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A Equipa Redactorial

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2007

Abade Mondego - Leça Celebrou 75 Anos do Seu Falecimento

No passado dia 10 de Fevereiro de 2007 comemorou-se o 75º aniversário do falecimento do Abade Mondego. Com organização da equipa deste Jornal, Leça da Palmeira assinalou esta data com a celebração de uma Missa Solene em sua memória, onde estiveram presentes representantes da maioria Grupos Paroquiais.
A Celebração Litúrgica foi presidida pelo nosso Pároco, P.e Fernando Cardoso Lemos, e animada por um Coro constituído por elementos da maioria dos Coros Paroquiais, que sob a direcção da Dra. Ângela Soares, teve um desempenho soberbo.
O texto de orientação desta Celebração Eucarística recordou o homenageado: «Celebramos hoje o 75º aniversário da morte do Padre José Ferreira dos Santos Mondego, mais conhecido como Abade Mondego e que paroquiou Leça da Palmeira durante 27 anos. Do seu apostolado na nossa Paróquia ficou o respeito que conquistou junto dos seus Paroquianos, quer através da sua atitude cívica, quer das suas pesquisas científicas, sendo um exemplo de Força e Virtude no nosso caminhar para Deus.»
Durante a Homilia, o P.e Fernando Lemos, enalteceu a vida e obra deste ilustre Pároco de Leça da Palmeira, salientando que José Ferreira dos Santos Mondego, nascido a 12 de Setembro de 1867, em São Tiago de Cassurrães, concelho de Mangualde, formou-se aos 22 anos, no Seminário de Viseu. A 12 de Outubro de 1903 foi nomeado Pároco de Leça da Palmeira, funções que exerceu até Junho de 1931. Durante 27 anos, a sua figura de um homem alto, de olhos negros, profundos e cintilantes, malares salientes, espessas sobrancelhas, sempre vestindo a sua sobrecasaca negra e um pequeno chapéu mole, marcou a vida desta Comunidade Cristã. Salientou, ainda, o seu envolvimento na vida política e principalmente a sua acção científica, nomeadamente, os primeiros estudos feitos em Portugal sobre polinização artificial realizados nas estufas que possuía nos terrenos do Passal de Leça da Palmeira, a produção de vinhos gasosos a partir de vinhos vulgares, neutralização industrial do azeite, e os vários escritos que realizou sob o pseudónimo de “José de Gomon”.
Importa referir que esteve exposto durante toda a Celebração o único retrato existente na Paróquia do Abade Mondego, pintado pelo Sr. Jorge Bento, que apresentamos na primeira página desta edição d’A Voz de Leça, e que se encontra habitualmente no gabinete da Sacristia, numa espécie de Galeria dos Párocos, ao lado de outros quadros do Padre Pote, do Padre Alcino Vieira e do actual Pároco.

Nesta Eucaristia, a acção do Abade Mondego voltou a ser recordada através dos símbolos que no momento do Ofertório foram transportados, em procissão, por representantes de diferentes Grupos Paroquiais presentes e as mensagens a eles associadas, a saber:
CÍRIO- representa a luz que nos orienta para Deus e que o Abade Mondego manteve bem acesa nesta comunidade iluminando todos os paroquianos no caminho de Deus.
BÍBLIA- recebe Senhor, o nosso louvor pela Palavra que continuamos a anunciar e que ela seja sempre fonte de vida.
FLORES- Estas foram, no início do século XX, o objecto das primeiras investigações científicas do Abade Mondego. Com elas realizou os primeiros estudos sobre polinização artificial. Estas mesmas flores simbolizam a simplicidade, a partilha, a alegria e a amizade que queremos ver crescer na nossa comunidade paroquial
ESPUMANTE- Este vinho espumoso teve origem nos trabalhos de champanização do Abade Mondego que, em meio próprio acelerava a obtenção de vinhos gasosos a partir de vinhos vulgares.
AZEITE- A neutralização industrial do azeite foi um dos últimos trabalhos do Abade Mondego no campo da investigação científica. Que a sua luz ajude a iluminar as nossas vivas em direcção a Deus e, em especial, em direcção aos nossos irmãos que mais precisam do nosso apoio, carinho e amor
CÁLICE E PATENA- o pão e o vinho são fruto da bondade de Deus e do trabalho do homem. Na Eucaristia transformam-se em força divina, alento de vida e união de todos com o Pai.

A actividade literária do Abade Mondego foi igualmente lembrada no momento de Acção de Graças, em que foi cantado o refrão “Mãe de todos nós”, que a Dra. Ângela Soares musicou, tendo a Maria da Ascensão recitado o restante poema.

CORO: Mãe de nós todos, Mãe adorada!
Ó Mãe de Deus, Imaculada!

Ave-maria, fonte do Bem, Imaculada, Virgem e mãe!
Como a ninguém Deus Te fez pura, Virgem e Mãe!
É como o sol o teu olhar, que fez na Terra a luz raiar!
Jóia sem par, fazes nas almas a luz raiar!
Tu nos conduzes com mil carinhos, neste deserto cheio de espinhos!
Manto d’ arminhos p’ra nosso peito cheio d’ espinhos!
Procura a lua entre as mais belas, engrinaldar-se toda d’ estrelas…
Rosas singelas para coroa toda d’ estrelas…
E Tu procuras somente a dor, que é d’ ametistas Teu resplendor!
Dá-nos fervor para ampliar Teu resplendor!
Tu és de todos a doce Mãe!... Dos que a não têm…
Mãe és de quem a nunca viu: dos que a não têm!
É para nós o Teu sorriso o que é p’ ra almas o Paraíso!...
Luz que diviso, és para nós o paraíso!...
A criancinha rica ou pobre, Teu alvo manto a ambas cobre,
O Teu amor a ambas cobre!
D’ amor somente é nosso anseio que nos atrai para Teu seio!
Ó doce enleio que nos atrai para Teu seio!

Esta celebração foi participada por representantes dos vários Grupos Paroquiais, no Coro de Coros, Leituras, Oração dos Fiéis, simbologia da procissão do Ofertório, distribuição da Sagrada Comunhão e momento de Acção de Graças.
Ali esteve a nossa Comunidade Paroquial a prestar sentida homenagem a um seu Pastor, que nenhum dos presentes conheceu pessoalmente mas que nos deve orgulhar pelo que quis ser aqui, em Leça da Palmeira.

J.S.
in "A Voz de Leça" Ano LIII - Número 12 - Fevereiro de 2007

quarta-feira, 31 de janeiro de 2007

Abade Mondego - 75 Anos do Seu Falecimento

No próximo dia 7 de Fevereiro de 2007 comemora-se o 75º aniversário do falecimento do Abade Mondego. Leça da Palmeira assinalará esta data, no dia 10 de Fevereiro, com a celebração de uma Missa Solene em sua memória, que contará com a presença de todos os Grupos Paroquiais, como forma de homenagem pelos anos em que paroquiou esta nossa Comunidade católica.
José Ferreira dos Santos Mondego nasceu no dia 12 de Setembro de 1867, em São Tiago de Cassurrães, concelho de Mangualde, filho legítimo de António Ferreira dos Santos e Eugénia da Trindade.
Aos 22 anos formou-se no Seminário de Viseu, sendo nomeado coadjutor para Cassurrães e, posteriormente, foi nomeado Pároco de Mesquitela, freguesia do concelho de Celorico da Beira. Mais tarde colocado em Cunha Baixa, freguesia do concelho de Magualde, seria nomeado Pároco de Leça do Balio em Janeiro de 1902.
A 12 de Outubro de 1903 foi nomeado Pároco de Leça da Palmeira, funções que exerceu até Junho de 1931. Durante 27 anos, os Leceiros habituaram-se a ver a figura do seu Pároco como um homem alto, de olhos negros, profundos e cintilantes, malares salientes, espessas sobrancelhas, sempre vestindo a sua sobrecasaca negra e um pequeno chapéu mole.
Como homem culto, interventivo e respeitado pela sua Comunidade foi, em 1909, nomeado Vereador da Câmara Municipal de Matosinhos e Presidente da Junta de Freguesia de Leça da Palmeira, funções que acumularia com as de Pároco e com os seus estudos sobre “ciências da terra”. Os primeiros estudos feitos em Portugal sobre polinização artificial foram realizados pelo Abade Mondego nas estufas que possuía nos terrenos do Passal de Leça da Palmeira. Numa pequena estufa, onde não permitia a entrada a nenhuma outra pessoa, procedia à polinização por pólen estranho de flores, obtendo novas variedades que maravilhavam a floricultura da época.
Após vários anos dedicados ao estudo da reprodução de flores, dedicou-se à produção de vinhos gasosos a partir de vinhos vulgares. Obrigava as células de champanização a proliferarem rapidamente em meio próprio e num óptimo de temperatura, o que acelerava de anos para dias a obtenção dos vinhos espumosos. Estes vinhos tiveram larga fama no mercado da época.
Após ter saído de Leça da Palmeira, e com o financiamento de uma entidade bancária, mandou construir em Estremoz um armazém e um laboratório de análise de oleaginosas, onde procurou obter a neutralização industrial do azeite. Aplicou à analise de óleos um espectroscópio de sua invenção, baseado na construção de um prisma oco, onde era lançado óleo aquecido exteriormente por circulação de água a uma temperatura determinada por um termómetro mergulhado no óleo e obtendo imagens de luz imanada de um colimador, com diferentes riscas de Fraunhoffer, que caracterizavam o óleo a ensaiar. Executados os desenhos do aparelho, com nónio circular e perfeito acabamento, foi mandado executar na Alemanha, onde passou a ser descoberta teutónica.
Durante a sua permanência em Leça da Palmeira, dedicou-se igualmente à literatura. Escrevendo sob o pseudónimo “José de Gomon”, publicou dois romances sobre a vida dos cristãos nos primeiros séculos do Cristianismo: «Cholé», publicado em 1923, e «Minia», em 1925, e vários artigos em jornais, sendo igualmente autor de poesias religiosas que foram cantadas, durante vários anos, pelas crianças da nossa freguesia nas cerimónias da Profissão de Fé.
Após a implementação da República em Portugal, instalou na Rua da Alegria, (esquina da Rua do Matinho), juntamente com o Dr. José Domingues de Oliveira e o Major António de Laura Moreira, uma escola primária para crianças pobres, onde ensinava a moral católica. Esta escola manteve-se até 1915.
Do seu apostolado em Leça da Palmeira, merecem destaque as cerimónias da Comunhão Solene, a Procissão dos Enfermos, o restauro da Capela do Sagrado Coração de Jesus e a construção da sala anexa à Sacristia.
Alvo de perseguição política por parte de vários demagogos que não aceitavam o desenvolvimento que trouxe à ciência e os seus escritos, retirou-se já doente para Viseu, onde viria a falecer em Janeiro de 1932.

J.S.
in "A Voz de Leça" Ano LIII - Número 11 - Janeiro de 2007

domingo, 31 de dezembro de 2006

"Talhas" do Tempo da Minha Avó

Talhar -Segundo o dicionário de língua portuguesa talhar significa cortar, ajustar, esculpir. No contexto popular toma o significado de erradicação de doenças através de rezas e medicina tradicional.

O uso das talhas
A medicina no passado não era tão eficaz como o é hoje em dia. O número de médicos era reduzido e não acessível a toda a população.Transmissão de pais para filhos de certas mezinhas e rezas para a cura de doenças.

Aspectos comuns das Talhas
O ditar de uma lengalenga durante o acto de talhar. O uso corrente de três repetições na maioria dos casos → representação simbólica da santíssima trindade (Pai, Filho e Espírito Santo). O uso do sinal de cruz → simbolismo da santíssima trindade e ressurreição. A utilização de um elemento simbólico ou medicamento tradicional.

Oração Final
O uso do sinal de cruz → simbolismo da santíssima trindade e ressurreição. A utilização de um elemento simbólico ou medicamento tradicional.

Em louvor de S.Silvestre
Tudo o que faço preste
E que Jesus Cristo
Seja o verdadeiro mestre


Bicho (herpes) - Elemento simbólico: tição
Lengalenga (3 vezes com o tição em sinal da cruz sobre a boca):

Bicho, bichão.Sapo, sapão.
Aranha, aranhão. Cobra do monte.
E bicho de toda a nação.
Esturricado sejas tu como este tição


Aberto (costas) - Elemento simbólico: mulher de dois filhos de ventre.
Lengalenga (a pessoa com dois filhos de ventre colocava os pés sobre as costas da pessoa doente que estava deitada):

Porque paristes? (Pessoa enferma). E tu porque abristes? (Pessoa que talha).
Assim como eu sarei da minha paridura. Também vais sarar da tua abertura.

Trasorelho (papeira) - Elemento simbólico: jugo de bois
Lengalenga (3 vezes com jugo sobre as costas do doente):

Assim como boi e vaca. Cangam aqui. Trasorelho sai-te daqui.

Aftas - Elemento simbólico: luz à noite
Lengalenga (3 vezes):

Oh luzinha da banda de além. Tira as aftas que a minha boquinha têm. Amén.

Dada - Elemento simbólico: 3 canas de vide secas
Lengalenga (3 vezes durante 3 dias em sinal da cruz com as canas de vide):

Quando Deus por mundo andou. Bom Homem lhe deu pousada.
Má mulher lhe fez a cama. E de vides e de lama . Sai-te dada desta mama.

Zipela (Erisipela) - Elementos simbólicos: água da fonte, azeite e carqueja.
Lengalenga (numa malga mistura-se um fio de azeite em água e introduz-se um ramo de carqueja. Depois sobre a zona afectada passa-se o ramo em sinal da cruz 3 vezes):

Pedro Paulo foi a Roma. Jesus Cristo encontrou.
E o Sr. lhe perguntou. Pedro Paulo donde vens?
Oh senhor, venho de Roma. Que morre lá muita gente.
Com quê? Com zipela e zepela. Toda a gente morre dela.
Torna a trás Pedro e talha. Com água da fonte, carqueja do monte e Azeite Bento
Como o que alumia. O santíssimo sacramento. Amén

Pulso aberto -Elemento simbólico: Novelo de lã com uma agulha.
Lengalenga (durante 3 vezes enfia-se uma agulha sem dar o nó no novelo para que agulha entre e saia da mesma maneira):

Eu que coso? (pessoa que talha) Linha quebrada e fio de estroço (pessoa lesionada)
Pois é isso mesmo que coso (pessoa que talha)


Íngua- Elemento simbólico: estrela
Lengalenga (3 vezes a olhar para uma estrela):

Oh estrelinha brilhante. A minha íngua diz.
Que seques tu e viva ela. Mas eu digo que seque ela e vivas tu.


Acrescenta o autor desta pesquisa que: “…algumas pessoas acrescentaram algumas observações entre as quais: a utilização do jugo aquecido pelo bois no talhar do trasorelho e a utilização de uma terrina de água com uma púcara de barro invertida sobre esta no talhar do pulso aberto (disseram-me que esta "talha" só terminava quando a água da terrina fosse toda absorvida pela púcara de barro).”

Rodolfo Rodrigues
in "A Voz de Leça" Ano LIII - Número 10 - Dezembro de 2006
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(Pesquisa feita junto de sua avó, respondendo ao desafio lançado aos elementos do Rancho Típico da Amorosa para recolherem traços da vida Leceira de outros tempos)

Leça da Palmeira - Uma Viagem no Tempo

1 – INTRODUÇÃO

É impossível dissociar Leça da Palmeira do rio Leça, do mar e das suas praias, no entanto, neste trabalho, vamos procurar a sua história cultural: as suas raízes, a sua arquitectura, o seu património, ou pelo menos parte dele e as figuras de destaque a ela ligadas.
Leça foi denominada de S. Miguel de Palmeira, Lessa de Palmeira, Lessa de Matosinhos e de S. Miguel de Moroça. A Infante D.Mafalda, filha de D.Sancho I, menciona a igreja de Moroça, em contrato celebrado com o Bispo do Porto, já em 1260. Em 1543, no reinado de D.João III, o seu padroado foi concedido à Universidade de Coimbra. Em 1758 o lugar de Leça da Palmeira, propriedade do Marquês de Fontes e Abrantes, era habitado por 707 pessoas que viviam das soldadas de pilotos, mestres de navios e marinheiros, tirando-se da terra milho, feijão e algum centeio e cevada. Foi elevada a vila, juntamente com a freguesia de Matosinhos, em 1853, durante o reinado de D.Maria II, e em 28 de Junho de 1984, ainda com a vila de Matosinhos, elevada a cidade.

2 – A QUINTA DA CONCEIÇÃO

Na Boa Nova junto ao farol, onde ainda existe a capela de S.João da Boa Nova, outrora oratório de S.Clemente das Penhas, existiu em tempos um mosteiro onde viviam: “entre penas e rezas um punhado de eremitas franciscanos” (Gomes, 1996:26), tendo-se mudado em 1475 para o
convento da Quinta da Granja, pertença do Mosteiro de Leça do Balio, tendo passado a chamar-se da Conceição.
A actual Quinta da Conceição é um dos ex-libris de Leça da Palmeira, tendo sido adquirida pelo Estado em 1956 por causa do alargamento do porto de Leixões. Em 1483 recebeu uma imagem da Virgem Maria executada pelo mestre Diogo Pires, de Coimbra, em pedra de ançã, oferecida pelo rei D.Afonso V e que actualmente se encontra na igreja paroquial. Na referida Quinta podemos ainda hoje ver: a sua residência senhorial (construção do séc.XIX), um pórtico manuelino, entrada para o mosteiro que lá existiu, o chafariz do claustro, “uma fonte de espaldar em pedra trabalhada” (Marçal, 1957:10), vários bancos de pedra e o tanque rectangular, de S.João, com 8m de comprimento, do meio do qual se ergue um artístico chafariz, cujo pináculo é formado pelo escudo da Ordem Franciscana. Há ainda outra fonte do tempo dos frades, em forma de concha abobadada, em frente a uma capela, a capela de S.Francisco, construída ou restaurada por Nicolau Nasoni, entre 1743 e 1747, vendo-se no altar: “uma apreciável escultura de Cristo na cruz, com o braço direito despregado e pousado no ombro esquerdo dum S.Francisco de roca, que está de pé voltado para o Cristo e junto do crucifixo” (Bento, 1993:109), sendo que o altar é em retábulo do séc.XVIII, em estilo rocócó. Na referida capela, podemos ainda encontrar uma imagem de Cristo morto, do séc.XVII, um Sto.António do séc.XVI e um S.Roque da mesma altura, bem como uma lápide sepulcral de Frei João da Póvoa. A Quinta tem ainda belos jardins e vegetação frondosa, que leceiros, e não leceiros, aproveitam bem em época estival.
Mais recentemente, ainda na Quinta, foi construída uma piscina, cuja autoria é do Arquitecto Siza Vieira, aliás como o são: a piscina das marés, construída em cima da praia de Leça, envolta pelos penedos, e a famosa Casa de Chá da Boa Nova; isto para referirmos alguma da arquitectura mais recente desta cidade.
3 – QUINTA DE SANTIAGO


Quase contígua à Quinta da Conceição, podemos encontrar a Casa Museu da Quinta de Santiago, actual pertença da C.M.Matosinhos, tendo sido mandada construir, na última década do séc.XIX, por João Santiago de Carvalho e Sousa, para sua residência. A obra é assinada pelo Arquitecto Nicola Bigaglia que: “empresta à obra um tom muito diverso no qual elementos neomedievais se vão integrar e dar corpo a um conjunto de ambiência renascentista” (Lima, 1996:21).
Na casa coabitam vários estilos decorativos: neomedieval, Luís XVI, holandês e Arte Nova.
Insere-se num parque grande e frondoso. A casa tem 4 pisos: um térreo, um rés-do-chão elevado, 1º andar e sotão, tendo ainda um torreão, conforme pedido expresso do proprietário. A entrada principal abre para uma galeria onde imperam os motivos familiares (nome e armas de família) e neomedievais, seguida de uma divisão designada de “fumoir” (Lima, 1996:104) que antecede as salas.
O salão Luís XVI faz-nos pensar que entramos noutra casa, é a sala de receber, toda em estilo neoclássico, estuques trabalhados, paredes forradas a seda rosa e tons de ouro, tectos pintados, um bem ornamentado fogão de sala e um balcão, bem iluminado, sobre o jardim.
No rés-do-chão, além deste salão, podemos ainda encontrar a sala de jantar, a sala do piano e o jardim de Inverno.
Uma escadaria, onde se destacam pintados no tecto, os signos astrológicos dos 3 residentes da casa, e onde também encontramos um vitral e um lambrim, dá acesso à zona dos quartos (3), um oratório e aos espaços de higiene.
A torre tem um mirante, cuja vista actual é sobre o porto de Leixões, e antes seria sobre o bucólico rio Leça.
O sotão destinava-se aos quartos dos criados e o piso térreo à cozinha e arrecadações. De salientar que os criados circulavam da cozinha para o sotão e sala de jantar, por uma zona de escadas interiores, sem nunca passarem nos aposentos principais da casa. Actualmente os espaços interiores e exteriores da Casa destinam-se a Museu.
Existe uma exposição permanente de pintores ligados a Leça e Matosinhos, como: António Carneiro (1872-1930), Agostinho Salgado (1905-1967) e Augusto Gomes (1910-1976), ocorrendo várias exposições temporárias durante o resto do ano. Nos jardins também se encontram permanentemente obras de escultura contemporânea, realizando-se de tempos a tempos outras exposições também de escultura, dado que a parte exterior da casa privilegia esta arte.
Em suma, uma visita a não perder.


4 – PERSONALIDADES DA CULTURA


Aproveitando o último parágrafo do tema anterior, mencionaremos de seguida alguns dos nomes mais importantes ligados a esta terra, assim temos:

- Na pintura: António Ramalho, António Carneiro, Agostinho Salgado
- Na arquitectura: Siza Vieira;
- Na música: Óscar da Silva;
- Na literatura: António Nobre;

António Ramalho nasceu em Mesão Frio, a 13.Nov.1859. Aos 11/12 anos foi levado pelo pai para o Porto para aprender um ofício no comércio (marçano numa mercearia de um parente abastado). Como não lhe agradasse o ofício, fugiu para Lisboa, hospedando-se na casa da madrinha, indo estudar Belas - Artes. É conhecido sobretudo pela sua vertente retratista:
retratos de Alexandre Cabanal, D.Maria Adelaide Rocha Viana, Senhora de Preto, entre outros. Pintou, igualmente o retrato do rei D.Carlos. Tem, no entanto, numerosos quadros sobre Leça e o seu rio, como: Ponte de Guifões e Passeio à Boa Nova, referentes ao seu lado paisagista.
António Carneiro, em Matosinhos e em Leça da Palmeira pintou muito, fazendo largo uso do seu culto de artista.
A sua obra mais conhecida, patente na Quinta de Santiago, é o “Ecce Homo”.
Óscar da Silva é o músico mais representativo de Leça da Palmeira, onde jaz no cemitério local. A sonata “Saudade” é a sua obra mais conhecida e insere-se no movimento intelectual gerado no nosso país, depois de 1910, denominado de “saudosismo”. Foi publicado recentemente, com o apoio da C.M.Matosinhos, o livro “Óscar da Silva - Sonata Saudade – A Viagem”, de A.Cunha e Silva, cuja apresentação decorreu no salão nobre dos Paços do Concelho de Matosinhos, com interpretação do 1º Andamento da referida obra, para piano e violino, por professores do Conservatório de Música do Porto, a que tive o privilégio de assistir, memorável.
Falar de Leça sem falar de António Nobre (1867-1900) seria um crime. Nasce no Porto a 16.Nov.1867. Vive em Leça durante os meses de Verão, o suficiente para se enamorar do mar e desta terra, que, por sua vez, em cada canto lhe presta homenagem, veja-se num dos rochedos, junto à Boa Nova, a quadra que transcrevemos:

“Na Praia lá da Boa Nova, um dia
Edifiquei (foi esse o grande mal)
Alto Castello, o que é a phantasia,
Todo de lápis-lazzuli e coral!”

As esculturas em sua homenagem, o seu jazigo no cemitério local, sempre enfeitado pelo povo anónimo, ou a Rua dos Dois Amigos (António Nobre e Alberto Oliveira), ou a Rua Fresca que é uma das artérias mais ligadas às estadias do poeta são outros dos testemunhos que Leça lhe devota.
Em Abril de 1892 publica a sua obra mais emblemática, o “Só”. “Uma poesia despojada de convencionalismos, aberta ao rio da palavra e da vida” (Cláudio, 2001:109).

5 – CONCLUSÃO

Após mencionar aspectos culturais ligados à arquitectura, pintura, música e literatura, muito mais haveria para dizer e escrever sobre Leça da Palmeira e seu património. Este, no entanto, é um trabalho que pretende apenas chamar a atenção para uma localidade rica em História da Cultura Portuguesa.

Manuela T. Rocha dos Santos
in "A Voz de Leça" Ano LIII - Número 10 - Dezembro de 2006
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(1) Este artigo foi realizado no âmbito de um trabalho para a disciplina de História da Cultura Portuguesa, do Curso de Psicologia da Universidade Lusíada do Porto.

sexta-feira, 30 de junho de 2006

Mais Memórias da Agricultura Tradicional

A propósito da pequena reportagem publicada na edição anterior d’A Voz de Leça, sobre a colecção de miniaturas, réplicas de apetrechos e máquinas da agricultura tradicional, devidamente integradas em cenas da vida rural, que o Sr. Macedo, de Gonçalves, se dedica a construir, A Voz de Leça foi, também desta vez, recebida com muita simpatia, pelo Sr. Nogueira e pela D. Albina, primos do Sr. Macedo e um casal conhecido de Leça, também pela sua colaboração a vários níveis na vida Paroquial
O Sr. Nogueira, mentor da ideia de construir estas peças junto do nosso entrevistado anterior, possui duas colecções distintas: uma de miniaturas e outra de peças em tamanho real, que conserva dos tempos em que a agricultura era a principal actividade da família. Embora tendo partido de si a ideia das réplicas em miniatura, foi-as construindo de forma aleatória, sem preocupações de escala ou de as relacionar entre si, pelo que a colecção integra também algumas peças iguais, mas com diferentes tamanhos. No entanto, merece registo o detalhe, os acabamentos, mas acima de tudo, o funcionalismo, já que a “nora” tem água, como se estivesse sobre um poço, o arado possui o mecanismo que permite mudar de direcção, a ceranda e a debulhadora igualmente. Comporta ainda enxadas de vários tamanhos e tipos, os ancinhos vão dos tradicionais ao do de dentes de madeira para ser usado na eira com os cereais, a grade, o saxador, o semeador, a bomba de água, a ratoeira das toupeiras, os funis das chouriçasDepois, pudemos apreciar uma espécie de “museu” de máquinas, alfaias e outros apetrechos dos tempos em que a agricultura era verdadeiramente artesanal, tudo em tamanho natural e a funcionar. Do “espremedor” das uvas ao “espremedor” de banha (um recipiente parecido com o do anterior, mas mais baixo e com perfurações laterais), à debulhadora, uma balança de pesos (daquelas que estão sempre calibradas…), saxadores, arado, “cangas” e “jugos” antiquíssimos, “cofinhos” dos bois, às botas de ir para o campo, à “escova” dos animais…

Este gosto do Sr. Nogueira pela preservação da memória do que foi a principal actividade da zona da Amorosa, onde reside, revela-se também no imponente espigueiro que se destaca ao lado do jardim, onde também uma pedra de espremedor serve de decoração e um tanque de pedra antigo comporta uma palmeira, numa feliz combinação entre o tradicional e o moderno, resultando numa manifestação de claro bom gosto.

A VOZ DE LEÇA agradece ao Sr. Nogueira e à D. Albina a disponibilidade e simpatia com que nos receberam.


Marina e Jorge Sequeira
in "A Voz de Leça" Ano LII - Número 4 - Junho de 2006

terça-feira, 31 de janeiro de 2006

Obra do Padre Grilo - Um Lar Para Muitos Rapazes

“Eu queria uma casa onde os meus meninos, os abandonados da vida, pudessem ter uma atmosfera livre e benfazeja para se desenvolverem na santidade da sua vida.(…) Queria que crescessem sempre na ilustração da alma, na alegria da sua idade para que os possa ilustrar, educar, santificar e colocar para que sejam cidadãos prestimosos à pátria e às suas próprias almas.”

Foi desta vontade do Padre Grilo que nasceu a OBRA DO PADRE GRILO, sedeada desde 1963 na Rua DR. Filipe Coelho, em Matosinhos, mas que, 21 anos antes, fora a Obra Regeneradora dos Rapazes da Rua, sem edifício próprio, funcionando na casa do fundador.
Oriundo de uma família humilde de Ílhavo, Manuel Francisco Grilo nasce a 14 de Maio de 1888, (a mãe era padeira e o pai ‘marítimo’). Viria a ter seis irmãos e a formar-se no Seminário de Coimbra, diocese onde foi ordenado sacerdote em 1910, com 22 anos. Mas os seus tempos de estudante não foram apenas dedicados aos estudos teológicos, tendo também frequentado Agronomia e Medicina ao mesmo tempo que adquiria vastos conhecimentos musicais no seminário. Pelas suas ideias inovadoras a vários níveis, que já aplicava na ajuda aos mais desfavorecidos, incompatibilizou-se com as “altas esferas” civis e viria a ser julgado, condenado e expulso do distrito de Aveiro em 1913. Vem, então, viver para Leça da Palmeira, para casa de uma familiar, tornando-se Capelão da Capela de Santo Amaro, partindo daí toda a sua acção em Matosinhos. Entretanto compõe música e pinta.
Em 1928 funda a Conferência de São Vicente de Paulo da Juventude em Matosinhos, de que resulta a Sopa dos Pobres, que viria a alimentar e vestir cerca de 680 pessoas, na maioria da classe piscatória, que viva em grande miséria. Funda ainda um refúgio para crianças abandonadas e em 1932 as Escolas Católicas, criando ainda o Secretariado do Desemprego. Segue-se, na sua própria casa, a Obra Regeneradora dos Rapazes da Rua, em 1942, que passa depois para a Rua Roberto Ivens e finalmente consegue a “Obra que o consome e que o totaliza”, a sede da OBRA, na Rua Dr. Filipe Coelho, inaugurada a 28 de Julho de 1963.
Para conseguir levar por diante esta sua Obra, vai pedir pelas ruas, vai até às casas de jogo. Envolve-se no negócio das conservas, cujos lucros aplica na sua acção caritativa.
Morre a 1 de Novembro de 1967 e a 1 de Novembro de 1988, os seus restos mortais são transladados para a Capela da OBRA do seu próprio nome, correspondendo ao seu desejo de ficar junto dos “seus meninos”. Ali está, pois, nas palavras da Directora da OBRA, Dra. Conceição Sousa e Silva, “a velar pela Obra que em vida o consumiu e a atrair corações que se reencontram na caridade”.

Numa época em que tanto se ouve falar de crianças mal tratadas, a quem se retirou toda a dignidade, a OBRA DO PADRE GRILO é como um pequeno oásis, talvez não tão conhecido como outras instituições mais mediatizadas, mas bem familiar para a maioria dos habitantes do concelho de Matosinhos e com uma ligação especial a Leça da Palmeira, porque foi aqui que o seu fundador primeiro viveu e o nosso Pároco, Padre Lemos, é presidente da Direcção.

Há cerca de 20 anos nas funções de Directora Executiva da OBRA, a Dra. Conceição Sousa e Silva exerce-as com muito empenho e dedicação, mas sobretudo com muita alegria e é com um sorriso largo e um brilhozinho nos olhos que fala dos seus “meninos” e da OBRA. “Neste momento a OBRA é sobretudo um Lar, onde os rapazes são vestidos, calçados, têm cuidados de higiene e de saúde. Neste aspecto as coisas não são fáceis, mas ainda há quem ajude. Por exemplo, os tratamentos dentários são feitos na Clínica de Leça, por metade do custo.” Actualmente, a maioria dos rapazes tem mais de 10 anos e estão definidos três grandes grupos etários: um, dos mais pequenos até aos que andam no 4º ano, outro dos que andam no 2º ciclo e 7º/8º anos e o dos maiores que frequentam cursos técnicoprofissionais, com zona específica de quartos, horários para as refeições, salas para estudo separadas, salas de televisão, horas de deitar diferentes.
Professora de Físico-Química numa escola secundária de Vila da Feira, quando instada a comparar os seus “meninos” com os outros que tem na escola, não vê grandes diferenças, até nos problemas que apresentam. Os rapazes da OBRA frequentam as escolas de Matosinhos adequadas ao seu ciclo de ensino, sendo que é entre os que frequentam o 2º ciclo que tem surgido o problema do absentismo escolar. “Eles vão à escola mas não vão às aulas, e não temos forma de resolver este problema. Sabemos que entram na escola e que, pelo menos, ficam no recreio a jogar à bola. Isto só se resolve quando houver acordo entre os Ministérios da Educação e da Justiça, no sentido de trazer os professores às instituições para estes casos. No 1º ciclo não acontece porque as escolas são mais pequenas, é sempre o mesmo professor e controla-se melhor.”
Actualmente com cerca de setenta e cinco crianças, entre os dois e os dezoito anos, a OBRA DO PADRE GRILO trabalha em convénio com a Segurança Social, que para ali encaminha rapazes da região do Grande Porto, cujas famílias foram dadas como não capazes de lhes proporcionar um desenvolvimento saudável a todos os níveis. Enquanto que durante muitos anos os rapazes que eram acolhidos chegavam à OBRA de forma quase completamente informal, sem grandes procedimentos burocráticos, quase particularmente, hoje em dia, em especial desde que o caso da Casa Pia de Lisboa foi despoletado para o conhecimento público, o acolhimento tem que acontecer pelas vias legais e se não o for numa fase inicial, o processo tem que ser encaminhado para a Segurança Social, tão breve quanto possível. Apesar de oficialmente a OBRA também ser um centro de acolhimento temporário, diz a Dra. Conceição que “este temporário é um pouco ‘longo’. Temos aqui um rapaz que tinha 9 anos quando chegou e hoje tem 18. Está a preparar-se para voltar para a família. Vai viver com uma tia e tem já uma perspectiva de emprego, mas sei que preferia ficar…”.
A OBRA já teve Jardim-de-infância aberto à comunidade, mas com o aparecimento dos Centros de Acolhimento Temporário, onde é feito o diagnóstico inicial da situação da criança, deixou de se justificar a existência daquela estrutura, e agora os mais pequenitos frequentam o Jardim-de-infância da Paróquia, embora tenha uma Educadora de Infância em permanência e um espaço muito agradável para ocupar os seus tempos na casa.Além destas instalações, na Rua Dr. Filipe Coelho, no centro da cidade, a OBRA é proprietária de uma Quinta em Gondim, que foi adquirida por troca com umas casas e um terreno que recebera por testamento de um benemérito. È ali que é proporcionado aos rapazes um tempo de férias, todos os anos.
Recentemente a OBRA viu as suas instalações urbanas enriquecidas com o novo auditório recentemente inaugurado, que já permitiu a presença da família de muitos dos rapazes na festa de Natal.
O que ajuda a manter a Obra, além dos donativos, é um pouco de tudo o que recebem, do Continente, de padarias da zona, do Mercado da Fruta, de restaurantes. Tudo é aproveitado: as roupas e o calçado são organizadas por tamanhos de acordo com o que os miúdos vestem, os alimentos são acondicionados de acordo com as suas características e preparados com os cuidados de higiene exigidos oficialmente, já que a Inspecção-geral de Saúde também ali faz “visitas” com alguma regularidade.
Depois há uma equipa de funcionários que assegura os serviços, da cozinha à lavandaria, com horários, férias e todos os seus direitos legais assegurados, que, sob a supervisão da Dra. Conceição, tornam esta instituição numa grande família e numa retaguarda forte para aqueles rapazes aprenderem a ser homens capazes de enfrentar uma sociedade às vezes tão cruel e desumanizada.

Também ali se faz um Boletim chamado “AEIOU”, onde se noticia um pouco de tudo o que acontece na OBRA e onde todos participam, dos mais miúdos aos maiores. Tivemos oportunidade de dar um vista de olhos no último número, que era, obviamente, sobre o Natal, e lá estavam anedotas com graça, a participação de alguns miúdos em equipas do Académica de Leça, histórias sobre estrelas…

A VOZ DE LEÇA agradece a disponibilidade e simpatia da Dra. Conceição Sousa e Silva, que nos recebeu e acompanhou na visita às instalações e das funcionárias, Joana, que serviu de guia em parte da visita e Araci, que foi quem nos atendeu, e nos proporcionou um primeiro contacto com a casa.


Marina Sequeira
in "A Voz de Leça" Ano LII - Número 10 - Janeiro de 2006

quarta-feira, 31 de março de 2004

Entrevista a D. João Miranda - Bispo Auxiliar do Porto durante a Visita Pastoral de 2004

“ A EVANGELIZAÇÃO NÃO COMPETE APENAS AOS BISPOS E AOS SACERDOTES, MAS A TODOS, PELA PALAVRA E PELO TESTEMUNHO.”

A Visita Pastoral à Vigararia de Matosinhos, iniciada há um ano atrás no Padrão da Légua, terminou na nossa paróquia com a presença entre nós de D. João de Miranda, Bispo Auxiliar do Porto, entre os dias 5 e 14 de Março.

Com o trato simples, simpático e informal que caracterizou a sua estada nesta paróquia, atendeu o pedido d’A Voz de Leça para uma entrevista, onde ficam registados os princípios gerais que presidiram a esta Visita Pastoral.

A Voz de Leça (V.L.) – Um dos principais objectivos da Visita Pastoral é o de que o pastor “sinta o pulso ao seu rebanho”. Como é que o Sr. D. João sentiu “o pulso” desta comunidade de Leça da Palmeira?

D. João Miranda Teixeira – Leça é uma comunidade muito grande. Tem uma parte de gente afecta à Igreja, que normalmente a contacta e frequenta. Há um leque grande de pessoas que eu não vi nem me viram a mim e que, provavelmente, estará um pouco afastada e aí é que está o problema dos tempos actuais – é preciso não só fazer com que essa gente venha à Igreja, mas com que o sinal da Igreja esteja presente. No entanto, aqui sente-se que há um número elevado de crentes que mantém fidelidade ao Evangelho.

V. L. – Num âmbito mais alargado, o que se propõe a Igreja fazer para chamar mais crentes à prática religiosa?

D. João Miranda Teixeira – Provavelmente não é estando na posição tradicional de ficar à espera que os crentes venham por si. É o próprio Papa que diz, no início deste terceiro milénio, que é necessário que a Igreja saia e vá, como no princípio, quando foi preciso que os apóstolos saíssem e fossem evangelizar. Começaram pelas cidades. É isso que é preciso fazer, neste início do terceiro milénio – não se contentar apenas com aqueles que vêm, mas sentir que a evangelização não compete apenas aos bispos e aos sacerdotes, mas a todos de alguma maneira, pela palavra e sobretudo pelo testemunho. Os eixos da vida cristã são esses.

V. L. – Na apresentação da paróquia a V. Exa. Rev.ma, das palavras que dirigiu aos presentes pareceu que terá ficado com a ideia de que, dado o elevado número de grupos ali referido, a colaboração na paróquia estaria um pouco fragmentada. Mantém essa opinião?

D. João Miranda Teixeira – Aquela apresentação podia dar a entender que os 27 grupos ali apresentados estariam justapostos ou fragmentados. Penso que não é isso que se passa. Tal como conversei já com o Sr. P.e Lemos talvez seja agora necessário que venha a existir um Conselho Pastoral, que ajude a congregar e a programar a pastoral paroquial, unificando e também distribuindo o trabalho. A Assembleia Paroquial já existe e o sr. P.e Lemos diz que está a tentar caminhar para um grupo mais pequeno mas representativo. Cada um dos grupos existentes justapõe-se aos outros e um conselho fará com que haja representatividade de todos os grupos num grupo mais reduzido, que depois coordena o trabalho.

V. L. – A maioria das pessoas tem a ideia de que um bispo é uma pessoa distante, que diz coisas difíceis e o Sr. Bispo trouxe-nos uma imagem, de simplicidade, proximidade e até informalidade para com todos. Esse aspecto foi mais visível na visita às escolas…

D. João Miranda Teixeira – A ida a escolas ou outros lugares públicos é o pôr em prática aquilo que referi antes – o sair e ir ao encontro das pessoas, que muitas vezes não vêm à igreja. Se calhar muitos dos alunos com que contactei nas diversas escolas não tem a cultura familiar da frequência da igreja. O ir até eles um padre e um bispo, de uma forma mais ou menos definida há-de deixar “um toque” nas suas vidas.

V. L. – Na Vigararia há vários jornais paroquiais. O que pensa sobre o seu papel no “sair” para a comunidade?

D. João Miranda Teixeira – Alguns são jornais com bastante impacto, mesmo fora da paróquia a que pertencem. Alguns jornais paroquiais são simples, apenas uma “folha”. A VOZ DE LEÇA está num patamar intermédio. Acho que todos têm um lugar importante, porque chegam a casa das pessoas. Sem fazer campanhas que podem provocar reacção adversa, um jornal paroquial é um veículo que a paróquia pode aproveitar para levar até às pessoas outros factos da paróquia, outros valores humanos, sem ser apenas a missa e a procissão.

V. L. – Que balanço faz da Visita Pastoral?

D. João Miranda Teixeira – Na paróquia de Leça sente-se um grande cunho de religiosidade. Esta religiosidade pode ter dois desfechos: ou se extingue ou se fortalece. Para se fortalecer é necessária a formação pela catequese e evangelização. Há um tipo de religiosidade que se recebe da família e essa está hoje posta à prova – pode desaparecer, nomeadamente entre os jovens e adolescentes. Ou pode reforçar-se. Em Leça verifica-se uma grande presença de jovens na vida paroquial e essa presença é muito importante, porque se não houver renovação, a religiosidade envelhece com as pessoas mais velhas, e, embora não desaparecendo, fica muito reduzida.

V. L. – Gostaria de deixar alguma mensagem à paróquia de Leça?

D. João Miranda Teixeira – Uma das mensagens é no sentido de que se constitua, se for possível e quando for possível, o Conselho Pastoral, que pode ajudar a dar uma dinâmica nova à paróquia. Outra é de que a paróquia e o pároco aproveitem o sentido religioso que há nas gentes de “beira-mar”, para daí dar o salto para a consciencialização da fé. Leça da Palmeira foi marítima e agrícola, hoje recebe muita gente de fora e essa mistura carece de um trabalho de formação para construir as bases para a integração activa desses crentes na vida religiosa da paróquia que os recebe.



Marina e Jorge Sequeira


Biografia:

Nasceu no dia 1 de Dezembro de 1935 em Vila Verde, Felgueiras.
Entrou no Seminário de Ermesinde em 1948.
Terminou o curso de Teologia no Seminário da Sé em 1960.
Ordenação Presbiteral: 7 de Agosto de 1960.

Nomeações:

Em 1960: nomeado Professor e Prefeito do Seminário do Sagrado Coração de Jesus, em Gaia (1960-1963);
Em 1963: nomeado Vice-reitor do Seminário do Paraíso, na Foz;
Em 1966: nomeado Prefeito do Seminário Maior do Porto;
Em 1967: estudou em Roma, no Pontifício Ateneu Salesiano;
Em 1968: nomeado Vice-reitor do Seminário do Bom Pastor, em Ermesinde (1968-1983);
Em 1983: nomeado Bispo Auxiliar do Porto, até ao presente.
Em 21 de Setembro de 1999 D. Armindo Lopes Coelho, Bispo do Porto, atribui-lhe especial responsabilidade do Secretariado da Família, Secretariado dos Religiosos e Religiosas e Institutos Seculares, bem como do Renovamento Carismático.
Em 30 de Novembro de 2006 nomeado Administrador Apostólico "sede plena et ad nutum Sanctae Sedis" da Diocese do Porto.
Endereço: Casa Episcopal - Terreiro da Sé - 4050-573 PORTO Tel.: 223392330 - Fax: 223392331 - email: domjoao@diocese-porto.pt