Cego de Maio” comandado por Manuel António Ferreira, o “Patrão Lagoa”, nascido na Póvoa de Varzim a 14 de Junho de 1886, onde faleceu a 7 de Julho de 1919, o qual tinha vindo da Póvoa de Varzim por terra. Dois salva – vidas comandados por dois verdadeiros e ousados lobos-do-mar!
Estes dois salva – vidas saíram durante a madrugada de Leixões, o primeiro a reboque do “Tritão” de que era comandante Francisco Gomes Cardia, e o segundo a reboque do “Bérrio”.
No inicio do dia 18 o tempo melhorou permitindo a aproximação dos salva – vidas ao vapor Veronese, mesmo assim um pouco ao largo, tendo os náufragos saído do paquete amarrados a uma bóia atirando-se à água, sendo logo recolhidos pelos dois salva – vidas.
Ao fim de duas viagens do “Tritão” e três do “Bérrio”, pelo meio da tarde do dia 18 de Janeiro de 1913, todos os náufragos se encontravam no Posto de Desinfecção, devidamente preparado para os receber. Esses náufragos que ao desembarcarem agradeciam o auxílio entoando em coro o hino inglês que é uma prece e simultaneamente era uma homenagem.
Ao ser dado sinal de que o último náufrago saiu do “Veronese” o seu capitão, Charles Turner, agitou as bandeiras dos sinais e de terra acenaram-lhe com lenços numa saudação. Cumprira até ao fim o preceito estabelecido nos casos de naufrágio, o de se salvarem primeiro as mulheres e crianças, depois os homens e por último a tripulação pela ordem inversa da sua hierarquia, o seu navio estava perdido mas ele ficara com vida, meteu-se na bóia – calção e ao chegar a terra foi alvo de uma grande manifestação de regozijo através de uma prolongada e quente ovação por parte dos muitos milhares de pessoas que na praia assistiram emocionadas ao dramático espectáculo marítimo.
Em toda esta situação houve trinta e oito vítimas mortais. No entanto salvaram-se 191 indivíduos sendo 89 pelos cabos dos Bombeiros e 102 pelos barcos salva – vidas.
O cabo de vaivém realizou o “record” do mundo em salvamentos, como dissemos e foi reconhecido em todas as instâncias, pelo comandante do navio.
Os bombeiros de Leça foram uns verdadeiros heróis. Pensamos até que o seu record jamais foi ultrapassado.
Claro que perante tamanha tragédia muitos se salientaram no salvamento dos náufragos sendo os seus actos heróicos reconhecidos pelo Instituto de Socorros a Náufragos que lhes concedeu diversas condecorações e das quais destacamos: Medalha de Ouro, a José Rabumba, “O Aveiro”, patrão do salva – vidas “Rio Douro” e a Manuel António Ferreira, “O Patrão Lagoa”, patrão do salva – vidas “Cego de Maio”. Medalha de Prata, a Alfredo Guilherme Howell, capitão de fragata, capitão do porto de Leixões, a João do Amaral, José Pereira da Silva, Augusto Pereira Ramiro, José Fernandes Tato, Manuel da Cunha Folha, Adelino Pinto dos Santos, Afonso Caetano Nora, Serafim dos Santos Serafim, José Bento Garcia, João Esteves Galego, Manuel Caetano Nora, António de Oliveira Brandão, Joaquim de Oliveira Meireles, Manuel Gomes, Inocêncio Pinto Soares, todos eles tripulantes do salva – vidas “Rio Douro”. Medala de Cobre, a Dr. Manuel Monterroso, a Francisco Gomes Cardia, comandante do rebocador “Tritão”, a Alberto de Laura Moreira, comandante dos Bombeiros Voluntários de Matosinhos e Leça da Palmeira e Associação dos Bombeiros Voluntários de Matosinhos e Leça da Palmeira. Com o diploma de louvor aos Dr.s José Pinto Queiroz de Magalhães, director da Cruz Vermelha, Mário de Castro, Bernardino Silva, José de Sousa Feiteira Júnior, José Casimiro Carteado Mena, Pedro de Sousa, António Freitas Monteiro, José Domingues de Oliveira Júnior, Barros Nobre, José Maria Ferreira, capitão médico, Manuel Bragança, tenente médico e Victorino Magalhães, tenente médico.
Muitos outros foram condecorados que aqui não mencionamos por se tornar fastidioso enumerá-los todos.
Também a Cruz Vermelha Portuguesa condecorou diversos voluntários que tudo deram pelo bem dos náufragos.
Mais tarde 130 passageiros embarcaram para o Brasil no vapor “Darro” e os restantes foram para diferentes portos, embarcando nos navios “Salamanica” e no “Orita”, outros embarcaram em Lisboa no navio Avon com destino a Inglaterra.
Quando o tempo amainou o agente da companhia, o comandante e alguns oficiais foram a bordo, percorrendo várias dependências do navio de onde retiraram ainda roupas, objectos náuticos, documentos e malas com valores que se encontravam nas cabines da 1.ª classe.
No porão do navio apareceram três cadáveres de dois homens e de uma mulher.
Mais tarde vinte e cinco trabalhadores retiraram alguns salvados para bordo do rebocador Hermes, aparecendo abertas algumas malas, talvez pelos próprios proprietários que, no meio da sua angústia, tentassem salvar alguns dos seus valores. Também se retiraram de bordo as malas do correio que se destinava a Buenos – Aires, em muito mau estado, mas chegaram ao seu destino.
O mar foi arrojando à praia muitos destroços e pertences do navio e da sua carga alguns dos quais se mantêm ainda hoje na posse de algumas pessoas como as três argolas de guardanapos que aqui exibimos, e outras recordações como as existentes no Museu dos Bombeiros Voluntários de Leça da Palmeira.
Esta situação deu também origem a diversas manifestações artísticas como as das imagens exibidas, e a diversos registos em livros como: “Naufrágios e Acidentes Marítimos na Costa Portuguesa” de Francisco Cabral, “Os Naufrágios Mais Calamitosos Ocorridos no Litoral do Concelho de Matosinhos e Suas Proximidades” de Horácio Marçal e “Naufrágios na Costa Norte Portuguesa” de Manuel Lima.
E, a reprodução em maqueta feita por esse artesão de mãos maravilhosas, o leceiro nascido em 2 de Fevereiro de 1917, de seu nome Joaquim Fernandes Neves.
O naufrágio do Veronese ocasionou que, meia dúzia de anos mais tarde, ali fosse construído um farolim, o qual deu origem ao nosso farol da autoria do Eng.º José Joaquim Peres, inaugurado em 1927, e hoje amputado das sirenes, que marcavam acusticamente a sua presença, a nossa carismática ronca da Boa – Nova.
Relatou-nos um elemento da família “Bispo” que um dia à hora de almoço o engenheiro passou, salvou e dirigiu-se ao farol, quando um pouco mais tarde o procuraram jazia morto na base do mesmo, pois havia-se lançado lá de cima.
Relativamente à tripulação, partiu de comboio do Porto para Lisboa, daí embarcando para Inglaterra, tendo na estação de S. Bento, a mais afectuosa despedida.
O seu comandante, Charles Turner, mandou formar os seus homens na “gare” e, num curto mas eloquente improviso, exortou-os a que se conservassem eternamente gratos aos seus salvadores, manifestando de seguida o seu mais profundo reconhecimento ao povo de Leça da Palmeira e de toda a orla costeira nortenha, tendo concluindo dizendo que, ao chegar ao seu país, não se esqueceria de enaltecer as extraordinárias e inequívocas provas de coragem, altruísmo e abnegação dadas pelo bom povo português.
Bibliografia:
· Manuel Lima – “Os Grandes Naufrágios da Costa Norte Portuguesa” 1998.
· Horácio Marçal – “Os Naufrágios Mais Calamitosos Ocorridos no Litoral do Concelho de Matosinhos e Suas proximidades” 1974. Separatas n.º 21 do Boletim da Biblioteca Pública Municipal de Matosinhos.
· Mundo Ilustrado – 2.º Ano – n.º 4 de 26 de Janeiro de 1913.
· Ilustração Portugueza n.º 362 de 27 de Janeiro de 1913.
· Instituto de Socorros a Náufragos – Relatório do Ano de 1913.
· Espólio do Autor.

Após a palestra no interior da Capela, pôde presenciar-se uma simulação do uso do cabo vaivém com a “bóia-calção” que foi usada em 1913, levada a efeito pelos Bombeiros de Matosinhos – Leça, que gentilmente deram a sua colaboração, usando as peças originais existentes no Museu da Corporação.














Bibliografia:
· Manuel Lima – “Os Grandes Naufrágios da Costa Norte Portuguesa” 1998.
· Horácio Marçal – “Os Naufrágios Mais Calamitosos Ocorridos no Litoral do Concelho de Matosinhos e Suas proximidades” 1974. Separatas n.º 21 do Boletim da Biblioteca Pública Municipal de Matosinhos.
· Mundo Ilustrado – 2.º Ano – n.º 4 de 26 de Janeiro de 1913.
· Ilustração Portugueza n.º 362 de 27 de Janeiro de 1913.
· Instituto de Socorros a Náufragos – Relatório do Ano de 1913.
· Espólio do Autor.

Eng.º Rocha dos Santos
in "A Voz de Leça", Ano LIV - Número 11 - Fevereiro de 2008

150º Aniversário das Aparições de Nossa Senhora em Lourdes (1858-2008)

Celebra-se este ano o Jubileu dos 150 anos das aparições de Nossa Senhora a Bernardete Soubirous, em Lourdes, no Sul de França, em 1858. Desde então ali têm ocorrido gentes de todas as partes do mundo. Todos os anos o Santuário de Lourdes recebe cerca de seis milhões de visitantes, motivados pela fé e pela esperança de serem curados ou de alcançarem as graças pretendidas nos momentos de maior desespero ou provação. Este Jubileu vai ser comemorado ao longo do ano de 2008, tendo as celebrações começado no passado dia 8 de Dezembro de 2007, terminando no mesmo dia 8 de Dezembro deste ano.
Neste mês de Fevereiro o programa é o seguinte:
Dia 2 – Festa da Apresentação do Menino Jesus no Templo – Jornada da Vida Consagrada
Dia 6 – Quarta-Feira de Cinzas – Entrada na Quaresma
Dia 9/11 – Recolhimento – “Acolher a Mensagem de Lourdes”
Dia 11 – 1ª Aparição – Festa de Nossa Senhora de Lourdes – Jornada Mundial do Doente
Dia 14 – 2ª Aparição – Acolhimento em frente à Gruta ás 11h30
Dia 16/18 – Recolhimento – “Com Bernardete, vive a graça de Lourdes”Dia 18 – 3ª Aparição – Festa de Santa Bernardete – Á noite, procissão na cidade – Debate sobre a quinzena das aparições.
Dia 22/24 – Recolhimento – “A Quaresma à luz de Lourdes”
Dia 29/2 Março – Recolhimento – “A Quaresma à luz de Lourdes”

1ª Aparição de Nossa Senhora a Bernardete – 11 de Fevereiro
Aquela Quinta-Feira, 11 de Fevereiro de 1958, aparentemente foi um dia como outro qualquer de Inverno. Joana Baloum, de 12 anos, com Bernardete e sua irmã Maria, foram apanhar lenha, para se aquecerem no frio daqueles dias.
Dias esses que os mais abastados passavam juntos da lareira, enquanto os mais desfavorecidos tinham que trabalhar, indo para os montes e florestas apanhar lenha para se aquecerem, mas também para vender alguma e assim conseguirem um pouco mais de dinheiro.
A família Soubirous, pais de Bernardete,era tão pobre que não se podia dar ao luxo de não trabalhar ficando ao pé do lume, nem mesmo nos dias mais frios de Inverno.
Depois de algumas hesitações, as três meninas decidem ir pelo monte junto ao rio Gave. Só que nesse local havia uma pequena colina rochosa a que chamavam Massabielle. No entanto, para lá chegar era preciso descalçarem-se e atravessar o rio com água pelo joelhos. Joana e Maria passaram com facilidade, mas Bernardete sabia que a mãe não lho permitia, devido à sua frágil saúde. Caso decidisse atravessar sabia que lhe faria mal. Ficou ali à espera das companheiras, mas como estas se estavam a demorar mais do que o previsto, Bernardete começou a descalçar-se para ir ao seu encontro. Ouviu, então, o rumor do vento nas árvores, forte como se previsse uma tempestade.
Virou-se e assustou-se quando reparou que as árvores em seu redor mal se mexiam. Começou então a rezar. Alguns instantes depois voltou a sentir o mesmo ruído do vento, e reparou que este vinha do lado de uma gruta que lá havia, notando que os ramos da entrada se agitavam.
Continuou a descalçar-se e, quando se decidiu a meter o pé na água, ouviu novamente o mesmo ruído à sua frente.
Levantando os olhos, olhou para a gruta onde os ramos se mexiam. Qual é o seu espanto quando vê dentro da gruta uma bela jovem que parecia ter a sua idade, que a saudou com uma ligeira inclinação de cabeça, ao mesmo tempo que estendia os braços e abria as mãos. Do seu braço direito pendia um lindo rosário. Nesse instante, Bernardette esfregou os olhos, pensando que não era verdade o que os seus olhos estavam a ver, quando a Virgem, com um sorriso gracioso, a convidou a aproximar-se.
Quando as companheiras regressaram de apanhar lenha, viram que Bernardete estava em profundo êxtase. Chegaram a pensar que a irmã estava morta.
Quando voltou a si a jovem perguntou-lhes: “Vocês viram alguma coisa?” Ao que as irmãs responderam: “Não, e tu viste?”
Bernardete resolveu não lhes contar logo o sucedido, no entanto no caminho de casa acabou por lhes revelar tudo: “Vi uma Senhora muito bonita e resplandecente, vestida de branco com uma faixa azul e com uma rosa amarela em cada pé… Que linda que ela era!... Que sorriso tão amável quando rezava o rosário comigo! Oh, como gostaria de voltar a vê-la! Mas não digam a ninguém!”
Elas prometeram, mas mal chegaram a casa, não conseguiram calar-se.

João Teixeira
in "A Voz de Leça", Ano LIV - Número 11 - Fevereiro de 2008

Os relatos das aparições assim como os acontecimentos deste Jubileu comemorativo, vão sendo publicados todos os meses, para nós também viver-mos este ano com uma especial devoção a Nossa Senhora de Lourdes.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Bairro de Gonçalves - 50 anos

12 de Janeiro de 1958 - mais um dia marcante na vida da Paróquia de Leça da Palmeira e a concretização de mais um sonho do Rev. Pe Alcino Vieira dos Santos: a inauguração do Bairro de Gonçalves.
Após terem contribuído para a construção deste bairro, os Leceiros marcaram presença na inauguração da primeira casa. O Pároco pediu que todos os proprietários de automóveis integrassem o cortejo com o seu carro, que se realizou entre a Igreja Paroquial e o Bairro de Gonçalves. Mais uma vez a população de Leça se colocou ao lado do seu Pároco, com quarenta carros, oitocentas crianças, mais de mil pessoas a
integraram este cortejo, que abria com o Rancho Amorosense. À família da Senhora Albina Trocado coube a felicidade de ocupar a primeira habitação deste bairro - uma família pobre e numerosa, constituída por dez pessoas. A entrega da primeira casa iniciou-se com o cortejo em direcção à Igreja Matriz onde foi celebrada missa. O ofertório foi demorado, pois foram centenas de pessoas ao altar, onde o Pároco tudo recebeu, depois de ter dado a imagem do Menino Jesus a beijar. Além de inúmeros géneros alimentícios e peças de vestuário foram entregues cerca de 15.000$00. Terminada a Missa foi de novo ordenado o cortejo em direcção ao Bairro de Gonçalves, com o Rancho Amorosense à frente.
No patamar da pequena escada da entrada, estava a família contemplada: a D Albina, com o menino mais novo ao colo, rodeada dos outros sete meninos e meninas e sua mãe. O P.e Carlos Galamba dirigiu a palavra aos presentes, de uma forma sentida e emociada, destacando-se no seu discurso o seguinte extracto: «Jesus recebeu hoje, na pessoa dos pobres, uma grande prova de carinho do povo de Leça da Palmeira. Toda a Paróquia viveu este momento. O cortejo interminável de automóveis, representa o interesse dos grandes. Não faltaram também os pequeninos… Isto não é filantropia, é caridade, porque tudo foi oferecido na Igreja pelas mãos do Pároco em união com o sacrifício do altar. Todos os de Leça da Palmeira, desde hoje em diante, são proprietários, porque aquelas casas são nossas. Ali está a porta do Céu, porque ali temos Jesus, nas pessoas dos pobrezinhos. Por ali serão abertas as portas para a recompensa eterna.»
De seguida, o Pároco entregou as chaves à chefe da família que abriu a porta e entrou sob uma enorme ovação de palmas. A família Ortigão de Oliveira depôs na modesta mesa da sala de jantar um abundante almoço para esta família.
A segunda casa deste bairro foi entregue no dia 20 de Abril de 1958, à família de Manuel Gomes Cruz, doente e impossibilitado de trabalhar, com esposa e quatro filhos.
Nascia, assim, há precisamente 50 anos, a ‘habitação social’ de Matosinhos…

JS
in "A Voz de Leça", Ano LIV - Número 10 - Janeiro de 2008

segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

Um Encontro Nada Fácil

O Teatro, no mês de Novembro, em Leça da Palmeira, começou com “O Pecado de João Agonia” pelo TEAGUS – Teatro Amador de Gulpilhares. Esta peça, de Bernardo Santareno, representada pela primeira vez em 1969, é uma produção diferente daquelas que o TEAGUS habitualmente produz. A forte densidade dramática do texto põe à prova a capacidade emotiva dos actores e actrizes que a representam, mas também é um grande desafio para o público, que é levado a pensar e reflectir sobre o preconceito da homossexualidade. E esta “batalha” foi ganha pelos Gulpilharenses, que conseguiram que o público repensasse este direito à diferença.
Mas o Leça 2007 continuou “azarado”. Não esqueçamos que logo no segundo espectáculo deparámo-nos com a falta do Grupo da Escola Dramática Valbonense. O espectáculo do dia 10 de Novembro também teve de ser substituído. Dado que um dos actores de “O Saiote de Celestina” e d’A Verdade Vestida” se encontrar doente, a Associação Recreativa “Os Plebeus Avintenses” não nos pôde apresentar este espectáculo. Todavia, conseguimos substitui-lo pelo “A Pena e a Leia”, muito bem representado pelo Grupo dos Restauradores de Avintes. Foi um espectáculo diferente, com bastante musicalidade e, com toda a certeza, foi do agrado de todos aqueles que o contemplaram.
E o azar não terminou aqui. Infelizmente tivemos mais uma falta. O RIBALTA – Grupo de Teatro da Vista Alegre também não nos pode apresentar o seu trabalho, “A Ordem é Ressonar”, desta feita por razões profissionais do actor principal. Contudo, não conseguimos trazer até Leça outra peça. Como sabemos, esta é uma altura em que a maioria dos grupos com os quais fazemos “troca” de espectáculos se encontra no seu Encontro de Teatro, tal como acontece com o Grupo Paroquial de Teatro de Leça da Palmeira. Ora, este factor dificulta um pouco as coisas quando surgem estas situações imprevistas.
E o último espectáculo do Leça 2007 parecia que também seria “marcado” pelo azar: uma actriz do elenco estava doente e o encenador António Paiva ainda não se encontrava em pleno para assistir ao espectáculo. Mas tudo foi ultrapassado e, modéstia aparte, muito bem. A actriz foi substituída e o elenco “portou-se” à altura das expectativas. O espectáculo correu até melhor do que estávamos à espera e tivemos bastante adesão por parte do público. Esta foi mais uma homenagem que o Grupo cénico fez ao seu encenador, ao mostrarmos que conseguimos pôr em prática tudo aquilo que ele nos ensinou ao longo dos anos. Terminado o espectáculo, teve lugar a habitual sessão de encerramento do Encontro. Esteve presente um representante da Junta de Freguesia de Leça da Palmeira, mas infelizmente não tivemos presente nenhum representante da Câmara Municipal de Matosinhos, “em virtude de compromissos previamente assumidos e inalteráveis”. Mas fica aqui expresso o nosso sentimento de pena e tristeza. Porque ao fim e ao cabo, temos o apoio monetário da Câmara para a produção do nosso Encontro, e gostávamos que o nosso trabalho fosse realmente admirado por parte da Autarquia. “Fica para a próxima”, temos a certeza.
O balanço do Leça 2007, apesar de tudo, é positivo: assistimos a bom teatro de amadores. E é isso que importa!
Mas não posso terminar este artigo sem primeiro deixar aqui expresso o desagrado do Grupo Paroquial de Teatro em relação a uma situação da qual fomos “vítimas”. Durante o Leça 2007, fomos “contemplados” com a visita de um fiscal da Sociedade Portuguesa de Autores. Um fiscal “a sério”, com papelada e “provas do crime”. E o “crime” que o Grupo Paroquial de Teatro cometeu é fazer teatro! É dar teatro à população de Leça da Palmeira; é prestar um serviço cultural reconhecido por parte da autarquia municipal, da Junta de Freguesia e até pelo Governo Civil; é organizar um Encontro de teatro de amadores, gente como nós, que monetariamente nada ganha com esta actividade; é ocupar o tempo livre dos seus actores, contribuindo assim para o tão fomentado associativismo; é contribuir, assim, para a dinamização de uma sociedade tão marcada pelo sedentarismo. É este o crime pelo qual o Grupo Paroquial de Teatro terá de “responder”. E agora eu pergunto, será justo? É este o país que queremos ter? Um país que, em vez de apoiar as suas associações e colectividades, ainda lhes aplica castigos.
Viva o Teatro!

Ana Isabel Faria
in "A Voz de Leça" - Ano LIV - Número 9 - Dezembro de 2007

Pode Ser Sempre Natal

O título deste texto lembra uma frase muito conhecida, a que me abstenho de chamar “chavão”, dado que, apesar de repetida não perdeu significado: ‘Natal é quando um homem quiser’. E é mesmo: não apenas quando o calendário indica esta época e tudo à nossa volta o lembra. ‘Natal’ é sempre que não se passa indiferente ao lado do sofrimento dos irmãos, sempre que se divide com quem tem menos.
E houve “Natal” quase um mês antes da data no calendário, quando três nossos irmãos do Bairro dos Pobres de Rodão puderam passar a viver com alguma dignidade e não como animais, que era o que estava a acontecer já há alguns anos. A situação de um deles, Carlos, 30 anos, era absolutamente degradante. Desde a morte da mãe e do segundo casamento do pai passara a viver numa barraca que, ainda que feita de cimento, tinha servido de galinheiro da família. Tóxico-dependente em recuperação, foi assim, em condições absolutamente degradantes, que foi encontrado pelo nosso pároco.
Quando questionado sobre o que o levou a descer tanto na escala da dignidade humana, tinha uma história trágica para contar: o desgosto pela perda da mãe foi demasiado pesado de aguentar, a mulher que o pai escolheu para recompor a família acabou por não ser sensível à perda do enteado, a carência afectiva foi insuportável, o álcool e a droga surgiram como uma espécie de refúgio, mas também um ‘passaporte’ para fora da realidade, porque essa ficou impossível de aguentar. Daí passou a viver no referido galinheiro, cuja porta terá começado por ser parte de um cobertor que o tempo deteriorou até à condição recente de farrapo imundo.
No espaço propriamente dito e a que não sou capaz de chamar ‘quarto’, porque efectivamente nunca deixou de ser ‘galinheiro’, quase não conseguia entrar dada a exiguidade do tamanho, onde mal cabia aquilo que outrora terá sido uma cama, mas ultimamente era apenas um monte de andrajos. O Carlos atribui à falta da mãe a miséria a que chegou, já que os outros dois ‘seus vizinhos’ nesta situação desgraçada, não chegaram a tal ponto porque, nas suas palavras, “ainda têm mãe”. A sua, se ainda fosse viva, nunca o obrigaria a abrigar-se no ‘galinheiro’, nunca lhe cobraria dinheiro por um banho ou por uma sopa, como lhe fazia a actual companheira do pai. Assim, foi perdendo o interesse por tudo, ‘matando’ o tempo e morrendo também um pouquinho todos os dias… No entanto, nunca deixou de cumprir as sessões e prescrições do tratamento de desintoxicação em que tinha sido integrado pela Segurança Social. Foi essa a sua ‘estrelinha de Belém’ que não o deixou perder-se completamente no caminho.
Hoje, o ‘galinheiro’ onde foi passando as horas de sono, foi substituído por um quarto com casa-de-banho, com espaço para circular à volta da cama, o que não acontecia, onde pode passar e passa mais tempo com alguma qualidade, mas sobretudo com a dignidade mínima que é exigível pela sua condição humana. O Sr. Altino Barbosa (mestre de carpintaria) fez o ‘boneco’ e construiu-se a nova habitação. No dia em que lá dormiu pela primeira vez, no início de Dezembro, o Carlos teve o seu primeiro ‘Natal’ deste ano. E se mesmo quando as condições eram miseravelmente degradantes ele nunca se perdeu totalmente, hoje que pode viver mais como gente, agarrou “com as duas mãos” o emprego que lhe arranjaram e agora que está recuperado da tóxico-dependência, está outro homem. Está, de forma visível para todos os que o conhecem, um novo homem; mas sente-se, ele próprio outro homem, porque recuperou a dignidade que circunstâncias da vida lhe tinham retirado, e por isso, readquiriu alegria de viver ao sentir que ainda é GENTE, porque este novo homem é também e sobretudo ainda jovem para perder a esperança…
Jesus ‘chegou’ mais cedo este ano. Houve ‘Natal’ verdadeiramente na vida do Carlos e na nossa Comunidade, porque temos todos que estar felizes pela oportunidade de vida que parecia perdida, mas se reencontrou, às portas do Natal, celebração do nascimento de Cristo Salvador, de 2007. Por isso, quando se diz que “Natal é quando um homem quiser”, pode parecer o tal “chavão”, mas não é, porque é só olhar bem à nossa volta, em todas as épocas do ano, para se perceber que pode ser mesmo quando cada um quiser.

Marina Sequeira
in "A Voz de Leça", Ano LIV - Número 9 - Dezembro de 2007

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

A Nova Igreja da Santíssima Trindade

No âmbito da Peregrinação Internacional de Outubro deste ano, no dia 12 do mesmo mês, foi inaugurada a nova Igreja da Santíssima Trindade, em Fátima, por Sua Eminência o Senhor Cardeal Tarcisio Bertone, Secretário de Estado do Vaticano, e Legado Pontifício para esta celebração, onde também estiveram presentes o Sr. Presidente da República e o Sr. Primeiro Ministro. O momento alto da celebração deu-se com a entrada da imagem de Nossa Senhora na nova basílica, vinda da Capelinha das Aparições. A porta principal foi oficialmente aberta pelo Sr. Bispo de Leiria-Fátima, D. António Marto.
A construção da nova igreja de Fátima, que é também o maior recinto público fechado do país, custou cerca de 80 milhões de Euros, pagos literalmente pelos donativos que os peregrinos foram deixando no Santuário ao longo do tempo.
De forma circular e com 125 metros de diâmetro, é sustentada por um enorme pilar que suporta toda a cobertura, o que evita a existência de colunas n o interior do templo. O mentor deste grande projecto arquitectónico foi o arquitecto grego Alexandre Tombazis, que procurou combinar a luz e a tecnologia, respeitando a atmosfera de Fátima.
A iluminação interior é feita através do tecto da igreja, por janelas voltadas para norte, o que permite que haja luz natural durante o dia. Também é possível, através de um sistema computadorizado, mudar a iluminação em diversos lugares e com diferentes intensidades. Este gigantesco projecto inclui um enorme espelho de água nas duas escadarias centrais paralelas à entrada. Tombazis admite que a existência deste espelho transmite ás pessoas calma e serenidade.
A porta principal da nova igreja á consagrada a Cristo, a as doze portas laterais aos Apóstolos.
Com o volume de quase 130 mil metros cúbicos e uma altura média de 15 metros, esta nova igreja tem capacidade para nove mil fieis sentados, com lugares para deficientes, existindo ainda a possibilidade de separar o espaço com uma divisória com cerca de dois metros para assembleias mais pequenas, até três mil lugares. Com estas características, a Igreja da Santíssima Trindade é a melhor do país e uma das melhores e maiores a nível mundial. Trabalharam na sua construção cerca de três mil e trezentas pessoas, que em jeito de homenagem verão em breve os seus nomes gravados num monumento que irá ser colocado no interior da igreja.
Agora uma das grandes prioridades é a segurança e a manutenção do espaço. Para tal o Santuário teve de contratar 20 novos funcionários e procedeu ao reforço da segurança devido ao valor das obras de arte existentes no interior. Também no interior existem três capelas da Reconciliação, que podem servir igualmente para outras celebrações. Esta chamada “Zona da Reconciliação” é constituída por uma área para os peregrinos portugueses, com salão para seiscentos lugares sentados e trinta e dois confessionários, e outra área para peregrinos estrangeiros, com duas capelas de cento e vinte lugares sentados, cada uma, e também com trinta e dois confessionários.
Para substituir a antiga foi igualmente erguida uma nova Cruz Alta junto à Igreja da Santíssima Trindade. A inauguração da nova Cruz decorreu no passado dia 29 de Agosto, dia em que se celebra o martírio de S. João Baptista, o Precursor de Jesus Cristo. A cruz teve de ser dividida em peças, dada a sua grande dimensão. Esta nova Cruz Alta é da autoria do artista alemão Robert Schad, que ganhou um concurso instituído para a iconografia da Igreja da Santíssima Trindade. Em aço corten, a cruz tem trinta e quatro metros de altura e outros dezassete de largura, ao nível dos braços. Substitui assim a antiga cruz, que frequentemente servia de ponto de encontro de muitos peregrinos.
A encerrar a cerimónia da inauguração da Igreja da Santíssima Trindade, D. António Marto, Bispo de Leiria-Fátima, leu o poema que Shopia de Mello Breyner escreveu na Páscoa de 1990, “A CASA DE DEUS”.

João Teixeira
in "A Voz de Leça" - Ano LIV - Número 8 - Novembro de 2007

O Grande Naufrágio

Assinalando 60 anos passados sobre a trágica madrugada de 1 para 2 de Dezembro de 1947 vai a Câmara Municipal de Matosinhos e a Junta de Freguesia proceder ao lançamento de um livro, na Capela de Santo Amaro, da autoria do Prof. A. Cunha e Silva e de Belmiro Galego, no próximo dia 2 de Dezembro pelas 10horas da manhã. Este livro é o fruto de uma aturada investigação de um Leceiro e de um Matosinhense, dedicados à sua terra, à sua gente e ao seu património; que percorrendo várias bibliotecas e inúmeros jornais e revistas coligiram e dão a conhecer, os relatos feitos na época dessa medonha madrugada em que o mar tão repentinamente se levantou e levou 152 pescadores, que no regresso da sua faina já não chegaram ao seio dos seus familiares que, como de costume, os esperavam na praia. Foi na realidade uma negra e sinistra madrugada essa a de 2 de Dezembro de 1947, em que naufragaram entre Aguda e Leixões quatro traineiras: a “D. Manuel”, a “S. Salvador”, a “Maria Miguel” e a “Rosa Faustino”, tendo perecido 152 homens sem a menor hipótese de que alguém lhes valesse.
As traineiras da praça de Matosinhos haviam saído para o mar, como habitualmente, às dezenas, apesar de haver vários prenúncios de temporal, pois para os pescadores o espectro da fome sempre se sobrepôs ao medo e sempre fez com que esses valentes e ousados lobos do mar galgassem as ondas saindo a barra, para quantas vezes não mais voltarem!
Há casos fantásticos, como o daqueles três homens que no reboliço da traineira “D. Manuel”, com o espectro da morte à sua frente, foram arrojados à praia do Cabedelo, procurando ajuda numa das pobres casas aí existentes; ou aqueles dois outros que depois de terem sido roubados de bordo com outros dois camaradas, foram de novo lançados para dentro da traineira, e um dos que o mar não devolveu, mantendo-se agarrado a uma tábua, teve a sorte de por ele passar uma traineira que lhe lançou uma bóia, a qual enfiando-se-lhe milagrosamente pela cabeça, o salvou, ou ainda aquele outro que a bordo da traineira “Rosa Faustino”, passando com terra à vista, se lançou ao mar nadando até à exaustão sendo recolhido das ondas, salvando-se com outros dois arrojados à praia pelo mar!
Deste modo, de quatro companhas das quatro traineiras afundadas, apenas se salvaram seis camaradas em tão horrorosa tragédia marítima que enlutou não só a costa nortenha mas praticamente toda, de norte a sul, não havendo memória de catástrofe maior, a qual, para além daqueles que levou, deixou também muitas viúvas e órfãos mergulhados na dor e na desolação.
O livro “O Naufrágio de 1947” será assim um elevado preito de homenagem da Câmara Municipal, da Junta de Freguesia, dos autores, mas não só, pois será também o reconhecimento por todos aqueles que assistirem ao lançamento, que recordarão muitos daqueles que se sacrificaram pela elevação e desenvolvimento desta nobre cidade de Matosinhos – Leça.
Portanto, vamos todos ao lançamento do livro!

… E “AS MULHERES DO MAR… MÃOS DE SAL”

Num dia com tanto significado para a classe piscatória da nossa cidade, como é o de 2 de Dezembro de 2007, pois faz 60 anos que nessa trágica madrugada pereceram no mar sob violento vendaval 152 pescadores; será efectuado o lançamento do livro “MULHERES DO MAR…MÃOS DE SAL” da autoria de Delfim Caetano Nora, um Matosinhense que envergou com grande sucesso a camisola do Leça F.C., nas instalações da Associação dos Pescadores Aposentados de Matosinhos (Casa dos Pescadores) pelas 15.00 horas.
Serão homenageados os Homens e as Mulheres do Mar, principalmente estas, na nossa sociedade sempre esquecidas ou relegadas para plano secundário, contudo entre a classe piscatória com grande influência e um papel fundamental.
A mulher do pescador, ou mulher do mar, era uma verdadeira mãe-coragem, pois criava uma ranchada de filhos, era expedita e despachada nos negócios, no governo de casa e da família.
Foi sempre uso e costume do pescador que “a mulher quer-se em terra e o homem no mar”. Daí que mal o barco aproava na praia a mulher tratava de todo o trabalho para além da pesca, descarregava o peixe, encaixotava e transportava-o à lota, vendia-o e por fim dividia os ganhos em partes ou quinhões, dando algum ao seu “home” para extraordinários, para uma “pinga” ou para o “fumo”.
Também fazia parte da sua vida lavar e consertar as redes, trazer as cestas e as roupas da “polé”.
Quando o pescador desejava vestir-se ou calçar-se, ia com a mulher a uma loja comprar pano para um fato, e a mulher acompanhava-o ou até ia só. De qualquer das maneiras era ela quem escolhia e ele aceitava pois se era do agrado dela também era do dele.
Quando era necessário ir a qualquer repartição pública, era a mulher quem expunha as pretensões e razões do marido. Era também a mulher que levava o marido ao médico quando estava doente, e desfiava o rosário de achaques do seu homem.
A mulher do pescador, rude e forte, era muito irrequieta e sempre desbragada na linguagem, e com toda a facilidade provocava conflitos e até chegava a vias de facto.
Contudo, verificamos que ao longo do tempo sempre tiveram um papel fundamental na vida do casal apesar de uma vida muito dura, pelo que aqui queremos deixar bem marcado que é mais do que justa a homenagem que o NAPESMAT lhes vai prestar com o lançamento do livro “… AS MULHERES DO MAR… MÃOS DE SAL”

Eng.º Rocha dos Santos

in "A Voz de Leça" - Ano LIV - Número 8 - Novembro de 2007

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Centro de Dia do Monte Espinho

Foi inaugurado no passado dia 16 de Setembro o Centro de Dia do Monte Espinho, integrado no Complexo de Habitação Social, com o mesmo nome, situado na zona norte da Freguesia de Leça da Palmeira.
Este Centro de Dia, com capacidade para acolher 90 pessoas, inclui ainda as valências de Centro de Convívio e Serviço de Apoio Domiciliário.Este espaço foi construído juntamente com as habitações sociais e foi cedido à Associação de Amigos da Terceira Idade (ATI) que terá a responsabilidade da sua Gestão.
De salientar ainda que complementarmente à cedência do espaço a Câmara de Matosinhos subsidiou a instituição com cerca de 60 mil euros para comparticipar na aquisição de equipamento para as novas instalações e de uma viatura de nove lugares para transporte de utentes e funcionários do Serviço de Apoio Domiciliário.
A ATI celebrou ainda um protocolo com o Centro Distrital de Segurança Social do Porto, para obter apoio nas despesas de funcionamento do Centro de Dia do Monte Espinho.
Para além da presença de representantes da autarquia, da ATI, da Junta de Freguesia, de diversas entidades e de muitos utentes a inauguração contou ainda com a presença do Presidente da Câmara, Dr. Guilherme Pinto e do nosso Pároco, Padre Fernando Lemos, que procedeu à bênção da referida carrinha assim como das novas instalações.
No final da cerimónia de inauguração actuou o coro da ATI ao qual se seguiu um alegre convívio, assinalando-se assim a abertura de mais este importante serviço de apoio aos mais idosos de Leça da Palmeira.

AG
in "A Voz de Leça" - Ano LIV - Número 7 - Outubro de 2007

Festas de S. Miguel Arcanjo 2007

Como já vem sendo hábito, decorreram durante o mês de Setembro as Festas em Honra de S. Miguel Arcanjo (ou S. Miguel de Moroça, como muitos ainda o gostam de chamar), organizadas pela Confraria de S. Miguel e que tiveram o seu ponto alto no dia 30, com a magnífica Procissão em honra do nosso Santo Padroeiro. As festividades tiveram início no dia 8 de Setembro com uma noite de fados, onde alguns fadistas da nossa praça souberam corresponder ao apelo feito pela Confraria de S. Miguel e emprestaram as suas vozes para a angariação de fundos para a organização da Procissão, numa noite em que estiveram presentes no Salão Paroquial cerca de 200 pessoas. Actuaram os fadistas Anita Faria, Nelson Duarte, Maurício Campelo e Emília Dinis, acompanhados à guitarra por Acácio Gomes e à viola por António Reis.
O programa das Festas continuou no dia 22 com a actuação da Banda Nova Onda, sobejamente conhecida das gentes de Leça que mais uma vez e a título gratuito procurou ajudar através da sua música e da sua juventude a Confraria responsável pelas festividades. Pena foi que o espectáculo preparado pela banda tivesse sido ensombrado por uma arreliadora quebra de corrente que impossibilitou a ligação de luzes e efeitos especiais preparados para o efeito. Ficou a intenção e o trabalho meritório realizado por todos. Num adro bastante bem composto, apesar da noite relativamente fria, foi com agrado que se assistiu a um excelente desempenho desta banda Leceira, que mais uma vez demonstrou a todos que a qualidade afinal também mora aqui em Leça da Palmeira. No dia 28 de Setembro, foi a vez do Trio Ex-Libris, também já habituado a estas festividades, numa actuação pautada pela sobriedade, demonstrando a sua qualidade e levando o público a contínua animação.
Sábado foi o dia naturalmente consagrado a S. Miguel, com a Missa Solene, presidida pelo Rev. Padre Fernando Cardoso Lemos e que contou com a participação de todos os Grupos Paroquiais e brilhantemente animada pelo Coro Milium e pelo Coro da Capela do Monte de Espinho, que se juntaram para assim dar mais alegria a esta celebração em Honra do Santo Padroeiro de Leça da Palmeira.
À noite teve lugar no Salão Paroquial, em virtude do mau tempo, o Festival de Folclore, com a participação do Rancho Típico da Amorosa – Leça da Palmeira, Rancho Folclórico de Mira Serra e Loções – Alcobaça, Grupo de Danças e Cantares de S. Tiago de Bougado – Trofa e ainda o Grupo Regional de Moreira da Maia – Maia.
No Domingo e culminando as Festividades, saiu à rua a tradicional Procissão em Honra de S. Miguel Arcanjo, que apesar da aparição ténue de um sol que esteve sempre “na caixa”, e de um céu ameaçando chuva foi possível mais uma vez que o Cortejo Religioso saísse à rua com a pompa e a circunstância que se lhe reconhece. A Procissão composta por onze andores de onde se destacam as ornamentações com flores de tecido, elaboradas pelas mãos sábias da Rosarinho e da D. Ascensão, cuja dedicação e múltiplos talentos nunca é demais lembrar, trabalham arduamente para que tudo esteja pronto a tempo e horas. A procissão efectuou o seu percurso habitual destacando-se naturalmente a sua passagem pela zona da Amorosa, antigamente designada por Moroça e de onde merecem uma referência especial os magníficos tapetes de flores que os habitantes dessa zona da Freguesia, generosamente prepararam para esta Solenidade. Assistiram à passagem do Cortejo Religioso centenas de pessoas provenientes de vários pontos do Concelho e não só, o que demonstra inequivocamente a importância de tão grandiosa Procissão. Os andores foram transportados pelos Grupos, de acordo com a ordem de saída da Igreja: S. Marçal – Bombeiros Voluntários de Matosinhos-Leça, S. João Bosco – Grupo Paroquial de Teatro, S. Clemente das Penhas (Capela da Boa Nova) – Antigos Acólitos, Santa Catarina (Capela de Santa Catarina) – Associação de Acólitos, S. Francisco (Capela da Quinta da Conceição) – Irmandade de Nossa Senhora de Fátima da Igreja Matriz, S. Pedro Gonçalves Telmo (Capela do Corpo Santo) – Confraria das Almas, Sant’Ana (Capela de Sant’Ana) – Rancho Típico da Amorosa, Senhora da Piedade (Capela da Senhora da Piedade) – Real Confraria do Senhor dos Passos e Nossa Senhora da Soledade, Nossa Senhora de Fátima (Capela do Monte Espinho) – Irmandade de Nossa Senhora de Fátima do Monte Espinho, Sagrado Coração de Jesus – Confraria do Santíssimo Sacramento, S. Miguel Arcanjo (Igreja Matriz) – Confraria de S. Miguel. A Procissão foi ainda abrilhantada pela Fanfarra dos Bombeiros Voluntários Matosinhos-Leça e pela Banda 1º Agosto de Coimbrões – Gaia. Mais uma vez, a Confraria de S. Miguel esteve ao seu melhor nível ao levar a cabo esta Procissão, cuidando de tudo com muito empenho e até ao mais ínfimo pormenor, colocando na rua a maior Procissão do Concelho de Matosinhos. Bem hajam.

José Eduardo Sousa
in "A Voz de Leça" - Ano LIV - Número 7 - Outubro de 2007

domingo, 30 de setembro de 2007

Festarte 2007 - Provavelmente o Melhor Festarte de Sempre

Tal como em anos anteriores, decorreu entre os dias 27 de Julho e 5 de Agosto o Festival Internacional de Artes e Tradição Populares de Matosinhos, vulgarmente conhecido por FESTARTE. Ao longo de 10 dias foi possível apreciarmos a beleza dos trajes, as danças, a música, o artesanato e gastronomia da Espanha, Equador, Eslováquia, Argentina, México, Roménia e Suíça. O FESTARTE teve início, como é habitual, com o hastear das bandeiras dos países e hinos nacionais na sexta-feira dia 27, no adro da Igreja Matriz. Ali houve oportunidade para vermos de perto e pela primeira vez os Grupos que nos visitaram. À noite, também como é habitual, realizou-se a Gala de Abertura na Praça da Cidadania em S. Mamede Infesta. Sábado de manhã foi o dia dedicado ao Encontro Internacional de Etnografia e Folclore, no Auditório Infante D. Henrique, na APDL, onde foi possível perceber com detalhe as tradições e os costumes destes países através de pequenas alocuções proferidas pelos responsáveis dos grupos. Sábado foi também o dia em que abriu a Feira de Artesanato (ver caixa). Domingo foi, naturalmente, o dia grande do FESTARTE. O dia começou bem cedo para todos, com a participação na Eucaristia, onde sobretudo se pôde apreciar o Ecumenismo entre religiões e mais uma vez se ouviu a música e o canto de todos os países participantes. De tarde, houve o já habitual desfile pela Avenida Dr. Fernando Aroso, que terminou no adro da Igreja Matriz. Foi a oportunidade para mais uma vez apreciarmos a alegria e a dança, mas sobretudo a boa disposição de todos os Grupos participantes, apesar do intenso calor que se fez sentir. Os Grupos foram ainda recebidos no Salão Nobre da Junta de Freguesia pelo Presidente da Autarquia Leceira, Dr. Pedro Tabuada. Seguiu-se o XX Festival Internacional de Folclore de Leça da Palmeira, no Parque Eng. Fernando Pinto de Oliveira, que contou naturalmente com os Grupos estrangeiros e ainda com o Rancho Folclórico “Os Pastores de S. Romão” – Seia, Rancho Folclórico da Casa do Povo de Lanheses – Viana do Castelo e Rancho Típico de Santa Maria da Reguenga – Santo Tirso, para além, é claro, dos Grupos organizadores do FESTARTE, o Rancho Típico da Amorosa – Leça da Palmeira e o Rancho Típico de S. Mamede Infesta. À noite teve lugar o já tradicional Baile Folk na Escola EB 23 de Leça da Palmeira. Na segunda-feira, dia 30, o FESTARTE deslocou-se ao Salão Nobre da Câmara Municipal de Matosinhos, para a Recepção Oficial do FESTARTE, onde estiveram presentes todas as forças vivas do Concelho e o onde o Presidente da Câmara apresentou cumprimentos e enalteceu o espírito do evento, enriquecido pelo intercâmbio cultural. Terça-feira, como já vem sendo hábito, foi o dia livre, durante o qual os Grupos puderam desfrutar de algum descanso merecido. Quarta-feira foi outro dia em cheio na programação do FESTARTE, com a Gala para a Terceira Idade, realizada no Auditório Mário Rodrigues Pereira em Lavra e à noite com os recitais de música tradicional nas Igrejas de Leça da Palmeira, Santa Cruz do Bispo e Guifões (ver caixa). Na quinta-feira deu-se inicio ao Festival Internacional de Gastronomia, com a participação de alguns restaurantes de Leça e Matosinhos a contribuírem com o seu espaço para os Grupos poderem confeccionar as suas iguarias podendo a população apreciar os gostos e os sabores dos países representados no FESTARTE. O Festival de Gastronomia continuou na sexta-feira. Sábado foi o dia consagrado às famílias, quando a população pôde receber em suas casas elementos dos Grupos que nos visitaram, para um almoço que, com certeza, marcou para sempre todos aqueles que se quiseram associar a esta iniciativa. Ainda no Sábado, realizou-se o Festival Internacional de Folclore em S. Mamede Infesta, terminando o FESTARTE no Domingo com o Festival Internacional de Folclore de Matosinhos no Parque Basílio Teles e com o Baile Folk de Encerramento na Escola EB 23, onde os Grupos se despediram das gentes de Leça que tão bem os souberam receber, ficando a promessa de um dia voltarem.

OS GRUPOS PARTICIPANTES

Agrupacíon Folklórica Princesa Iraya – Santa Cruz de Tenerife – Canárias – Espanha

Da província de Santa Cruz de Tenerife veio até nós a Agrupacíon Folklórica Princesa Iraya. A sua fundação data de Novembro de 1982, tendo como mentor Eusébio Benedito Cabrera, cujo objectivo foi reunir os jovens do seu bairro, dando-lhes a conhecer as tradições e costumes da sua ilha. Tem participações, dignas de registo, em vários festivais internacionais, sendo que esta foi a segunda vez que actuou em Portugal. Desde 1997 que o Princesa de Iraya mantém uma escola de folclore formada por pessoas de todas as idades, cujo objectivo é o de aprofundar as tradições locais. É através desta cantera, que o grupo assegura o seu futuro. O peixe ocupa um lugar importante na gastronomia das Ilhas Canárias, com particular destaque para “la morena” frita. O artesanato mediterrânico é sempre uma caixinha de surpresas.

Grupo de Danzas Tradicionales Ecuatorianas – Equador

Da cidade de Ibarra chegou-nos o Grupo de Danzas Tradicionales Ecuatorianas, da Universidade Técnica do Norte. Consciente da vastíssima cultura nacional, a Universidade Técnica do Norte apoia incondicionalmente o Grupo de Danzas Tradicionales Ecuatorianas que tenta espelhar o mais fielmente possível, o folclore do seu povo. Como o folclore representa muito mais do que as danças e os cantares, este grupo trouxe ao Festarte verdadeiras obras artesanais, que foram muito apreciadas ou adquiridas na feira de artesanato. A sua gastronomia é composta por uma grande variedade de espécies de milho, com as quais fazem diversos tipos de farinhas e massas, utilizando-os também para fazer uma bebida chamada “chicha”, que era consumida em grandes quantidades.

The Folk Ensemble Busuiocul – Bacau – Roménia

A Roménia apresentou no Festarte 2007, o The Folk Ensemble Busuiocul, fundado em 1973. A paixão e o talento dos elementos que compõem este grupo, faz com que o Busuiocul seja uma referência do folclore local. Interpretando o folclore de várias regiões da Roménia, este grupo, tem no seu corpo de dança, uma forte componente na qualidade dos espectáculos que apresenta. A sonoridade deste grupo é apoiada por um grupo de instrumentistas verdadeiramente extraordinários, que são uma mais valia nos concertos apresentados. Trouxeram também ao Festarte a sua riquíssima gastronomia e o seu não menos surpreendente artesanato.

Folklórny Súbor Partizán Biotica – Eslovaquia

Da cidade de Banská Bystrica chegou-nos o Grupo Folklórny Súbor Partizán Biotica, fundado em 1958, e que desde então se tem preocupado com a recreação das tradições da sua cidade. O canto e a dança deste grupo são harmonizados com instrumentos tradicionais da região a que pertencem. Trouxeram também o seu artesanato e a sua gastronomia, oportunidade para provarmos o “Bryndzove halusky”, iguaria composta de queijo fresco frito, acompanhado com bacon.

Ballet “Alpazuma” – Monte Buey – Argentina

País dividido em várias regiões, o Ballet “Alpazuma”, termo indígena, que traduzido significa terra linda, chega-nos de Monte Buey, Província de Córdoba. A partir de 1992, um grupo de jovens bailarinos que se encontravam esporadicamente para dançarem, conscientes do trabalho que desenvolviam, resolveram dar “corpo” ao seu trabalho, e assim nasceu o Ballet “Alpazuma”. Reconhecido oficialmente pelo Governo Municipal de Monte Buey, na província de Córdoba/Argentina, o Ballet “Alpazuma” tem, nas suas escolas de dança, o futuro desta tradição do país das pampas. Trouxeram ao Festarte a sua riquíssima gastronomia e o seu não menos peculiar artesanato.

Conjunto Folclórico Magisterial – México

O Conjunto Folclórico Magisterial chegou-nos da capital deste país, tendo como data da sua primeira aparição pública o ano de 1963. A sua presença nos mais importantes festivais mundiais faz deste grupo um dos maiores embaixadores culturais, aonde o Magisterial leva o “coração” do povo mexicano. A magia dos sons, únicos como são os dos Mariachis, e a sua gastronomia, recomendada para paladares mais picantes, completaram a lista de motivos para uma participação que foi muito apreciada.

The Folk – Dance Group “La Farandole Courtepin” – Friburg – Suisse

Pela primeira vez presente no Festarte, a Suíça trouxe-nos até Leça da Palmeira, a sua embaixada cultural através do “La Farandole Courtepin” de Friburg. O Groupe Folklorique “La Farandole Courtepin” nasceu no Cantão de Friburg, em 1938, com o objectivo de dar a conhecer os costumes do seu Cantão, participou em várias manifestações culturais na sua região, e participa com muita regularidade em festivais internacionais de folclore, fora do seu país. A sonoridade deste grupo está ainda por descobrir, mas destacamos os instrumentos de sopro, que compõem a sua pequena orquestra de dez músicos. Foi uma oportunidade única para apreciarmos também a sua gastronomia, bem como o seu artesanato.


RECITAIS DE MÚSICA TRADICIONAL

Foi numa Igreja Matriz repleta de público que os Grupos da Roménia, Argentina, Espanha e Equador, demonstraram inequivocamente todos os seus conhecimentos de música e canto. O recital de Leça da Palmeira abriu com a participação do Grupo da Roménia que exibiu todo o seu virtuosismo, especialmente a interpretação soberba do violinista de serviço que deu um autêntico recital de bem tocar. Seguiu-se o Grupo da Argentina que com a sonoridade que lhe é peculiar interpretou a típica música do País das Pampas, com destaque para o Tango. De salientar as excelentes interpretações de Guitarra Clássica, Piano e Sanfona executadas por artistas de excelente qualidade. O Grupo da Espanha foi o “senhor” que se seguiu, animando e de que maneira todo o público presente na Igreja Matriz com os seus cânticos e com a sua música, assemelhando-se muito à música interpretada por tunas académicas, em função dos instrumentos utilizados. Saliente-se no Grupo da Espanha a grande qualidade vocal dos seus intérpretes. Por último, vindo do recital de Santa Cruz do Bispo, esteve o Grupo do Equador que com as suas tradicionais flautas de pan fechou em grande uma noite espectacular, riquíssima de tradições, de música e sonoridade únicas. Para terminar e em jeito de rodapé, de salientar o esforço da Equipa da Paróquia responsável pelo recital, que colocou à disposição dos Grupos todas as condições necessárias para um grande espectáculo, nomeadamente ao nível da qualidade de som, gentilmente cedido pela Banda Ex-Libris.

FEIRA DE ARTESANATO – ANIMAÇÃO E ALEGRIA.

A Feira de Artesanato teve início no sábado, dia 28 de Julho, e terminou na sexta-feira seguinte, dia 3 de Agosto. Durante todos estes dias foi possível assistirmos a diversas iniciativas culturais, com destaque para a animação nocturna, com os Grupos a interpretar as suas músicas e as suas danças e onde se pôde assistir todos os dias a um adro repleto de público entusiasta que soube sempre dizer presente a todas as manifestações culturais realizadas. No Domingo a animação da feira esteve a cargo do Grupo Paroquial de Teatro, que pelo segundo ano consecutivo mostrou e bem aquilo que sabe fazer, nomeadamente com os elementos mais novos do Grupo. Notou-se, de facto, uma preparação cuidada do espectáculo apresentado com a montagem da logística necessária a ser realizada durante todo o dia de Sábado, denotando a particular importância que o espectáculo teve para o Grupo. Na segunda-feira, dia 30, tivemos a presença do Grupo da Argentina que interpretou e deslumbrou todos os presentes com a sua música, o seu canto e as suas danças. Sem querer ser parcial, foi o Grupo que melhor apresentou a mais cuidada interpretação musical em toda a Feira. Extremamente seguros da sua música, pautaram a sua actuação pela sobriedade, cativando o vasto público presente, ao ponto de eles próprios se mostrarem surpreendidos com a sua interpretação. Foi possível ver a satisfação do Grupo no final, pela actuação muito bem conseguida. Na terça-feira, dia livre no programa, a animação da Feira esteve a cargo do Rancho Típico da Amorosa, que com a sua alegria e os seus cantares colocou o público presente a dançar e a cantar. Na quinta-feira tivemos a agradável presença de três Grupos. A animação começou com o Grupo do Equador que aqueceu a noite com a sua música alegre e tradicional. Algumas das músicas, conhecidas do público português, foram aproveitadas pelo grupo para colocarem os “Leceiros” a cantar e a dançar com eles. Seguiu-se o Grupo da Eslováquia, que naturalmente com sonoridades diferentes soube de igual modo atrair a atenção de todos. De salientar o virtuosismo dos seus executantes, nomeadamente do intérprete do Cimbal e dos Violinistas. Fechou a noite o Grupo da Espanha que, tal como no dia anterior, no recital da Igreja, cativou todos os presentes, convidando-os entusiasticamente a dançar com eles. A noite prolongou-se mais do que o esperado, por força dos três Grupos presentes, mas também porque o Grupo da Espanha foi capaz de prender o público com a sua música. No último dia, a presença do grupo do México fechou com chave de ouro a Feira de Artesanato. Notou-se que o espectáculo foi previamente preparado com coreografias únicas e onde foi possível observar a vasta cultura mexicana. Terminaram a actuação com os tradicionais Mariachis ao som de “Cielito Lindo” cantada por todos os presentes. Simplesmente espectacular!

NOTA FINAL

Poderia dizer...Terminou o FESTARTE 2007, venha o FESTARTE 2008. Mas tenho de terminar a minha reportagem dizendo: “Terminou o FESTARTE 2007, venha outro igual que este deixou muitas saudades!”
Foi uma organização sem mácula. Talvez por também já é o décimo FESTARTE, mas de facto foi o melhor de sempre: sem atrasos significativos nos horários previstos, sem confusões de última hora. Sobretudo deixa saudades pela simpatia dos participantes. Há muito que não se via tanta entrega, tanto rigor e sobretudo tanta vontade de estar presente. Ao contrário de anos anteriores, a Feira de Artesanato abriu sempre a horas e com todos os artesãos presentes, especialmente os estrangeiros. Deixa saudades, sim, ao ponto do artesão da Argentina chorar na despedida abraçado aos elementos da Organização da Feira, e com a voz embargada dizer que vai com amigos no coração. Esta amizade cultivada ao longo de uma semana de trabalho é muito reconfortante para todos os que se esforçaram, se entregaram e viveram de alma e coração o FESTARTE. Dizemos sempre que é o último que fazemos, mas não é possível deixarmos de estar cá para o ano. Por último, uma palavra para todos os artesãos nacionais presentes, pela compreensão demonstrada e pela disponibilidade.
















Aqui merece referência especial a “Tasquinha LÁ DE CIMA” (que é como quem diz “lá de cima” do Monte Espinho…), porque foi, de facto, a grande novidade este ano. Souberam aos poucos cativar clientela, numa “tasquinha” que cresceu com o passar da semana e que no último dia já ocupava quase metade do espaço da Feira. Contamos com eles para o ano, com a mesma alegria e a mesma disponibilidade e sem querer ser “bairrista”, porque até nem o sou, só posso dizer...tinha de ser o Monte Espinho. Bem hajam e que o objectivo a que se propuseram ao participarem na Feira de Artesanato tenha sido alcançado.

O MEU LAMENTO

Como já foi referido, a organização do FESTARTE esteve irrepreensível. Por esse facto o meu lamento vai em outra direcção. Tem a ver, naturalmente, com a Feira de Artesanato e a dificuldade por todos nós sentida na sua realização. Não basta dizer que temos uma Feira de Artesanato, é necessário criarmos as melhores condições para os artesãos. Ano após ano, lamentamos que o apoio (ou melhor a falta dele), que nos é dado seja mínimo por parte dos Órgãos de poder local, nomeadamente da Junta de Freguesia e da Câmara Municipal. Para quando um apoio efectivo, principalmente naquilo que diz respeito às “barracas” dos artesãos?
Não chega trazer meia dúzia de placas de aglomerado e com outra meia dúzia de pregos dizer-se que temos Feira de Artesanato. A cobertura das mesmas e a iluminação são a nosso cargo. Mas pior do que isso tudo é o de termos que “desmontar” e “montar” a Feira todos os dias. E porquê? Porque as “barracas” não são fechadas. Porque se continua a achar que esta Feira de Artesanato, a nossa Feira de Artesanato, não merece ter umas “barracas” fechadas, seguras e com um mínimo de conforto para os artesãos. Este ano já houve algumas desistências, precisamente porque em nenhuma outra Feira de Artesanato se faz isto. É incompreensível como após um dia de trabalho, ainda se tem que tirar tudo das “barracas”, empacotar e guardar numa sala fechada. Para quando umas “barracas” novas, fechadas e seguras? Será pedir muito? Aqui fica o recado para quem de direito. Espero que desta vez não caiam em “saco roto”. O meu segundo lamento vai, infelizmente, para a pobreza das Festas de Sant’ana. Se é que se pode chamar Festas a meia dúzia de Feirantes que lá vão trazendo alguma cor e alegria às Festas. Ainda pior é mesmo o programa das Festas. Sem querer tirar o mérito aos músicos que passaram pelo palco montado no Parque Eng. Fernando Pinto Oliveira, porque nem sequer questiono a qualidade dos mesmos, assisto decepcionado à expressão triste e desolada de quem na noite de Sábado saiu de suas casas para assistir a um pouco de música de baile e acaba por assistir a uma banda que independentemente da sua qualidade, que friso mais uma vez não está em causa, não se adequa minimamente ao público Leceiro. Está na altura dos responsáveis pela Autarquia Leceira pensarem a sério no programa das Festas, com bandas que animem de facto a população. E há tantas bandas em Leça capaz de o fazer. Afinal não são só as Festas de Sant’ana, são as Festas de Leça da Palmeira.

José Eduardo Sousa
in "A Voz de Leça" - Ano LIV - Número 6 - Setembro de 2007






quarta-feira, 28 de fevereiro de 2007

Leigos para o Desenvolvimento

Quando no passado mês de Março, assisti num dos canais nacionais, a uma reportagem sobre os Leigos para o Desenvolvimento, estaria longe de imaginar as dificuldades e sobretudo o drama que se vive no chamado “Continente Negro”. África é por excelência o continente onde missionários e leigos tentam, num esforço sub-humano, fazer mais do que o próprio governo do país. A reportagem exibida demonstrou o trabalho missionário em Moçambique, na missão de Fonte Boa, onde no dia 6 de Novembro de 2006, após um assalto à referida missão, foram brutalmente assassinados, uma voluntária e um Padre Jesuíta. Tal como a reportagem mencionou, foi uma morte violenta, absurda e arbitrária, originando a suspensão da ajuda que os Leigos para Desenvolvimento aí prestavam. Posto isto, uma interrogação se nos coloca. O que leva alguém a assaltar uma missão, que procura a cada momento, ajudar aqueles que mais precisam? Mesmo sendo uma luta armada pelo poder, nada, absolutamente nada, justifica um tal acto de violência, sobretudo se pensarmos que a missão de Fonte Boa dedica-se ao auxilio de crianças.
Dia 6 de Novembro de 2006, pelas 1.30 da madrugada (hora local) foi assaltada por um grupo armado a Missão de Fonte Boa, em Moçambique. Durante o assalto foram mortos a Idalina, voluntária dos Leigos para o Desenvolvimento e o P. Waldyr dos Santos, jesuíta brasileiro. Ficaram também feridos um jesuíta moçambicano, Ir. José Andrade, de 76 anos e o Fernando Carvalho (ex-Leigo). A Idalina, com 30 anos, encontrava-se desde Outubro de 2005 em Fonte Boa, dando apoio à missão, em projectos da área agrícola, pecuária e construção de lar para órfãos de Sida.
In
www.ecclesia.pt/leigos

Mas afinal quem são os Leigos para o Desenvolvimento? Quantos são e o que fazem? A resposta a esta e outra perguntas que procurarei dar ao longo das minhas parcas palavras.
Quem são?

Os Leigos para o Desenvolvimento são uma Organização não Governamental para o Desenvolvimento (ONGD) de cariz católico que, através dos seus voluntários, actua nos chamados países em vias de desenvolvimento, em especial nos de expressão oficial portuguesa. Os voluntários são cristãos leigos que, por um ou mais anos, põem as suas capacidades pessoais e profissionais ao serviço da promoção humana, em África e Timor Leste. Mobilizam-nos os valores da solidariedade e da justiça social, que os levam a tentar responder às necessidades dos mais carenciados. Inspirados pelo espírito evangélico, procuram contribuir com o seu trabalho e presença para a construção de um mundo cada vez mais justo, fraterno e humano.

O que fazem?

Na área da Educação nas sete Missões onde estão presentes, Madre-Deus, Fonte Boa, Cuamba, Lichinga, Benguela, Uíge e Dili, leccionam disciplinas do ensino básico, secundário, pré-universitário e técnico-profissional, a crianças, jovens e adultos. Formam professores e alfabetizam as comunidades onde actuam. Simultaneamente, criam e apoiam infra-estruturas, tais como escolas, bibliotecas, centros infantis e de apoio escolar. Na vertente da saúde publica, através dos voluntários com formação médica e de enfermagem apoiam programas de subnutrição e de vacinação de crianças, centros de saúde e hospitais. Também formam técnicos de saúde, capazes de auxiliar as comunidades a que pertencem, prolongando os benefícios da sua acção muito para além do seu término. Enquanto cristãos, todos os Leigos realizam também actividades pastorais: catequeses, grupos de jovens, organização de retiros e eventualmente apoio aos secretariados diocesanos locais. Na área da promoção social, através do seu trabalho criam infra-estruturas para a comunidade, tais como creches, tanques e canalizações de água. Promovem a agricultura de subsistência e a abertura de lojas comunitárias. Além disso, apoiam grupos menos favorecidos, através da integração familiar de meninos de rua, da criação de cozinhas sociais para idosos e de programas de promoção da mulher.

O que é preciso para se ser um Leigo para o Desenvolvimento?

Para se ser um Leigo para o Desenvolvimento é necessário reunirem-se várias condições. Disponibilidade para entregar gratuitamente um ou mais anos de vida ao serviços dos que mais precisam; abertura de espírito para compreender, viver e trabalhar com povos diferentes e para viver em comunidade; capacidade de viver em verdadeiro espírito de pobreza cristã. Oferecem a possibilidade de ser útil ao outro, através de projectos de cariz humano; todas as condições materiais para desenvolver um trabalho em prol do desenvolvimento; acompanhamento espiritual e material ao longo de todo o caminho, desde a formação até ao regresso de Missão. De forma mais concreta, o voluntário Leigo deve ser:
cristão;
maior de idade (entre os 21 e os 40 anos);
livre de encargos familiares (se for um casal deve haver a concordância de ambos);
deve ter formação académica ou profissional
deve ter tempo para frequentar a formação ministrada pelos Leigos no ano que antecede a selecção e partida em Missão.

A reportagem exibida, foca todos estes aspectos e leva-nos a perceber o quanto nós somos pequeninos. O quanto nós podemos fazer pelos outros. O drama da pobreza, da subnutrição, da fome, das doenças como a malária ou a Sida, de um povo que nada tem e que procura em cada gesto, em cada olhar enternecido de uma criança, um raio de luz que lhe alegre o coração. É chocante a imagem de uma criança subnutrida, de uma mãe que implora um pouco de comida porque não tem como amamentar o seu filho, mas mais chocante ainda é a impavidez e serenidade com que os países mais ricos do mundo olham indiferentes para tudo isto. Mais do que uma ajuda monetária, o que estes povos precisam é de afecto, de alguém que olhe para eles com os olhos de Deus. Porque a eles o que lhes resta é Deus e os Leigos para o Desenvolvimento.




José Eduardo Sousa

in "A Voz de Leça", Ano LIII - Número 11 - Fevereiro de 2007

Abade Mondego - Leça Celebrou 75 Anos do Seu Falecimento

No passado dia 10 de Fevereiro de 2007 comemorou-se o 75º aniversário do falecimento do Abade Mondego. Com organização da equipa deste Jornal, Leça da Palmeira assinalou esta data com a celebração de uma Missa Solene em sua memória, onde estiveram presentes representantes da maioria Grupos Paroquiais.
A Celebração Litúrgica foi presidida pelo nosso Pároco, P.e Fernando Cardoso Lemos, e animada por um Coro constituído por elementos da maioria dos Coros Paroquiais, que sob a direcção da Dra. Ângela Soares, teve um desempenho soberbo.
O texto de orientação desta Celebração Eucarística recordou o homenageado: «Celebramos hoje o 75º aniversário da morte do Padre José Ferreira dos Santos Mondego, mais conhecido como Abade Mondego e que paroquiou Leça da Palmeira durante 27 anos. Do seu apostolado na nossa Paróquia ficou o respeito que conquistou junto dos seus Paroquianos, quer através da sua atitude cívica, quer das suas pesquisas científicas, sendo um exemplo de Força e Virtude no nosso caminhar para Deus.»
Durante a Homilia, o P.e Fernando Lemos, enalteceu a vida e obra deste ilustre Pároco de Leça da Palmeira, salientando que José Ferreira dos Santos Mondego, nascido a 12 de Setembro de 1867, em São Tiago de Cassurrães, concelho de Mangualde, formou-se aos 22 anos, no Seminário de Viseu. A 12 de Outubro de 1903 foi nomeado Pároco de Leça da Palmeira, funções que exerceu até Junho de 1931. Durante 27 anos, a sua figura de um homem alto, de olhos negros, profundos e cintilantes, malares salientes, espessas sobrancelhas, sempre vestindo a sua sobrecasaca negra e um pequeno chapéu mole, marcou a vida desta Comunidade Cristã. Salientou, ainda, o seu envolvimento na vida política e principalmente a sua acção científica, nomeadamente, os primeiros estudos feitos em Portugal sobre polinização artificial realizados nas estufas que possuía nos terrenos do Passal de Leça da Palmeira, a produção de vinhos gasosos a partir de vinhos vulgares, neutralização industrial do azeite, e os vários escritos que realizou sob o pseudónimo de “José de Gomon”.
Importa referir que esteve exposto durante toda a Celebração o único retrato existente na Paróquia do Abade Mondego, pintado pelo Sr. Jorge Bento, que apresentamos na primeira página desta edição d’A Voz de Leça, e que se encontra habitualmente no gabinete da Sacristia, numa espécie de Galeria dos Párocos, ao lado de outros quadros do Padre Pote, do Padre Alcino Vieira e do actual Pároco.

Nesta Eucaristia, a acção do Abade Mondego voltou a ser recordada através dos símbolos que no momento do Ofertório foram transportados, em procissão, por representantes de diferentes Grupos Paroquiais presentes e as mensagens a eles associadas, a saber:
CÍRIO- representa a luz que nos orienta para Deus e que o Abade Mondego manteve bem acesa nesta comunidade iluminando todos os paroquianos no caminho de Deus.
BÍBLIA- recebe Senhor, o nosso louvor pela Palavra que continuamos a anunciar e que ela seja sempre fonte de vida.
FLORES- Estas foram, no início do século XX, o objecto das primeiras investigações científicas do Abade Mondego. Com elas realizou os primeiros estudos sobre polinização artificial. Estas mesmas flores simbolizam a simplicidade, a partilha, a alegria e a amizade que queremos ver crescer na nossa comunidade paroquial
ESPUMANTE- Este vinho espumoso teve origem nos trabalhos de champanização do Abade Mondego que, em meio próprio acelerava a obtenção de vinhos gasosos a partir de vinhos vulgares.
AZEITE- A neutralização industrial do azeite foi um dos últimos trabalhos do Abade Mondego no campo da investigação científica. Que a sua luz ajude a iluminar as nossas vivas em direcção a Deus e, em especial, em direcção aos nossos irmãos que mais precisam do nosso apoio, carinho e amor
CÁLICE E PATENA- o pão e o vinho são fruto da bondade de Deus e do trabalho do homem. Na Eucaristia transformam-se em força divina, alento de vida e união de todos com o Pai.

A actividade literária do Abade Mondego foi igualmente lembrada no momento de Acção de Graças, em que foi cantado o refrão “Mãe de todos nós”, que a Dra. Ângela Soares musicou, tendo a Maria da Ascensão recitado o restante poema.

CORO: Mãe de nós todos, Mãe adorada!
Ó Mãe de Deus, Imaculada!

Ave-maria, fonte do Bem, Imaculada, Virgem e mãe!
Como a ninguém Deus Te fez pura, Virgem e Mãe!
É como o sol o teu olhar, que fez na Terra a luz raiar!
Jóia sem par, fazes nas almas a luz raiar!
Tu nos conduzes com mil carinhos, neste deserto cheio de espinhos!
Manto d’ arminhos p’ra nosso peito cheio d’ espinhos!
Procura a lua entre as mais belas, engrinaldar-se toda d’ estrelas…
Rosas singelas para coroa toda d’ estrelas…
E Tu procuras somente a dor, que é d’ ametistas Teu resplendor!
Dá-nos fervor para ampliar Teu resplendor!
Tu és de todos a doce Mãe!... Dos que a não têm…
Mãe és de quem a nunca viu: dos que a não têm!
É para nós o Teu sorriso o que é p’ ra almas o Paraíso!...
Luz que diviso, és para nós o paraíso!...
A criancinha rica ou pobre, Teu alvo manto a ambas cobre,
O Teu amor a ambas cobre!
D’ amor somente é nosso anseio que nos atrai para Teu seio!
Ó doce enleio que nos atrai para Teu seio!

Esta celebração foi participada por representantes dos vários Grupos Paroquiais, no Coro de Coros, Leituras, Oração dos Fiéis, simbologia da procissão do Ofertório, distribuição da Sagrada Comunhão e momento de Acção de Graças.
Ali esteve a nossa Comunidade Paroquial a prestar sentida homenagem a um seu Pastor, que nenhum dos presentes conheceu pessoalmente mas que nos deve orgulhar pelo que quis ser aqui, em Leça da Palmeira.

J.S.
in "A Voz de Leça" Ano LIII - Número 12 - Fevereiro de 2007